Euro'2008
Faltou cabeça no fim do ciclo de Scolari
Sofrer dois golos pelo ar no centro da área em lances de bola parada pode comprovar a diferença de estaturas entre portugueses e alemães, mas passa à história como uma incapacidade técnica e muita falta de cabeça no controlo das situações defensivas. Scolari despede-se com mais uma derrota frente à Alemanha e a Selecção despede-se do Europeu com nova sensação de não ter feito tudo o que estava ao seu alcance.
Por:João Querido Manha, jornalista
Portugal cumpriu os mínimos, passando a primeira fase, mas sai com duas vitórias e duas derrotas, afinal o pior balanço global de quatro presenças em fases finais da principal prova da UEFA. Ontem, foi traído por uma incrível desorganização defensiva, primeiro no contraste com a superioridade numérica de um meio-campo alemão incaracteristicamente cauteloso e calculista; depois na vergonhosa infantilidade da abordagem dos lances de bola parada. E a fraca prestação de Ronaldo, em contraste com a gigantesca exibição de Deco, também não deu no ataque a compensação que tantos erros defensivos exigiam.
Desta vez, também Scolari foi penalizado por ter demorado a intervir na disposição da equipa, deixando que Petit e Moutinho fossem sufocados por quatro alemães, por vezes cinco, com o avanço de um dos defesas centrais.
No entanto, os primeiros golos germânicos chegaram depois dos 20 minutos, quando Portugal já marcava o território adversário e Moutinho até dispusera da melhor ocasião, desviando mal um cruzamento de Bosingwa. Com Moutinho lesionado e Pepe fora da posição, Schweinsteiger aproveitou para dar o melhor caminho a uma bela jogada de Podolski, na esquerda, confirmando o seu destino de carrasco pessoal de Ricardo. Pouco depois tudo estava perdido, quando se confirmou outra situação fácil de prever: um livre cruzado e golo de cabeça de Klose no coração da área, algures entre defesas hesitantes e desalinhados e um guarda-redes sempre no meio da viagem.
O golo de Nuno Gomes, numa recarga oportuna, à beira do intervalo, repôs Portugal no jogo, mas novo erro defensivo, noutro livre centrado para Ballack no centro da defesa, liquidou o sonho e encerrou o ciclo. Os substitutos Nani e Postiga ainda fabricaram um belo golo clássico, ironicamente também de cabeça no centro da área alemã, mas era tarde de mais.
POSITIVO
DECO LONGE DA EQUIPA
Mais uma grande exibição de Deco, distante do resto da equipa, atraindo para ele o foco que Ronaldo não conseguiu acender. Deve-se-lhe por inteiro o caudal ofensivo e a capacidade de marcar golos de uma equipa, à qual faltou a maturidade competitiva que o luso-brasileiro mostrou de forma exuberante.
NEGATIVO
FRAGILIDADE DEFENSIVA
As fragilidades vieram à tona em poucos minutos e custaram dois golos: dificuldade em equilibrar uma desvantagem numérica a meio-campo, que chegou a ser de três para cinco, e mediocridade colectiva nos lances defensivos de bola parada, a repetir o que já se vira frente à selecção da República Checa.
ÁRBITRO
UM EMPURRÃO LIGEIRO
No lance do terceiro golo foi maior a competência de Ballack do que o empurrão a Paulo Ferreira: mas ao permiti--lo, o sueco deu o empurrãozinho que os alemães sempre esperam. Tomou algumas decisões controversas em lances de contacto, acabando por mostrar um amarelo a Pepe num lance igual a tantos outros que permitiu.
FRENTE A FRENTE
CRISTIANO RONALDO
18m. Isolado por Nuno Gomes é desarmado por Friedrich na altura do remate.
40m. Arranca pela esquerda e remata, Lehmann defende e Nuno Gomes recarga e faz o 1-2.
46m. Foge pela esquerda, dribla um adversário e remata rente ao poste.
47m. Arranca pela esquerda e é travado em falta por Friedrich, que vê o amarelo.
82m. Remata em zona frontal, mas a bola bate na defesa alemã e sai pela linha de fundo.
LUKAS PODOLSKI
12m. Conduz uma jogada perigosa pela esquerda. À entrada simula a falta num lance com Pepe.
22m. Foge pela esquerda, centra e Schweinsteiger inaugura o marcador.
49m. Impede, com falta cirúrgica, o contra-ataque de Portugal conduzido por Simão.
74m. É lançado na esquerda, mas perde o duelo com Pepe.
78m. Remate forte fora da área, com a bola a sair perto do poste esquerdo.
