• Director: Octávio Ribeiro
  • Directores-adjuntos: Armando Esteves Pereira e Eduardo Dâmaso
João Miguel Rodrigues

Dinashvari fotografada na sua loja de flores. É também proprietária de uma empresa de construção civil e manutenção de jardins

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Reportagem

A integração ao fim de um longo caminho

Vivem entre mundos. Nasceram pobres e deram sentido à riqueza da vida, construindo pedra sobre pedra o monumento da integração. São histórias de jovens sem preconceitos que lutam diariamente por um Mundo mais igual

Por:Susana Bulas

No bilhete de identidade, Nuno Santos. Não é conhecido pelo nome próprio a não ser quando veste a farda de técnico de intervenção social. Neste desempenho tem uma mordaça na boca. 'Como técnico, não posso dizer tudo aquilo em que acredito. Arranjo outras formas de fazê-lo.' Protagoniza o ofício da sua vida como Chullage — o rapper de intervenção. Chullage é a alcunha de infância dos tempos em que vivia no ‘Bairro Asilo 28 de Maio’, na Caparica. A designação em crioulo é de um ‘tipo desenrascado’ que ‘nunca desiste’. Tal como Dinashvari, engenheira biofísica e dona de uma loja de flores, e Anabela Rodrigues, advogada, ambas filhas de imigrantes, não desistiriam.

'Quando não tinha dinheiro para tirar o passe da escola, apanhava boleia num camião cisterna.' Nuno Santos representa a parte de um todo chamado Chullage que utiliza a composição das músicas 'para despertar consciências'. Um grito na sociedade, entre outras coisas, para chamar a atenção dos problemas dos africanos residentes em Portugal.

A sua inspiração é o ritmo da cidade. O mosaico. 'Faço retratos do que vejo.' Das realidades tão diferentes assentes no mesmo chão. A parte interessante e bonita da 'diferença cultural', mas também a diferença estatutária 'que não interessa a ninguém.'

Filho de imigrantes cabo-verdianos, cedo despertou para a realidade da vida que não sentia como sua - 'o lugar de segunda reservado pela sociedade.' Desde muito novo que tem vindo a 'dar a sua pedra'. Outra vez o crioulo com que tanto se identifica.

O preto e o branco. É nesta dicotomia que Nuno Santos acha a sua identidade. 'Uma pessoa não pode ficar sem ser nada. Vivo entre dois mundos.' Por mais que lhe perguntem 'de onde és' e ele responda 'sou português', as perguntas só cessam quando se descobre que os pais são de Cabo Verde.

A cor da pele apela. Nuno Santos tem respostas para tudo, mas a cada dúvida, a cada inquietação, ele responde com máxima sinceridade: 'Quando estou a ver a Selecção Nacional sou português, mas quando estou a levar porrada da polícia sei que sou africano.'

Neste jogo de perguntas e respostas Nuno Santos compõe a sua própria síntese: 'Sou um africano resultado de uma diáspora e de uma história.'

Encontra no hip-hop um modus vivendi. Tudo começou com as influências musicais do pai. 'Em casa rodavam horas consecutivas de música variada.' O clique para começar a escrever deu-se ao ouvir um disco de Rebel MC que um amigo mais velho do bairro lhe emprestou. Escrevia poesia e, aos 16 anos, quando se mudou para o bairro da Arrentela, já versejava. 'Os meus cadernos da escola têm mais versos que matéria das aulas.' Isso não foi impedimento para prosseguir os estudos até ao 12.º ano, sempre com bom aproveitamento.

Como todos os adolescentes sonhava com roupas e ténis de marca. Tinha duas hipóteses: ou roubava estendais ou ia trabalhar. Aos 13 anos foi limpar porões de navios. Depois andou a calcetar e, nas obras, trabalhou como servente de cofragens. 'Com esse dinheiro comprava roupa. Se aparecesse uma moda a meio do ano tinha de esperar pelo ano seguinte.'

Por insistência dos amigos entrou pela porta da universidade. Passou a ser aluno de Sociologia do Trabalho no ISCSP. 'Era, na universidade, o único preto com brincos e rasta.' No final do primeiro ano 'achava aquilo insuportável e queria bazar'. Conseguiu as melhores notas. Hoje, com 30 anos, dedica muito do seu tempo a uma associação que criou com amigos na adolescência. Com o ideário do rap, dá formação a crianças e jovens. 'Tento pôr em prática a minha música cheia de idealismos.' Se ficasse no estúdio, Nuno Santos sentir-se-ia incompleto.

