Grande Entrevista: Francisco George
“Não há fundamento científico para duvidar da vacina”
O director-geral de saúde garante que a vacina contra a gripe A é segura, mesmo para as grávidas. Numa conversa sobre pandemias, Francisco George lembra uma carreira que o levou a conhecer todos os continentes.
Por:José Carlos Marques
- Uma das prioridades no combate à pandemia de gripe é combater o medo das populações. Isso tem sido conseguido?
- Consegue-se com intervenções pedagógicas por parte sobretudo de quem tem a responsabilidade de informar os portugueses dos riscos a que estão expostos. Neste caso, essa responsabilidade é do Estado e dos seus organismos. A ministra da Saúde e os dirigentes dos diferentes organismos que têm esta responsabilidade têm que informar os cidadãos desses risco e têm também, de uma forma constante, de apresentar explicações transparentes, rápidas e consistentes sobre as medidas que estão a ser tomadas para proteger os portugueses. É aliás esse trabalho que tem sido conduzido desde Abril e estou convencido de que, se assim não tivesse acontecido, a situação de alarme poderia ser mais expressiva do que a situação que temos. De qualquer forma, temos de distinguir sempre o alarme que gera pânico e é prejudicial e inimigo do controlo dos problemas de uma outra dimensão de alarme, que é o de estar alerta, estar atento e compreender os fenómenos, saber o que se está a passar. Temos de falar a verdade, com transparência, sem alarmismos, mas também sem omissões. Há aqui um equilíbrio que julgo que é reconhecido pela grande maioria dos portugueses.
- A mensagem tem passado?
- Seguramente que a mensagem tem tido efeitos positivos. Relativamente à actividade gripal, que poderá agora iniciar-se com mais intensidade, não há absolutamente ninguém que esteja surpreendido. Estamos perante um fenómeno esperado. Como foi antecipadamente anunciado isso terá exigido a preparação para esta actividade epidémica da gripe que se avizinha, que será ultrapassada, mas que exige mais atenção por parte dos cidadãos, das famílias, das comunidades, do país em geral, à semelhança do que acontece
- Como está a correr a campanha de vacinação?
- Não posso ignorar que há uma excessiva visibilidade que é dada aos movimentos contra a vacinação e naturalmente há ainda, nestas primeiras semanas, grupos de cidadãos que pretendem adiar a vacinação. Acontece que estas posições não têm qualquer fundamento. A Ordem dos Médicos defende a vacinação. Aliás isso foi claramente dito pelo bastonário da Ordem dos Médicos na televisão. Nem ele nem a bastonária da Ordem dos Enfermeiros manifestaram qualquer dúvida. A vacinação é recomendada pelas agências internacionais, pela OMS, pela União Europeia e pelos organismos do Estado português. Tem o apoio dos representantes das sociedades científicas, não há qualquer fundamento científico que possa explicar esta aparente força, sobretudo mediática, das posições contra a vacina. É absolutamente inexplicável. Só através destes circuitos da Internet, os sites e as redes sociais é que se explica este fenómeno, que em termos de saúde pública não é bom, porque não contribui para a protecção dos cidadãos. Mas temos de saber lidar com estes problemas.
- Acredita que, com o decorrer da campanha de vacinação, essas reservas possam desaparecer?
- As reservas vão ser atenuadas à medida que a actividade epidémica aumentar e que os receios acerca da vacina, que são injustificados, também desaparecerem. Muitos dos argumentos que esses movimentos apresentam são infundados. Um deles é a contestação quanto à suposta rapidez do tempo de fabrico da vacina, mas esse período é exactamente equivalente ao do fabrico da vacina sazonal. Todos os seis meses, a vacina é preparada ora para o hemisfério norte, ora para o hemisfério sul, que são produtos diferentes. Neste momento, as empresas farmacêuticas já estão a preparar a vacina sazonal para o hemisfério sul, que inclui esta estirpe pandémica. As indicações para a vacina pandémica destinada ao hemisfério sul foram dadas em Outubro. Muito provavelmente, na próxima época sazona, ou seja, no próximo Outono, a vacina sazonal para o nosso hemisfério já vai incluir esta nova estirpe pandémica. Estas novas estirpes surgem por ondas só no primeiro ano, depois diluem-se na actividade gripal do Inverno, sobretudo nas semanas frias. Há aqui questões de conhecimento que muitas vezes faltam às pessoas que têm opiniões, e essa falta de informação gera comportamentos diferentes, que podem ser perturbadores. Mas temos de saber respeitar todos na base de princípios que defendemos, de liberdade de opção. Não há tratamentos preventivos ou curativos obrigatórios no nosso país, com a excepção de alguns casos do foro psiquiátrico.
