Escutas: Conversa gravada pela Polícia Judiciária de Aveiro
Vara ouvido em almoço com Godinho (ACTUALIZADA)
Armando Vara e Manuel Godinho encontraram-se em Vinhais em Fevereiro deste ano, mas nunca marcaram qualquer encontro por telemóvel. O empresário de Ovar era tido como um homem bastante cauteloso, e as suas conversas telefónicas nunca eram explícitas. Diz o despacho que determinou a prisão preventiva de Godinho que só a partir do primeiro encontro de 7 de Fevereiro Vara e o empresário começaram a falar ao telefone. Mesmo assim, as conversas eram inócuas, servindo apenas para marcar encontros.
Por:Tânia Laranjo/Manuela Teixeira
Quando foi ouvido pelo juiz, Godinho soube que as autoridades tinham ido mais longe e feito escutas direccionais. Usaram aparelhos que permitem ouvir a cerca de 40 metros de distância e gravaram a conversa entre Vara e Godinho. Estávamos a 23 de Maio deste ano, e aqueles almoçavam num restaurante da Ajuda, em Lisboa.
Dizem as autoridades que foi nesse momento que o ex-ministro pediu a Godinho dez mil euros em dinheiro pelo trabalho que já desenvolvera. Designadamente porque conseguira marcar uma reunião com Paiva Nunes, quadro da EDP, para 25 de Maio. E nessa reunião, garantiu Vara, Godinho seria beneficiado com os concursos daquela empresa pública.
Vara e Godinho voltaram a encontrarar-se dois dias depois. A entrada do empresário foi novamente gravada e filmada. Eram 10h10, e Godinho levava um envelope. A PJ diz que era o dinheiro, já que, logo a seguir ao encontro no restaurante da Ajuda, Godinho pediu à secretária para lhe entregar os dez mil euros num envelope.
Nas instalações do BCP, e depois de entregar a quantia pedida, Godinho pôde falar com Paiva Nunes. Vara ligou-lhe das instalações do banco e deu-lhe conta de que Godinho chegara. Às 10h20, o empresário entrava na EDP, na mesma rua. A reunião durou até às 11h50.
Quando saiu da EDP, Godinho telefonou a Vara e contou que acertara tudo com Paiva Nunes. Vara congratulou-se com o resultado e mostrou disponibilidade para continuar a colaborar.
Hoje, os arguidos começam a ser ouvidos em tribunal. O primeiro será Manuel Guiomar, da Refer.
APONTAMENTOS
PREJUÍZO
Godinho disseao juiz que nunca fugiria porque os filhos não tinham jeito para o negócio. Garantiu que perdeu 15 milhões numa altura em que se ausentou de uma das empresas.
DOENTE
Manuel Godinhogarantiu que o facto de ser um homem doente (é diabético) afastava qualquer possibilidade de sair do País. Falou ainda do amor aos netos que o prendia a Portugal.
FUGA
O empresário de Ovar não deu em tribunal qualquer explicação para os contactos mantidos com Vara ou Penedos. Apenas tentou contrariara tese de que tentara fugir.
CARRO
O MP defendeu que Godinho, ao saber que a PJ estava nas suas instalações, passou o carro ao filho para que o BMW não fosse apreendido. Godinho garantiu que não o fez com essa intenção.
SEGURANÇA
Em Julho, Godinho foi escutado a dizer à secretária que podia deixaras empresas. Disse que só o fez paraa 'descansar' de que se tal acontecesse o seu futuro ficava assegurado.
PAULO PENEDOS TRATA COM O PAI DO NEGÓCIO DA TAPADA DO OUTEIRO
Paulo Penedos informou Manuel Godinho de que a REN ia lançar em breve uma consulta pública para a remoção e demolição dos edifícios da REN na Tapada do Outeiro – Central de Crestuma, em Gaia. Foi com base nesta informação interna e privilegiada que Godinho apresentou uma proposta em que já acrescentava a remoção de cinzas contaminadas, alegando um problema ambiental. Os contactos entre Paulo Penedos e Manuel Godinho sobre esta matéria decorreram entre 10 de Março de 2009, altura em que forneceu a informação sobre a consulta pública, e 8 de Julho, dia em que foram adjudicados à O2 os trabalhos de demolição e limpeza das instalações da REN na Tapada do Outeiro. Paulo Penedos aludiu sempre à intervenção decisiva do pai neste negócio e também no da renovação do contrato da REN com a O2 até 2010.