Usa um simples brinco no lado esquerdo do nariz. Brilha. É o sinal de estar preparada para casar. Porém, não tem noivo. Nasceu há 32 anos em Maputo e os seus pais são filhos de Diu, ex--colónia portuguesa situada na Índia. A sua vida nunca foi um jardim mas divide-se entre flores e plantas da loja da qual é proprietária e a empresa de construção civil e manutenção de jardins que abriu com dois de um total de seis irmãos, metade dos quais com cursos superiores. É, também, uma forma de dar continuidade 'à casta dos pedreiros.' Alimenta o sonho de criança de criar um laboratório para estudar e combater pragas e doenças das plantas. Talvez por ter vivido num contra-ambiente. 'Se um dia a loucura me permitir, vou concretizar esse sonho.'

O fascínio pelas flores e plantas, e pelo ambiente em geral, brotou dos tempos em que vivia numa barraca no Bairro da Quinta da Holandesa, no Areeiro. Em 1985, quando a família de oito pessoas chegou a Portugal, encontraram ali o porto de abrigo para abraçar uma nova vida. 'Quem chegava de fora ia directamente para as barracas.' Ela só queria achar, entre as raízes que cresciam à sua volta, trepando paredes encharcadas da chuva que caía, a fórmula certa para criar um Mundo melhor. Não é uma mulher de queixumes. Vai ao ponto de relevar: 'A minha infância foi muito feliz.' A vocação e o amor pelas questões ambientais descobriu-os nesse ‘habitat’.

Respeitando as tradições familiares, dá um valor absoluto à liberdade de expressão cujo gosto aprendeu a saborear apenas entre os portugueses. Coloca-se no meio da ponte. 'Dizem-me sempre que tenho de definir a minha identidade.' Mas Dinashvari quer compreender todos os seus mundos: 'Quando estou entre uma comunidade portuguesa, posso sentir-me mais indiana, mas também me acontece o contrário.' Um salto dimensional. A fluência da língua de Camões foi crucial na sua integração. Mais: o tratamento passa a ser diferente quando 'do outro lado' há percepção de que o domínio do idioma é total e ainda mais diferenciado quando apresenta as suas credenciais de engenheira biofísica.

Comunicativa. Em ambiente familiar põe a rodar um filme com 31 anos. Os mesmos que tem de vida. A película alcança, na segunda metade da sua existência, dedicação extrema à Associação Moinho da Juventude, na Cova da Moura – a menina dos seus olhos. Tudo começou a rodar quando a tia a inscreveu num curso de culinária. Fazia bolos e distribuía preservativos. Afinal, dois momentos importantes da longa-metragem. E lá permaneceu até lhe reconhecerem os méritos que a levaram ao papel principal de presidente. Para trás, muitos anos de trabalho e dedicação à comunidade a que pertence 'com orgulho'. Anabela Rodrigues é uma contestatária. Não se conforma perante as lutas que é preciso travar. Recusa-se a ser politicamente correcta: 'No Restelo há muita prostituição e ninguém fala nisso.' Não convém. 'Agora aqui, na Cova da Moura, sim, são os pretos e os imigrantes.'

O surpreendente à-vontade com que fala das cenas rodadas no bairro do Restelo vem do tempo passado naquelas paragens. A mãe, a operar em sistema de internato, pediu às patroas 'para colocar as filhas numa escola perto do trabalho'. Assim era mais fácil controlar a educação. Neste ambiente de ‘betos’, sorveu o gosto pelos livros que a mãe controlava com pulso férreo. 'Se tinha 19, 5 valores, ela perguntava-me a razão daquele risco vermelho no teste.' As boas notas valeram-lhe uma bolsa de estudo. 'A minha mãe dizia-me que mais valia comer metade de uma carcaça e comprar o caderno para a escola, do que comer uma carcaça inteira e o caderno fazer falta.' Manter a bolsa passou a ser o seu grande objectivo. Uma tarefa facilitada. 'Na escola, ninguém desconfiava que eu era da Cova da Moura.'

DIFERENTES E IGUAIS

Dinashvari, Chullage, Anabela. Três jovens adultos. Três experiências de integração bem sucedida, mesmo se as condições de partida não eram as melhores. Cresceram em bairros de barracas. Foram olhados com desconfiança. Às vezes ainda são. Às vezes Dinashvari ainda surpreende quando conta ser engenheira biofísica. Quanto a Anabela, sabe de leis, as mesmas que tantas vezes são manobradas para prejudicar os mais fracos. Porque se, todos os homens são iguais perante a lei, não raro parece que uns são mais iguais do que os outros. Anabela licenciou-se em Direito para que assim não seja. Já Chullage não é nome desconhecido de quem se interessa pela música que hoje se faz em Portugal. Música interessada pelas pessoas e pela forma como vivem. Música de intervenção social. Rap de acção. Dinashvari, Chullage e Anabela, cada um a seu modo, traçaram percursos de vida a partir do nada ou muito pouco. Não cabem no papel do ‘coitadinho’. Pegaram na vida com as próprias mãos e fizeram-se o que são hoje. Integrados.

