‘Face oculta’
Falsas escutas a Sócrates já circulam na internet
Conversas fictícias entre Armando Vara e primeiro-ministro podem configurar crime de injúrias.
Por:Tânia Laranjo / D.R.
Dois documentos alegadamente timbrados pelo Ministério Público de Aveiro circulam desde ontem na internet, com a indicação de que são parte das escutas telefónicas interceptadas a Armando Vara quando aquele falava com José Sócrates. A falsidade do documento é grosseira, o que demonstra que o seu autor desconhece as regras mínimas de como são feitas as escutas telefónicas. Desde o timbre (as escutas são transcritas pela Polícia Judiciária e não pelo Ministério Público) até ao facto de o documento referir que se trata de uma transcrição de uma conversa mantida num determinado dia: os documentos autênticos falam em alvos numerados e em sessões também determinadas, já que um mesmo interlocutor mantém dezenas de conversas no mesmo dia. Falta também a numeração do documento, inscrita no canto superior direito.
O teor das mesmas escutas revela também uma falsificação declarada. As frases são curtas e as conversas parecem saídas de uma peça de teatro. Percebe-se rapidamente que não é um discurso oral, mas sim algo que foi previamente escrito.
Outra curiosidade: as mesmas transcrições respondem a todas as perguntas que nas últimas semanas foram levantadas pelos jornais. Sócrates e Armando Vara falariam sobre a PT, a venda da TVI, o director do ‘Público’, a saída de Manuela Moura Guedes. Mas tratavam-se de conversas banais que não indiciariam a prática de qualquer crime.
Nota-se também outra diferença relativamente às escutas transcritas nos processo-crime. Naquelas é frequente haver palavras imperceptíveis e também conversas que se sobrepõem. Não há perguntas claras, com respostas ainda mais claras. Nem sequer seria normal, num caso como este, que os políticos se referissem aos seus opositores nomeando-os com o nome próprio e os dois apelidos. Como teria, nas falsas escutas, feito José Sócrates quando se referia a Manuela Ferreira Leite.
Refira-se ainda que a circulação do documento poderá configurar um crime. Não de falsificação, já que não se trata de uma cópia de qualquer documento autêntico. 'Coisa diferente é o crime de injúrias, calúnia ou difamação', diz um jurista ao CM, admitindo ainda que o autor da 'graça', caso seja descoberto, possa ser acusado de um crime associado por perturbação do inquérito ou por tentativa de iludir a actividade da Justiça. 'É uma forma de pressão, porque desprestigia a Justiça', acrescenta o jurista.
SOCIALISTAS PRESIDEM A COMISSÃO
A presidência da comissão eventual de acompanhamento do fenómeno da corrupção caberá ao PS. A iniciativa, contudo, partiu do PSD, que avançou o objectivo deste grupo de trabalho. 'Apreciar as iniciativas legislativas' destinadas a combater a corrupção e proceder a audições de especialistas nesta matéria. Conclusões dos deputados serão apresentadas após 180 dias de trabalho.
CONSTÂNCIO 'FORÇADO' A ARQUIVAR
O Banco de Portugal (BdP), governado por Vítor Constâncio, diz ter sido 'forçado a suspender as averiguações' que desencadeou sobre o papel de Armando Vara na ‘Face Oculta’. O regulador diz que pediu dados ao Ministério Público para apreciar o caso, mas o acesso foi-lhe vedado por causa do segredo de justiça. E, como os factos atribuídos a Vara não se referem à actividade bancária, o BdP optou por suspender as averiguações, apesar de manter o contacto com o BCP.
TELEMÓVEL É O MESMO DESDE 2007
O primeiro-ministro está a ser acusado de ter trocado de telemóvel no mesmo dia em que Armando Vara e outros arguidos do processo ‘Face Oculta’ o fizeram, mas, ao que o CM apurou, Sócrates tem o mesmo número de telemóvel desde 2007, altura em foi forçado a substituir o telefone que perdeu. Esta semana, o DIAP de Coimbra terá aberto um inquérito às supostas trocas de telemóvel.
ATAQUES À DIREITA À ESQUERDA
Atacou à direita o PSD e à esquerda o BE. Ignorou o CDS e elogiou o PCP. Esta foi a táctica do primeiro-ministro no primeiro debate quinzenal da legislatura. Num discurso algo irado, foram as escutas e a espionagem política que mais irritaram o governante. Voltando-se para Manuela Ferreira Leite, Sócrates não poupou: 'O que a senhora deputada fez foi transformar a coscuvilhice num linha política.' Do outro lado, a líder do PSD não evitou o confronto, e desafiou o primeiro-ministro a dizer se subscrevia as acusações de espionagem política levantadas por dois ministros. 'O senhor nem tem consciência do lugar que ocupa', atirou.
Após evitar as perguntas do CDS, Sócrates travou nova guerra com Francisco Louçã, do BE, que questionou: 'Senhor primeiro-ministro, houve ou não espionagem política?' Sócrates voltou a resposta para a violação do segredo de justiça e, perante a insistência de Louçã, disse: 'Senhor deputado, isto não é um interrogatório judicial.' Já no final do debate, uma picardia com Paulo Portas, do CDS-PP, resultou numa das frases do dia: 'Porte-se com juizinho e ouça', disse José Sócrates a Portas.
DISCURSO DIRECTO
'Se acham que meincomoda o ataque baixo que me fizeram estão enganados.': Manuela Ferreira LeiteLíder do PSD
'Hoje já tivemos muita ‘Face Oculta’. Encarrego--me agora de mostrara face exposta do País.': Paulo Portas Líder do CDS-PP
'Fez queixa judicial, como é devido,do crime de espionagem política?': Francisco Louçã Líder do BE
As escutas só devem servir para dar pistas oara investigar.E nunca para virem para a praça pública. Lisboa