DÚVIDAS SOBRE GRAVIDEZ
- O caso da grávida que abortou em Portalegre veio trazer novas dúvidas. Este episódio pode prejudicar a campanha de vacinação?
- A morte do feto em Portalegre e a forma como esse facto é lido pela população pode alimentar dúvidas. Mas é preciso ter em conta que todos os dias temos situações iguais. Há 300 casos por ano deste género. Desde o dia 1 de Outubro, tivemos 23 casos de morte súbita do feto in utero. Todas as semanas temos mais sete mortes de fetos. A coincidência deste tipo de casos com as vacinas é uma regra que todos os epidemiologistas conhecem. A vacina não é contra a morte súbita do feto.
- Teme que haja muita gente a recorrer à Internet para tentar receber a vacina à margem do plano de vacinação em curso?
- A vacina não deve ser obtida na Internet. Não há garantias de qualidade de medicamentos e vacinas que sejam compradas na Internet porque não há qualquer controlo sobre eles.
- Agência Europeia do Medicamento vai pronunciar-se em breve [na última sexta feira] sobre a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS), que diz que basta uma dose de vacina para garantir a imunidade. A acontecer, Portugal passaria a ter o dobro das vacinas (seis milhões). Que grupos da população serão acrescentados à lista de pessoas a vacinar?
- Ainda não tomámos essa decisão, a acontecer essa alteração teremos de fazer contas. A dispensa da segunda dose, a acontecer, só é indicada para idades a partir dos 10 anos, pelo que um dos nossos objectivos passaria por vacinar todas as crianças. Decidimos antecipar a vacinação de crianças por recomendação da OMS e não por haver muita gente a recusar a vacina, como foi noticiado. Todos os dias nos chegam novos lotes de vacinas e estamos a aplicá-las de acordo com o previsto
“NÃO VAI HAVER MORTANDADE”
- Apesar de todo o alarme social que tem gerado, podemos dizer que este vírus não é especialmente mortal...
- Ninguém disse que este vírus era mortal. O vírus e a infecção que provoca, uma vez que este agente novo e ninguém tem anticorpos protectores, encontra condições fáceis e rápidas para se propagar e formar cadeias de transmissão. A tradução em termos de intensidade e magnitude de uma epidemia de gripe tem que ser sempre considerada em dois planos. Sem medidas de saúde pública, a evolução de uma epidemia tem um determinado percurso. Mas nós, com os métodos modernos que temos, podemos moldar a curva de uma epidemia e torná-la mais fácil, com mais sinais de benignidade. A Natureza deixa de ser preponderante para influenciar por si só a evolução da propagação porque nós conseguimos alterar esse percurso com as medidas que tomamos, com a robustez do Sistema Nacional de Saúde, com novos medicamentos, com novas medidas de saúde pública e com novas vacinas, que sabíamos que ficariam disponíveis ao fim de seis meses. Por isso, durante a actividade que teve lugar no Verão, a rede de delgados de saúde, juntamente com outros médicos de família e hospitalares evitaram a formação de cadeias de transmissão para ganharmos todos tempo.
- Quando passarmos este “susto” não há o risco de, não sendo os efeitos da gripe particularmente graves em termos de vítimas, as pessoas terem uma atitude de relaxamento perante futuras ameaças?
- Nós nunca dissemos que a epidemia ia ser grave. Sempre se disse, desde o princípio, que não vamos ter nenhuma mortandade. Hoje todos os meus colegas reconhecem que não vamos ter cenários dramáticos, que nunca foram admitidos. Os cenários admitidos com dados preocupantes eram modelos que não incluíram as medidas de saúde pública. Foram formulados para efeitos de preparação. O meu colega inglês costuma dizer que este vírus não é um “major killer”, mas pode matar. Isto verifica-se em todos os países, incluindo Portugal. Em cada 100 casos de gripe, mais de 95 evoluem com benignidade, e cinco precisam de mais cuidados. Dos 100 casos, um apresenta uma situação mais grave, especialmente grávidas, asmáticos, diabéticos e obesos. Por isso mesmo temos de preparar o sistema para proteger quem tem mais riscos. Há países que não desenvolveram com o nosso rigor a preparação para a actividade epidémica e que agora estão confrontados com grandes problemas.
- O seu percurso profissional levou-o a conhecer vários países, como consultor da OMS. Comparando Portugal com outros países, considera que estamos no grupo dos melhor preparados para lidar com pandemias deste tipo?
- Não sou daqueles que coloco o sistema português à frente, ao lado ou atrás de outros. Digo é que este assunto, à semelhança de muitos outros, não foi ignorado e foi preparado com o cuidado que merecia. O plano para a pandemia de gripe começou a ser concebido em 2006. Foi por três vezes apresentado na Assembleia da República, perante a Comissão Parlamentar de Saúde e foi aprovado pelo Governo. Há um documento de carácter estratégico, apresentado em 2007 e depois reeditado em 2008. Foi também preparado um site específico dedicado à gripe A. No entanto, só no final deste período crítico, no final da Primavera, é que vamos olhar para trás e fazer uma avaliação rigorosa e independente sobre o que se passou.