RONALDO VS PODOLSKI
Passes certos - 10-9
Passes errados - 3-1
Dribles conseguidos - 5-2
Perdas de bola - 4-2
Assistências - 0-1
Remates - 6-1
Golos - 0-0
JOGADORES
DECO - Traído pelos erros lá atrás
Portugal melhorou muito quando o médio luso-brasileiro finalmente conseguiu soltar-se da teia alemã, ali por volta da meia hora.
Na segunda parte, o n.º 20 foi o guia da equipa nacional, esperança maior de que era possível dar a volta à história mal começada. O 3-1 traiu-o mas lutou até ao fim, sempre a fazer tudo certo.
MAIS. Iniciou a jogada do golo de Nuno Gomes.
MENOS. Submerso pela onda alemã até à passagem da meia hora.
RICARDO - Aconteceu o que estava anunciado
Temia-se a eficácia alemã nas bolas paradas e Portugal tombou por aí. Não fez a diferença nos dois primeiros e esteve francamente mal no terceiro. Frágil nas bolas altas a partir de livres, como em todo o Euro.
MAIS. Muito boa a defesa a remate de Ballack aos 44’.
MENOS. Nos primeiro e segundo golos talvez pudesse ter feito mais. No terceiro ficou a meio caminho, perdido.
JOÃO MOUTINHO - Oportunidade duplamente perdida
Azar para o médio do Sporting. Estava a lutar pelo equilíbrio no meio--campo quando de repente uma disputa de bola com Ballack deixou mossas, obrigando a uma rara substituição ainda antes do intervalo.
MAIS. Nada a registar
MENOS. Pena a oportunidade de golo desperdiçada aos 19 minutos. O joelho não é de facto a melhor forma de tentar concluir.
SIMÃO - Faltou génio ao equilíbrio
Uma partida equilibrada do extremo do At. Madrid. Soube ter a bola, soltá-la quando era preciso, ocupar o espaço atrás e na linha da frente. Tão bem à direita como à esquerda. Arrancou um cartão amarelo a Lahm.
MAIS. O golo português teve quatro momentos: o segundo foi de Simão, com o passe para Cristiano Ronaldo.
MENOS. Pouco incisivo no um para um.
CRISTIANO RONALDO - Portugal precisava do melhor do Mundo
Outra exibição distante do que pode fazer. Esteve no melhor período da Selecção, mas quando a equipa necessitou do melhor do Mundo ele permaneceu escondido. Não melhorou como ponta-de-lança.
MAIS. Excelente a jogada para o golo de Nuno Gomes.
MENOS. Não acompanhou Miroslav Klose no segundo golo da Alemanha.
NUNO GOMES - A história afinal repete-se…
Fez um bom jogo e foi com surpresa que Scolari o retirou quando Portugal precisava de marcar. Bem a movimentar-se, somou um agradável golo. Como há dois anos, no Mundial, o golo de nada valeu.
MAIS. Um golo de ponta-de--lança. Tinha feeling de que ia marcar e marcou mesmo.
MENOS. Aos dez minutos desviou mal um cruzamento de Bosingwa.
RAÚL MEIRELES - O problema não esteve no meio
A entrada foi prometedora, contribuindo para o melhor período da Selecção. Como os colegas do meio-campo, impediu as perigosas trocas de bola dos alemães. Dois remates perigosos, mas sem efeito prático.
MAIS. Grande remate aos 38 minutos. A bola não passou longe da baliza.
MENOS. Não apareceu pela esquerda no período em que Ronaldo derivou para o meio.
BOSINGWA - Faltou aproveitar os cruzamentos
O flanco direito foi dele. Boas arrancadas, aproveitando a pouca dedicação defensiva de Podolski. Não perdeu muitas vezes face a Lahm, mas a verdade é que nunca houve quem aproveitasse.
MAIS. Quase sempre perigoso nos cruzamentos, aproveitando o espaço dado por Lahm.
MENOS. Batido sem apelo pela velocidade de Podolski.
RICARDO CARVALHO - Bem… no ‘intervalo’ dos golos alemães
Fez muita falta nos dois golos alemães, como todos os outros colegas de sector. Mas melhorou e acabou por fazer dois ou três cortes que o definem como um dos melhores centrais do Mundo.
MAIS. Um grande corte aos 42 minutos, impedindo uma troca de bola com perigo à entrada da grande área.
MENOS. Nada conseguiu fazer nos golos alemães.
PEPE - Um dos primeiros a reagir à desvantagem
Aos 58’ podia ter voltado a marcar, mas a cabeçada saiu por cima da baliza. Não fica isento de culpas nas paragens da 1.ª parte. Fez tudo para emendar a mão daí para a frente. No 3.º golo não estava com Ballack.
MAIS. A disponibilidade física de sempre.
MENOS. Saiu para ajudar Bosingwa no primeiro golo alemão e por isso faltou na zona central.
