Livro da semana: 'Os Passos da Cruz'
“Escrevo para saber como o livro acaba”
Nuno Júdice tem na poesia o seu elemento natural mas é na prosa que se sente a desafiar limites, o que acaba de fazer com ‘Os Passos da Cruz’, segunda novela a interromper poemas e contos.
“A poesia é-me mais natural mas a prosa é-me também importante, na medida em que me permite completar muito do que já está nos meus poemas.
Por:Dina Gusmão
A linguagem da poesia é sintética e imediata enquanto a da prosa obriga a um tempo e a uma continuidade que não correspondem à forma escrita do poema. Procuro na escrita narrativa a unidade que o poema tem”, explica.
Na origem da novela ‘Os Passos da Cruz’ está uma autobiografia atribuída a Antónia Margarida de Castelo Branco (1652-1717) e memórias biográficas do autor: “A autobiografia existe mas a ficção que me inspirou pesa sobre ela quase cem por cento. A brutalidade da relação marital e a capacidade de se libertar dela foram ideias que me marcaram enquanto leitor e serviram de ponto de partida enquanto escritor.
Há depois todo o período anterior ao fim da ditadura, que vivi por dentro e de que tenho viva memória... Nunca achei que estivesse devidamente tratado na ficção portuguesa e, por isso, o decidi usar como matéria--prima mais do que como catarse. Sem fantasmas não há catarses.”
Hélder Macedo, o primeiro leitor de ‘Os Passos da Cruz’, apontou-lhe um rótulo inesperado: “Este livro é camiliano, disse-me. Acontece que não me tinha dado conta dessa relação entre a História portuguesa e a história de época.”
Quanto ao sentido da vida, pedra de toque de todas as angústias da protagonista, o autor demarca-se: “Quando escrevo, a minha única angústia é chegar ao fim. É para saber como o livro acaba que o escrevo. E sou muitas vezes surpreendido”, revela.
PESSOAL
POESIA VISUAL
“Gosto de poesia visual como a de Fernando Pessoa, Jorge de Sena, Ruy Belo... Estou a trabalhar num próximo livro de poemas, mas não sairá este ano. Prosa e poesia pode ser simultânea mas não ininterrupta.”
DISCIPLINA
“Não tenho rituais nem superstições mas sou muito disciplinado e preciso de disponibilidade para criar o momento certo. Depois trabalho bem em qualquer lado. Ao contrário da minha personagem, raras vezes tomo notas.”
INSPIRAÇÃO
“Nunca acreditei na inspiração. Sempre tive de trabalhar muito. É quando começo a escrever que as coisas aparecem; não antes.”