Longe de casa: Ter mais tempo para o Mistério
Grandes festas grandes solidões
Não me lembro, desde que sou padre, de ter passado um Natal em casa. Exactamente porque as celebrações não me deixavam margem para fazer mil e quinhentos quilómetros na noite da Consoada.
Por:António Rego Padre
Talvez por isso deixei cair algum romantismo e fiquei com mais tempo para o Mistério. A noite da Consoada nas diferentes comunidades sacerdotais em que tenho vivido, sempre foi um pouco apressada porque tinha e tenho de estar leve e fresco para a celebração nocturna. E, quando se juntavam ou juntam amigos, sempre me senti um pouco alheio às ementas natalícias e àquele ar sisudo de Consoada imperdível como se fosse a celebração central da vinda de Jesus. Nada disto revela ou esconde virtude. Foi e é assim e não me sinto nada mal.
festas e de grandes solidões exactamente pelo acento exagerado nas farturas de afecto que a quadra sugere. E não esqueço a impressão de efémero que sempre me deixa. Papéis, plásticos, embrulhos, fitas, cartões, sorrisos profissionais, tudo se evapora rápido de mais com a ilusão de um dever cumprido que às vezes é um pesadelo. Mas sei que não podemos trocar isto pelo nada ou permitir que o Natal desapareça ou se esvazie do seu significado.
Nunca recusei o tom de festa, simplicidade, alegria quase infantil que directa ou indirectamente nos toca. Mesmo que não explicite muitos símbolos cristãos, o Natal acaba por lembrar o melhor que há em nós e isso não pode estar distante do Mistério da Encarnação e da lição sublime do presépio. E a sociedade parece que se presta a aceitar valores e baixar armas de discursos agressivos e discussões inúteis. Jornais e telejornais têm pena de nessa noite dar notícias de guerras, bombas e tragédias. No fundo, há uma nostalgia que nos invade a partir do Mistério da Encarnação. Esse, sim, responde diante de Deus e dos homens à sede profunda de salvação que nunca deixa de nos inquietar.