Entrevista: Francisco Louçã
"Não há acordo com Roseta”
Francisco Louçã diz que o BE não apoiará um Governo PS e garante que, se estivesse no lugar de Sócrates, no escândalo Freeport, mostraria as suas contas bancárias.
Por:Ana Patrícia Dias
Correio da Manhã – A Convenção do BE acontece num momento em que se discute uma convergência de esquerda. O que se pode esperar?
Francisco Louçã – A Convenção tem de responder a duas questões fundamentais: uma avaliação da crise do regime social. Nós estamos a viver um verdadeiro arrastão da economia por parte de financeiros, banqueiros e de quem viveu da exploração do trabalho. É preciso identificar bem os problemas do País e responder-lhes. Por isso, temos a ambição de criar uma nova força dirigente para a esquerda.
– Um novo partido?
- Não, um caminho político para a transformação da esquerda portuguesa. Há uma distorção grotesca da política social. A máfia financeira recebe os apoios para suportar o colapso financeiro que criou, mas retiram-se subsídios aos desempregados.
– O Governo responsabiliza a crise economia internacional pela situação do País...
- A crise em Portugal já existia antes. A política económica seguida pelos sucessivos governos nos últimos anos e a elite em Portugal são responsáveis pela situação. Quem manda neste País são os banqueiros que encontramos no escândalo do BPP, do BPN, do BCP.
– Acredita que os responsáveis por esses casos serão punidos?
-No BCP o prejuízo já vai em 400 milhões de euros. Tenho a certeza que ninguém será punido.
- O que é urgente fazer para evitar estes casos?
- É preciso uma política que se concentre nos direitos das pessoas. O BE vai propor que este ano haja um contributo para o reforço das pensões 3%, por todos aqueles que têm mais de 300 mil euros em acções, títulos e riquezas. As grandes riquezas têm de ser chamadas a dar um contributo para combater a pobreza.
– Como vê as previsões para este ano ao nível do desemprego?
- O Governo faz previsões como se fosse um jogo. Estamos perante uma derrapagem enorme da evolução económica e tudo prova que as dificuldades estão a agravar-se. O Governo não tem capacidade para dar uma resposta às dificuldades, porque o Governo está mais preocupado em dar 450 milhões de euros às fortunas que estão geridas pelo BPP, que fazia jogos misteriosos em offshores, do que responder aos problemas das pessoas.
– Considera que o plano anti-crise do Governo não vai ter efeitos?
- O total do dinheiro deste plano para a criação de emprego em 2009 não chega a metade do dinheiro do que já foi gasto no buraco do BPN. O BPN é o cheque sem cobertura, paga-se o que for preciso.
- Que medidas devem ser tomadas para combater o desemprego?
- É preciso tomar medidas muito corajosas. A primeira coisa a fazer é impedir as falência fraudulentas, porque as empresas que acumularam lucro no ano anterior e que agora nos dizem que, porque temos uma dificuldade, os trabalhadores vão para a rua, não é possível aceitar. Otrabalhador não pode pagar os erros das administrações. Em segundo lugar, é preciso garantir emprego para quem não tem e evitar a precarização.
- Devido à crise económica, o PSD defende o adiamento de alguns investimentos públicos como o TGV. Concorda?
- É necessário que haja investimento público e José Sócrates é culpado por ter reduzido imenso o investimento público. Se tivermos uma economia onde não há trabalho, não há obras, não há pessoas a serem contratadas, a economia afunda-se. Retirar todo o investimento como quer o PSD é afundar a economia. Portugal precisa de um novo aeroporto, temos aeroportos de 3ª categoria, e precisamos de redes ferroviárias. Mas a prioridade tem de ser investimento que qualifique o País e o fundamental é o emprego.
- Para as eleições, a estratégia do BE passa por coligações?
- Não. São indispensáveis projectos claros para o País. O BE está envolvido na participação de pessoas independentes...
- Com José Sá fernandes não correu bem.
- Houve uma divergência política... mas não desistimos de falar com todas as pessoas que achamos são necessárias para uma nova corrente política. O BE apresentará nomes fortes para todas as câmaras do País.
- Helena Roseta em Lisboa?
- Não, não creio que haverá um entendimento com Helena Roseta. Estávamos abertos a isso mas é preciso haver empenho das duas partes. Ainda não definimos o candidato.
- Apoiaria um Governo de José Sócrates sem maioria?
- O BE nunca irá dar uma ajuda à política que quisemos contrariar . Nunca participaremos numa governação que faz aquilo que combatemos.
- O calendário eleitoral tem sido alvo de debate. Concorda com a realização conjunta de legislativas e autárquicas?
- Discordamos dessa coincidência, porque as eleições são muito diferentes. Os partidos não devem tentar mudar a lei pelas suas conviniências próprias, devem respeitar a lei. Eu ouço muito o argumento que se poupa dinheiro... poupa-se dinheiro, mas perde-se na democracia.
-O nome do primeiro-ministro tem sido relacionado com o caso Freeport. José Sócrates tem condições para continuar?
- O primeiro-ministro deve demitir-se se for culpado. Lamento que uma investigação desta importância possa arrastar-se ao longo de anos. Na situação dele ,o que eu diria imediatamente era: verifiquem todas as contas bancárias das pessoas que têm de ser verificadas.Mas este processo levanta questões fundamentais de política, como o facto de um governo de gestão tomar decisões desta importância. Eu acho que a Constituição proíbe decisões deste tipo. A decisão do governo PSD/CDS de dar um Casino, a questão do SIRESP e esta decisão de três dias antes das eleições mudar uma zona de protecção especial.
PERFIL
Francisco Anacleto Louçã nasceu a 12 de Novembro de 1956 em Lisboa e participou na fundação do Bloco de Esquerda (BE) em 1999. Doutorado em Economia, é professor universitário e deputado na Assembleia da República. Foi candidato à Presidência da República em 2006, tendo obtido mais de cinco por cento dos votos. Tem várias obras publicadas.
Entretanto a china vai engordando.Parede