Banca: Estado dá aval de mil milhões
BPN precisa de três mil milhões
O “buraco” nas contas do Banco Português de Negócios (BPN) já chega aos 1,8 mil milhões de euros. Este é o montante que se obtém se pusermos em confronto os activos e os passivos do banco e se tomarmos em conta as imparidades constituídas pela administração liderada por Francisco Bandeira, de acordo com as regras exigidas pelos auditores.
Por:Miguel Alexandre Ganhão/ D.R.
No entanto, segundo apurou o Correio da Manhã, as necessidades de liquidez da instituição (o dinheiro que precisa, diariamente, para fazer negócio e honrar os compromissos assumidos) é da ordem dos três mil milhões de euros.
É neste âmbito que se inscreve a emissão de papel comercial autorizada pelo Ministério das Finanças no passado dia 25 de Setembro, mas só ontem publicada no Diário da República.
A emissão tem o aval do Estado e a garantia total de subscrição por parte da Caixa Geral de Depósitos (CGD), numa operação que os responsáveis de ambos os bancos consideram ser “neutra” para o banco do Estado.
No despacho ontem publicado definem-se as condições de colocação, o prazo (até 10 anos a contar da assinatura do contrato) e a garantia a pagar pelo aval estatal (0,2 por cento ao ano).
A operação é organizada pela Caixa Banco de Investimento e pelo Banco Efisa.
Esta operação tem por objectivo reforçar os apoios de liquidez prestados pela CGD com vista a assegurar ao BPN “uma situação de liquidez adequada a fazer face às suas responsabilidades, nomeadamente perante depositantes e, nessa medida, assegurar a estabilidade do sistema financeiro nacional”, refere o diploma que enquadra a operação.
Desde a sua nacionalização, anunciada a 2 de Novembro de 2008, o BPN tem enfrentado dificuldades de liquidez, resultante da fuga de depósitos para outros bancos.
Todas as instituições de crédito têm duas grandes fontes de financiamento: os depósitos de clientes e o crédito que vão buscar ao sistema financeiro. No caso do BPN conjugam-se dois factores negativos: a fuga dos clientes e o facto do banco não arranjar crédito no sistema financeiro. O financiamento do BPN é todo realizado através da CGD.
O banco de Francisco Bandeira continua a captar depósitos junto de clientes mas, segundo uma fonte contactada pelo CM, os “três mil milhões de euros de depósitos não são suficientes”. Com o montante de crédito concedido a superar, em muito, os depósitos captados, o banco não consegue funcionar (à semelhança de todas as instituições financeiras) sem recorrer ao financiamento do mercado. Esta situação faz com que seja inevitável que a CGD tenha de ajudar o BPN nas suas necessidades de liquidez para além da emissão de papel comercial ontem conhecida.
SAIBA MAIS
PROMULGAÇÃO
Foi a 11 de Novembro de 2008 que o Presidente promulgou o diploma que nacionalizou o BPN.
16,5
milhões de euros de prejuízo foi o resultado do primeiro trimestre do ano.
13,8
milhões de euros foi o reforço realizado para imparidades no primeiro trimestre.
RECURSOS A CLIENTES
Nos primeiros três meses do ano os recursos captados a clientes registaram uma descida de 14,2%.
DEPÓSITO DE INSTITUCIONAIS FUGIRAM
Um dos maiores problemas que o BPN, liderado por Francisco Bandeira (na foto), tem enfrentado desde a nacionalização é a fuga de depósitos que tem 'comido' a sua base de financiamento. Segundo apurou o CM, tem existido uma redução 'significativa' de depósitos no banco, em especial ao nível dos clientes institucionais. Recorde-se o caso da Segurança Social, que tinha 500 milhões aplicados e que retirou todos os investimentos.
Esta 'fuga' prende-se com o ajustamento das taxas de juro à média do mercado realizada pela nova administração nomeada pelo Estado.
SLN ATENTA AOS PROCESSOS
A Sociedade Lusa de Negócios, ex-dona do BPN, 'constitui-se assistente em todos os processos' que correm na Justiça e que se relacionam com a gestão do então grupo BPN/SLN liderado por Oliveira Costa, apurou o CM junto de fonte oficial da empresa.
O Correio da Manhã sabe que estão a ser preparados novos processos cíveis para anular negócios ou reclamar indemnizações na área do imobiliário, que potenciaram perdas para o grupo. As acções deverão centrar-se em accionistas, antigos accionistas e empresários com quem o grupo desenvolveu relações comerciais. Em causa estão, entre outros exemplos, casos de grupos empresariais com participação no BPN/SLN que viram linhas de crédito a descoberto ‘perdoadas’ a troco da venda de acções altamente sobrevalorizadas.