CARREIRA INTERNACIONAL
- Passou 11 anos em missões da OMS em vários países e continentes. O que recorda de mais forte dessa experiência?
- Recordo o confronto com a emergência que não era esperada, exactamente um fenómeno contrário à pandemia de gripe. Em 1980 não estávamos à espera da pandemia de SIDA, que emergiu no ano em que comecei a trabalhar como especialista da OMS. Esse confronto com uma grande epidemia marcou-me. Foi preciso perceber qual era o agente, as explicações para os casos, como é que se transmitia, qual era o período de incubação e todas essas questões foram, em 1980, motivo de grande preocupação. Era como se tivesse vivido o dia 1 de Dezembro de 1755 e tivesse assistido ao terramoto. Havia um epicentro na costa ocidental de África que foi inesperado e mais do que isso, na altura nem sequer os académicos admitiam que um problema desta dimensão viesse a surgir.
- Depois de completar a sua formação clínica, como escolheu o seu percurso?
- Quando concluí a formação em saúde pública estávamos a resolver problemas. O último caso de varíola foi em 1977, tinha sido elaborado um plano de erradicação do paludismo e outros planos de erradicação de outras doenças como a poliomielite, o sarampo e outras doenças. O pensamento de saúde pública era o de resolver problemas e erradicar doenças. Não se previa a emergência de doenças novas com a expressão que a SIDA atingiu. Foram acontecimentos dramáticos.
- Porquê a opção por uma carreira internacional?
- Antes disso, trabalhei no hospital de Santa Marta, em Lisboa, e depois fui delegado de saúde num pequeno concelho do distrito de Beja, Cuba, durante quatro anos. Foi por influência do então Director-Geral de Saúde, Arnaldo Sampaio, pai do antigo presidente da República, Jorge Sampaio, que fui para a OMS. Foi a ligação que tinha de seu discípulo que me levou a ir para a OMS até porque ele estava ligado ao concelho executivo da organização. Foram 11 anos de grande riqueza informativa, de lidar com problemas, de fazer equipas, de trabalhar com governos e agências internacionais.
AO SERVIÇO DA OMS
- Esteve em vários países subdesenvolvidos, onde muitas vezes existe a ideia de que as crenças tradicionais são muitas vezes um obstáculo às acções da medicina ocidental. Sentiu isso no seu trabalho?
- É sempre necessário um grande trabalho pedagógico, mas também é preciso ter em conta que, desde que essas práticas não sejam nocivas, também não nos devemos preocupar em demasiado. Só que não podem ser exclusivas. Lembro-me de trabalhos que fiz na China, nos tempos antigos de todos andarem vestidos de igual. Os hospitais tinham departamentos de medicina tradicional e de medicina ocidental e havia uma articulação entre a farmácia tradicional e a farmácia científica que era equilibrada na maioria das situações.
- Como é que os chineses encaravam a presença de um ocidental?
- Era absolutamente normal. Não tive quaisquer problemas.
- Aprendeu alguma língua dos vários países onde esteve?
- Sim, falo relativamente bem criolo. Compreendo totalmente e tenho facilidade de expressão. Estive muito tempo na Guiné-Bissau. Era um país lindíssimo, de uma beleza ímpar, que nunca foi colonizado. Depois da independência da Guiné só lá ficaram 150 colonos e um único médico português. O que acontecia ali era uma ocupação militar de exploração das riquezas naturais. Eu diria que em todos os planos e dimensões, as pessoas, as etnias, que são muitas, as línguas que são muito diversas, os verdes que são todos de grande beleza. É um país que, infelizmente, não vive os melhores dias, também por falta de apoios e de mecanismos de cooperação. Há problemas muitos complexos a resolver no continente africano e de grande responsabilidade para os países industrializados.
REGRESSO A PORTUGAL
- Em 1991 regressa a Portugal. Porquê essa decisão?
- Tinha acabado a minha licença e tinha de optar em voltar para Portugal ou ficar para sempre em missões internacionais. Decidi volta por razões familiares, mas mantive as relações e mantenho muitas amizades. A minha família acompanhava-me sempre nas missões. Arranjávamos sempre soluções para ficarmos juntos.
- Que influência teve o facto de o seu pai ser médico na sua escolha de carreira?
