Setúbal: Figuras públicas contam experiências na Bela Vista
“Bater é um gesto estúpido”
O que têm em comum a actriz Cláudia Semedo, os músicos Guitchu (Blasted Mechanism) e Carlão (Nigger Poison), o campeão de kickboxing José Reis, e Martinho Borges, editor de uma revista de hip hop? A resposta é simples: nasceram em famílias pobres, viveram em bairros difíceis, mas souberam dar a volta às suas vidas e concretizar sonhos que pareciam impossíveis. E foi isso mesmo que foram ontem dizer aos cerca de 50 jovens que encheram o auditório da associação ACM, no Bairro da Bela Vista, em Setúbal – onde há três semanas se registaram graves confrontos com a polícia.
Por:José Carlos Marques
"Travar a violência começa em cada um de nós. É preciso ser-se muito inseguro para bater em alguém. É um gesto estúpido que não leva a lado nenhum, a não ser à vingança, que depois arrasta famílias e bairros", defendeu a actriz e apresentadora de TV Cláudia Semedo.
José Reis, várias vezes campeão de kickboxing, contou as suas origens humildes: "Eu vivia numa barraca e tinha um sentimento de injustiça. Comecei a trabalhar cedo e fui para o desporto para provar que era mais forte. Depois percebi que não precisava de provar nada a ninguém. Sou respeitado porque recusei a violência", relatou o atleta, licenciado em Direito. "É preciso pensar sempre num plano B e eu nunca deixei de estudar. É preciso lutar e ter espírito de sacrifício", disse José Reis.
No final da sessão, Liliana, de 18 anos e residente na Bela Vista, estava satisfeita com o que ouviu: "Adorei", disse. Quer voltar a estudar – foi expulsa da escola por agredir uma colega – e seguir o sonho de ser cantora, mas diz que é "quase impossível" travar a violência: "Tenho amigos e familiares que pensam de outra forma. Já foram quase todos presos, mas continuam nos roubos e no tráfico." Um destino a que ela quer fugir.
A sessão de ontem foi a última da campanha ‘A violência é um ciclo. Tu podes pará-lo’, promovida pelo Governo e o Alto Comissariado para a Imigração e o Diálogo Intercultural (ACIDI).
PORMENORES
CALMA REGRESSA
Há cerca de três semanas, o bairro da Bela Vista foi cenário de uma série de episódios violentos, em que a esquadra da PSP foi atingida por tiros, pedras e cocktails molotov. Foram queimados três carros e vários caixotes do lixo durante três dias.
REFORÇO POLICIAL
A polícia manteve o bairro sob forte vigilância policial durante vários dias. Ontem, ainda estavam duas carrinhas do Corpo de Intervenção à porta da esquadra da PSP e os moradores contam que continua a haver um policiamento nocturno reforçado. Não há notícias de novos incidentes.
BALANÇO POSITIVO
Rosário Farmhouse, Alta Comissária para a Imigração e Diálogo Intercultural, faz um balanço "muito positivo" da campanha contra a violência, que levou várias figuras públicas a falar com jovens de bairros problemáticos dos distritos de Lisboa, Porto e Setúbal nos últimos dois meses.
Ninguem desses bairros foi mais pobre que eu. Ser mitra é de natureza má e de opção, não tem nada com a pobreza.