PRENDAS DE NATAL PARA JOSÉ PENEDOS
Manuel Godinho ofereceu a José Penedos, presidente do conselho de administração da REN, vários bens de valor considerável, na forma de presentes de Natal. Estes bens, que não estão identificados, foram oferecidos por Godinho a Penedos nas quadras natalícias, entre 2002 e 2007. A investigação exclui apenas o Natal de 2005. Os diversos presentes foram parar às mãos do presidente da REN em nome das várias empresas geridas por Manuel Godinho. De 2004 a 2006, a REN era um dos principais clientes e fornecedores da O2, uma empresa de Godinho.
E-MAILS NO PROCESSO
A investigação acedeu à troca de correio electrónico entre Paulo Penedos e Namércio Cunha, o colaborador de Manuel Godinho que trabalhou a proposta para os trabalhos na Tapada do Outeiro. O filho do presidente da REN diz também a Godinho ter conhecimento dos e--mails internos da REN, nomeadamente sobre os termos da consulta pública para a adjudicação da obra da Central de Crestuma. Vários informações privilegiadas chegaram a Godinho via correio electrónico.
TRÁFICO DE INFLUÊNCIAS PARA EX-MINISTRO
Armando Vara, Paulo Penedos, Lopes Barreira, Carlos Vasconcelos e António Paulo Costa foram indiciados pelo crime de tráfico de influências. Há ainda neste processo acusações de burla, furto, corrupção, mas a acusação mais violenta é sem dúvida a de associação criminosa.
Diz o despacho do juiz de instrução que Manuel Godinho responde por aquele crime – punido com pena entre dois e dez anos. Foram-lhe ainda imputados cinco crimes de tráfico de influências e 13 de corrupção activa para acto ilícito.
Outro crime imputado a Manuel Godinho é o de corrupção activa no sector privado, sendo-lhe aí apontadas mais cinco situações envolvendo a Petrogal, a Galp, a EDP e a Portucel.
O juiz de instrução indiciou ainda o empresário de Ovar por quatro crimes de furto qualificado – a retirada ilegal de material na Lisnave, na Petrogal e na Empresa de Manutenção de Equipamento Ferroviário (EMEF), num valor superior a um milhão de euros. A Manuel Godinho é ainda imputada uma burla qualificada, por ter falsificado a pesagem dos camiões que carregavam transformadores da EDP, depois de um dos funcionários ter exigido que a mesma fosse feita antes de se proceder à carga.
O juiz de instrução considerou ainda que, além do perigo de fuga, Manuel Godinho podia prejudicar o andamento do processo e que o seu comportamento configurava uma situação de continuação da actividade criminosa.
NOTAS
GOVERNO: REN ACOMPANHADA
Costa Pina, secretário de Estado do Tesouro e das Finanças com tutela sobre a REN, disse ontem que o Governo está a acompanhar a situação da empresa. Vieira da Silva disse o mesmo
FINANÇAS: SUSPEITO TRABALHAVA
Mário Pinto, responsável do Serviço de Finanças de São João da Madeira que terá aceitado subornos de Manuel Godinho, ainda está em funções. Ministério das Finanças não comenta
BANCO: CLIMA AFECTADO NO BCP
'O clima no banco obviamente que foi afectado nos últimos três dias, mas a tranquilidade que havia é a mesma', afirmou ontem Paulo Macedo, vice-presidente do BCP
Ainda por cima a Candida de Almeida vai sair do DCIAP ficando a Encomenda da Maria Jose Morgado a substitui-la.Desgraça