Ao que o CM apurou junto da mesma fonte, a SLN está a aguardar até que haja arguidos pronunciados nos casos que correm na Justiça. Só então partirá para processo jurídicos com vista a obter indemnizações. 'Quando houver pronúncias a SLN irá accionar acções cíveis, não se justifica fazê-lo antes de serem determinadas culpas. Nessa altura, haverá matéria de facto.'
DISCURSO DIRECTO
'NÃO HÁ PREJUÍZO PARA A CAIXA', Norberto Rosa, Vice-presidente do BPN
Correio da Manhã – Esta emissão de papel comercial no valor de mil milhões de euros não vai causar prejuízos à Caixa Geral de Depósitos?
Norberto Rosa – Não. A emissão de papel comercial, que foi decidida pelo accionista, tem uma vantagem, ela serve para a Caixa Geral de Depósitos (CGD) recorrer ao financiamento do Banco Central Europeu (BCE) dando como colateral o papel que será subscrito. Para a CGD esta é uma operação neutra.
– A emissão pode ser realizada em tranches de 25 milhões de euros. Vai ser feita toda de uma só vez?
– Sim. Vamos emitir os mil milhões de uma só vez e tudo será integralmente subscrito pela CGD.
– Estamos próximos da solução final para o BPN? Essa solução pode ser ainda conhecida em 2009?
– A solução passa pela privatização. É necessário uma lei que enquadre todos os aspectos legais.
CONTAS DADAS AO ACCIONISTA
A continuação de Teixeira dos Santos como ministro das Finanças foi fundamental para que o Banco Português de Negócios (BPN) possa conhecer uma solução ainda este ano. A administração de Francisco Bandeira considera fundamental que o destino do BPN seja 'decidido rapidamente'.
As contas referentes aos primeiros nove meses do ano estão a ser ultimadas e estiveram à espera da tomada de posse do novo Governo para serem entregues ao accionista.
A solução da reprivatização é a mais provável , mas desconhece-se ainda quais os contornos que levarão ao saneamento das contas do BPN. A criação de um 'Bad Bank' (banco onde se reúnem todos os activos tóxicos e crédito malparado) é uma das soluções que está a ser equacionada. Mesmo a criação deste tipo de veículo implicaria alguma garantia estatal de modo a ser colocado nos mercados internacionais.
Com as várias intervenções ao nível da injecção de liquidez, o banco tem conseguido estabilizar o seu negócio e proceder ao saneamento da carteira de crédito.
SLN VALOR: PAPEL COMERCIAL
O BPN emite dívida no valor de mil milhões, mas tem ainda por resolver a questão do papel comercial da SLN Valor, vendido aos balcões do banco, em certos casos como depósitos a prazo
BES: CAIXA É BOA GESTORA
Ricardo Salgado, líder do BES, diz que a CGD 'está a fazer uma boa gestão do BPN'. 'Se decidiu fazer uma emissão é porque o considera interessante para o desenvolvimento do banco'
SLN: PEDIDO DE FALÊNCIA
A SLN contestou o pedido de insolvência entregue por um grupo de credores. Em troca deu como garantia um penhor de activos avaliados em 195 milhões, avançou o ‘Diário Económico’
O QUE MIL MILHÕES DE EUROS PODEM COMPRAR
JACTO PRIVADO
Mil milhões de euros garantem a compra de 110 jactos privados de luxo, modelo Learjet 60XR.
FERRARI
Uma verdadeira frota com 3300 carros da Ferrari num dos modelos mais cobiçados e caros do mercado: Ferrari 599 GTB.
PONTE
A garantia prestada dava para uma nova Vasco da Gama, que custou 897 milhões de euros.
ESTÁDIO
Mil milhões de euros chegariam para pagar a construção de dez estádios Alvalade XXI. A construção custou 100 milhões.
MAIOR IATE
Pagaria o maior iate do Mundo, já comprado por Abramovich, que custa 800 milhões de euros.
NOVO HOSPITAL
O Hospital de Todos os Santos, em Lisboa, vai custar 377 milhões. O financiamento daria para construir praticamente três novos.
KUANTAS VACINAS DA GRIPE DAVA PARA COMPRAR COM TRES MILHOES KE POSSIVELMENTE O ESTADO VAI INJECTAR