Margarida Rebelo PintoEntrevista: Margarida Rebelo Pinto
'É muito difícil esquecer um grande amor"
Margarida Rebelo Pinto lançou ‘O Dia Em Que Te Esqueci, uma longa carta dedicada a uma antiga paixão e que fecha um ciclo iniciado em ‘O Diário da Tua Ausência’.Correio da Manhã – Neste seu novo livro, ‘O Dia em que te esqueci’ cita a escritora Lucía Extebarría quando esta diz que as famílias felizes são as que se conhecem mal. Acredita mesmo nisto?
Margarida Rebelo Pinto – Conheço poucas famílias que não sejam disfuncionais, mesmo as que supostamente são equilibradas escondem os problemas. E sou uma grande admiradora da Extebarría, cada vez que leio um livro dela apetece-me logo escrever dois.
– Que outros escritores lhe dão vontade de escrever?
– O José Agualusa, O Alçada Baptista, a Marguerite Yourcenar, a Clarice Lispector e o O’Neill que está sempre na cabeceira.
– É curioso que fale no poeta Alexandre O’Neill que referiu sempre nas suas obras anteriores. Neste livro fala em Franz Kafka.
– Este livro nasceu depois de ter lido a ‘Carta ao Pai’ de Kafka.
– Onde é que fica a fronteira entre a realidade e a sua própria vida?
– Sinceramente não sei. O livro tem muitas coisas relacionadas com a minha própria vida.
– Porque é que sentiu necessidade de escrever esta longa missiva a um grande amor?
– O ‘Diário da Tua Ausência’, publicado em 2006 trouxe-me leitores mais velhos que durante estes anos queriam saber o que tinha acontecido aquela mulher . É muito difícil esquecer um grande amor. Quais as estratégias que a pessoas usam e como esquecer um grande amor, um amor falhado?
– Acredita que homens e mulheres esquecem de maneiras distintas?
– Os homens e as mulheres são bichos diferentes. Uma das formas clássicas é uma fuga para a frente. O meu livro é um retrato muito duro da erosão do amor. Costumo dizer que nas separações, a mulher faz um lar e um homem faz um bar. As mulheres andam sempre em busca do “homem ideal”.
– O homem ideal é uma utopia?
– Para mim é, eu já não acredito no homem ideal nem na história do príncipe encantado mas sim na relação ideal.
– A Margarida tem muitos leitores homens que criticam duramente a sua visão do sexo masculino.
– Eu não tenho relações neutras com ninguém. Os leitores ou me adoram ou me odeiam e eu habituei-me a criticar ferozmente os homens. Às vezes abuso....
– Isso significa que as críticas não a perturbam?
– Penso que quando se tem uma personalidade forte como a minha e se é mulher numa sociedade bastante machista como a nossa, o dizer mal faz parte.
- Educa o seu filho para que ele seja o oposto dos homens que retrata?
- Educo o meu filho com muita guerra porque ele é macho e eu sou fêmea e ele às vezes tenta mandar em mim (risos).
- Gostava de ter mais filhos?
- Gostava de ter uma rapariga para ir comigo ao ballet e às compras e para me fazer companhia nas coisas fúteis que todas as mulheres precisam.
- Neste seu livro assume que não gosta de fazer compras nem sequer é prendada para a cozinha e que não tem necessidade de se dedicar à casa o que é o oposto do dia-a-dia da maioria das suas leitoras.
(Risos). Eu não gosto daquela coisa de fazer compras mas claro que as faço até porque tenho um filho em casa. A armadilha da domesticidade é que me mata, aquela coisa de ser a dona de casa perfeita e feliz com uma patrulla de electrodomésticos para mim é tão mau como estar presa. Sou uma pessoa muito ambivalente, gosto de estar em casa e de receber amigos mas o que realmente me dá prazer é ler e escrever.
- Em criança gostava de ler?
- Quando era criança estava sempre a ler e a escrever, a tomar notas. Recuperei uma colecção infantil que estava guardada num baú, andei a colar pacientemente todas as páginas rasgadas. E na adolescência comecei a oferecer o livro ‘Noites Brancas’ do Dostoiévski. Já perdi a conta a quantos comprei para oferecer...
- O que é que mudou em si depois de ter ultrapassado um AVC?
-Pus os pés bem assentes na terra e comecei a viver o dia a dia, aprendi a dar valor ao que é bom e a desligar a ficha do que é menos bom. Em Maio faz três anos que tive um acidente vascular cerebral (AVC) e depois disso fui operada ao coração.
- Mas sente-se bem?
- Sinto-me bem mas sei que já não tenho a mesma resistência, mas também sou mais velha. A minha doença não foi traumática, eu nunca tive medo naquela altura, no entanto hoje em dia quando estou doente e não sei exactamente o que tenho, sinto algum receio.
- Este ano celebrou 10 anos de carreira literária, iniciada com o ‘Sei Lá’. O que é que mudou nos seus romances?
-Penso que fui variando e alternando a escrita mais para fora com uma crítica de costumes e um trabalho de vozes internas, ou seja, comecei a viver dentro da cabeça das personagens que são alternadas nos romances que escrevo.
- Quem são os seus leitores?
-Há leitores que me acompanham fielmente desde o ‘Sei Lá’ publicado em Março de 1999. Curiosamente quando saíu o livro eu fui a primeira escritora para a geração abaixo da minha mas o grande boom aconteceu com o ‘Não Há Coincidências’ que vendeu mais de 200 mil exemplares. Sei que terei perdido leitores como todos os escritores perdem no entanto, ganhei outros, tenho leitores muito novos, adolescentes, que gostam do ‘Pop Star’ e leitores mais velhos que os meus pais, com mais de 70 anos, que me tratam como se fosse uma sobrinha.
- Que reacções espera a este ‘O Dia Em Que Te Esqueci’?
- Penso que vai gerar alguna polémica, é a primeira vez que falo da erosão do amor de uma forma tão directa e o livro tem partes muito duras. Tenho perfeita consciência disso.
PERFIL
Margarida Rebelo Pinto nasceu sob o signo Gémeos, a 7 de Junho de 1965. É a mais nova de três irmãos e desde criança que escreve, lê e remexe em livros. Trabalhou na comunicação social até que em 1999 se aventurou no mercado editorial com o livro ‘Sei Lá’. Em dez anos de carreira literária publicou 15 livros, muitos traduzidos noutras línguas e vendeu mais um milhão de obras.
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Gosto muito da maneira como fala do sexo masculino,mas nota-se que está revoltada.Mas já ninguem é perfeito...
Gosto muito dos livos dela!
Nunca gostei do k "gatafunha"(?).Tal como o "artolas"saramago, os v/livros são bons p'ro CARNAVAL!
Vc fala em KAFKA mas nunca o entendeu nem o percebeu!Homens, como mulheres não "existem".São coreografias do seu imagin!