- O meu pai era médico familiar, era director do hospital de Santa Marta, onde eu fiz o meu internato em medicina interna. Ele viveu a pandemia de gripe de 1957. Eu tinha 10 anos e lembro-me de o meu pai ter evitado ir a casa para evitar a transmitir a doença aos cinco filhos. Lembro-me de dar pela falta dele e perguntar por ele à minha mãe e ela responder que ele estava a ver doentes. Na altura não havia o Sistema Nacional de Saúde, a medicina era baseada em hospitais para os mais pobres e havia um grande sector privado. O meu pai conseguia conciliar a dedicação ao serviço público com o privado de uma foram equilibrada. Teve muito influência na minha opção de ser médico. Tenho uma irmã que também é médica, mas de outra área que não a saúde pública.
- Quem o conhece descreve-o como uma pessoa muito empenhada no seu trabalho...
- Sou absolutamente normal. Procuro cumprir a minha missão com empenho. Provavelmente herdei esta forma de encarar o trabalho de interesse público pelo exemplo do meu pai. Ele tinha uma grande dedicação ao serviço público. Aos sábados e domingos ele ia ver os doentes aos hospitais. Naquela altura só havia pobres nos hospitais públicos e muitas vezes eram doentes que tinham problemas graves. Lembro-me de ter ido pela mão dele às enfermarias ver os doentes que mais o preocupavam. Provavelmente terei cultivado esse interesse de servir na perspectiva do “civil servent”, como dizem os ingleses. Nunca equacionei a questão de fazer medicina privada, só fiz isso durante um breve período. Desde 1976, estas questões do exercício privado da medicina deixaram de me atrair.
- Considera que as novas gerações de médicos perderam essa vocação de serviço público?
- Não, é possível equilibrar sempre. Grande parte dos meus amigos conseguem encontrar formas equilibradas de fazer as duas coisas.
- Aos 62 anos, tem ainda alguma meta profissional que deseje atingir?
- As metas do meu trabalho não são definidas por mim. O trabalho de um director geral de saúde é exercido em comissões de serviço de três anos e depois, de acordo com as disposições da lei, essas comissões podem ou não ser renovadas. A aceitação depende sempre do próprio, mas a proposta de nomeação não.
- Gostava de voltar a colaborar com a OMS?
- Isso tenho sempre feito. Participo em muitas missões, reuniões e reflexões. Mantenho sempre contactos, diria até quase diários, com a organização. A Direcção Geral de Saúde tem dois dirigentes em missões da ONG, um deles vai ocupar-se da obesidade em toda a Europa e uma outra dirigente vai participar num trabalho sobre assuntos de ética dedicados à saúde. Há sempre ligações muito íntimas às estruturas da União Europeia e outras organizações internacionais.
- Gostaria de regressar a algum dos sítios onde esteve durante o seu percurso internacional?
- Não estou preparado de dizer isso. Gostei muito de Brazzaville [no Congo] e do trabalho que lá desenvolvemos, por exemplo, mas não acho que seja relevante.
POLÍTICA
- Em termos de militância política, chegou a ter uma actividade política logo a seguir ao 25 de Abril. Ainda mantém alguma vontade nessa área?
- Não gosto de falar em questões políticas, porque não exerço nem faço carreira política. Nunca foi meu objectivo. Envolvi-me em movimentos políticos sobretudo durante a ditadura, muito em especial no movimento estudantil, mas abandonei porque a carreira médica não é compatível com a carreira política, muito menos quando há componentes internacionais. Respeito aqueles que optam pela política, mas não tenho essa vocação.
- Trabalhou em vários países que vivem sob regimes ditatoriais. Esse facto alguma vez perturbou o seu trabalho de médico?
- Não, a minha preocupação eram as questões ligadas à saúde do povo. Nunca me preocupei com essas coisas. Uma vez tive um ditador que decretou que não havia uma epidemia de cólera em Conacri [no Congo]. Os meus colegas não podiam relatar os casos novos por caso desse decreto. As epidemias não se combatem em regime de underground, as coisas têm de ser feitas de forma transparente e identificando as situações, com medidas que visam interromper a cadeia de transmissão da infecção. É preciso saber lidar com estas situações, o jogo diplomático também não é coisa que me seduza, mas é preciso explicar, informar os responsáveis e esperar que estas informações sejam transformadas em decisões.
- Mas houve alguma situação em que tenha sentido que uma decisão política prejudicou a sua missão?
- Tenho pensado muito nisso e não encontro nenhum caso em que isso tenha acontecido. Por vezes há falta de meios, mas isso acontece sempre. Em saúde pública não há oásis, temos sempre que utilizar os recursos disponíveis.
PERFIL
Francisco George tem 62 anos e começou a carreira de médico de saúde pública em 1976. Entre 1980 e 1981 esteve em dezenas de países, ao serviço da OMS. É director-geral de Saúde desde 2005.
Ele nao duvida porque nao foi a mulher dle nem nenhuma filha que perdeu o bebe,esta gente sinceramente...