PAULO FERREIRA - Duas falhas com peso no resultado
Um início de jogo difícil para o lateral-esquerdo. Schweinsteiger deu-lhe a volta e no primeiro golo bateu-se sem apelo. No terceiro golo é empurrado por Ballack. Devia ter sido mais vigoroso. Uma má exibição.
MAIS. Nenhuma acção positiva que mereça realce.
MENOS. Perdeu para Schweinsteiger aos 17 minutos, mas o mais grave foi a diferença de velocidade aos 21 minutos.
PETIT - O problema não começou ali
Limitou-se a ocupar o espaço à frente da defesa portuguesa. Nunca conseguiu ser influente na criação de lances ofensivos. Apenas um remate forte, aos 70 minutos. Mas muito por cima.
MAIS. Geriu bem a bola, procurando o ritmo certo para a Selecção.
MENOS. Falta para cartão amarelo aos 24 minutos, por derrube a Metzelder.
NANI - Um cruzamento entre as promessas
Entrou com entusiasmo e rapidamente encontrou o ritmo da partida, com cruzamentos, sprints e remates. Mas nunca descobriu a baliza.
MAIS. A coragem demonstrada nas bolas divididas e o cruzamento fantástico para o golo de Postiga.
MENOS. Faltou eficácia às boas iniciativas.
HÉLDER POSTIGA - À procura da estrela que brilhou tarde
Depois de tirar Nuno Gomes, Scolari colocou outro ponta-de-lança. À procura da estrelinha do novo leão, que apareceu a quatro minutos do fim. Tarde de mais.
MAIS. A cabeçada notável entre os centrais alemães que valeu o segundo golo de Portugal.
MENOS. Fez tudo bem…
MAIS UMA VEZ SCHWEINSTEIGER
E não é que Schweinsteiger voltou a ser a ‘besta negra’ de Portugal? Ricardo tem razões para já nem poder ouvir falar dele. Marcou o primeiro golo e dos seus pés saíram os ‘livres cruzamentos’ para o segundo e terceiro. De resto, as estrelas alemãs não falharam na hora da verdade. Ballack foi gigante e Podolski inteligente.
IMPRENSA ESTRANGEIRA
A MESMA HISTÓRIA
É sempre a mesma história. Favoritos, os portugueses falharam. E os alemães surpreenderam a ganhar
ABATIDO NOVO 'PATRÃO'
Ballack atirou para fora do Euro o seu novo ‘patrão’ no Chelsea. Com uma forte cabeçada assegurou a vitória
FRAGILIDADE DEFENSIVA
O conjunto alemão mais prático do que nunca mostrou a fragilidade defensiva dos portugueses precipitados
RONALDO DESAPARECE
Os portugueses – com um Ronaldo desaparecido – tiveram mais bola, mas faltou ideias e houve erros
SOFRE DEMASIADO
Os portugueses – com um Ronaldo desaparecido – tiveram mais bola, mas faltou ideias e houve erros
Quando não tem a bola, Portugal sofre demasiado. Joga bem, mas a defesa não se faz só com os que estão atrás
A ELIMINAR É DIFERENTE
Jogos a eliminar são diferentes. E Portugal que viu derrotado o seu belo futebol, não o soube vencer
FICHA DE JOGO:
Local: Estádio: St Jakob-Park, em Basileia
Árbitro: Peter Frojdfeldt (Suécia)
PORTUGAL: Ricardo, José Bosingwa, Pepe, Ricardo Carvalho, Paulo Ferreira, Petit (Postiga, 73m), João Moutinho (Raúl Meireles), Deco, Simão, Cristiano Ronaldo, Nuno Gomes (Nani, 67m)
Treinador: Luiz Felipe Scolari
ALEMANHA: Jens Lehmann, Arne Friedrich, Per Mertesacker, Christoph Metzelder, Philipp Lahm, Simon Rolfes, Bastian Schweinsteiger (Fritz, 83m), Thomas Hitzlsperger (Borowski, 73m), Michael Ballack, Miroslav Klose (Jansen 88m), Lukas Podolski
Treinador: Joachim Löw
Marcador: 0-1 Schweinsteiger (22m), 0-2 Klose (26m), 1-2 Nuno Gomes (40m), 1-3 Ballack, 2-3 (Postiga (87m).
Acção Disciplinar: Amarelos: Friedrich (47m), Lahm (49m), Pepe (60m), Postiga (89m).
Com tanto treinador de bancada,vai ser dificil de escolher o sucessor de Scolari.Foi a seleccao de Scolari e nao saimos assim tao mal.Comeca um novo ciclo na seleccao,com novos valores.Ha que dar tempo ao tempo.Londres