'O CURSO É UMA FERRAMENTA IMPORTANTE '

Anabela Rodrigues licenciou-se em Direito ('trabalhei muito'), mas, da sua relação com a advocacia, reteve uma ideia que ajuda a compor a sua rebeldia:'No terceiro ano do curso, quando comecei a mexer na documentação necessária para os processos de legalização, vi o que julgava impossível. Deparou-se-me um cenário dantesco: advogados a roubar gente pobre aqui do bairro [da Cova da Moura, na Amadora]'. Anabela ficou marcada por estes episódios. 'Tiravam 200 a 300 contos a pessoas que pouco tinham e nem sequer lhes tratavam dos papéis.' Hoje, na Associação Moinho da Juventude, faz questão de ser ela a tratar de todos os processos. Ela não vacila:'O curso é uma ferramenta importante mas é preciso saber utilizá-la. Com dignidade.'

Se conseguiu licenciar-se em Direito, deve-o ao seu próprio esforço e ao empenho e zelo da mãe, que lhe dizia mais valer comer apenas uma carcaça e ter dinheiro para comprar o caderno da escola do que comer uma carcaça inteira e não ter caderno para apontar as lições do professor. Desde cedo, Anabela integrou as ideias maternas sobre a importância, a par da alimentação, da educação formal. Por isso chegou à universidade e mesmo antes de concluir o curso pôde aperceber-se da maneira como advogados exploravam os imigrantes em processos de legalização.  

PORTUGUESES NASCIDOS DA NOVA LEI

O dia 20 de Maio de 2007 escreveu-se com muitas cores. E línguas. A data, assinalada no Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, ficou marcada pela atribuição do certificado de nacionalidade portuguesa a 324 beneficiários da nova Lei da Nacionalidade. A larga maioria, 284 pessoas, tem até 13 anos. São novos portugueses ao abrigo das alterações à lei, em vigor desde 2006, que prevê que os fi-lhos dos cidadãos estrangeiros que residem em Portugal há mais de cinco anos possam adquirir a nacionalidade portuguesa. O documento estabelece, contudo, alguns requisitos, tal como o conhecimento da língua portuguesa e os possíveis beneficiários não terem sido condenados a penas de prisão igual ou superior a três anos. Tem sido concedida a nacionalidade lusa a originários de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Angola, Brasil, Rússia, Roménia, Moldávia, China, Índia, São Tomé e Príncipe, Ucrânia, Paquistão, Bangladesh, Holanda e Marrocos.

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Comentários a esta notícia
  • Comentário feito por:Graça Afonso
  • 20 Abril 2008

Quero dar o parabéns a estes jovens, porque conseguiram vencer apesar de todas as dificuldades

  • Comentário feito por:Luis Morteira
  • 17 Abril 2008

Quando as pessoas querem conseguem atingir os seus objectivos. É preciso trabalhar, seja qual for a nacionalidade ou raça. Estes jovens mostram a outros que, mesmo com muitas dificuldades, conseguiram estudar. Barreiro

  • Comentário feito por:Andreia Correia
  • 14 Abril 2008

Ainda bem que em Portugal há lugar para todos desde que se esforcem. Também existem muitas gerações de portugueses lá fora e conseguem vencer.

  • Comentário feito por:Andreia Correia
  • 14 Abril 2008

Ainda bem que em Portugal há lugar para todos desde que se esforcem. Também existem muitas gerações de portugueses lá fora e conseguem vencer.

  • Comentário feito por:Luis Morteira
  • 17 Abril 2008

Quando as pessoas querem conseguem atingir os seus objectivos. É preciso trabalhar, seja qual for a nacionalidade ou raça. Estes jovens mostram a outros que, mesmo com muitas dificuldades, conseguiram estudar. Barreiro

  • Comentário feito por:Graça Afonso
  • 20 Abril 2008

Quero dar o parabéns a estes jovens, porque conseguiram vencer apesar de todas as dificuldades

  • Comentário feito por:Graça Afonso
  • 20 Abril 2008

Quero dar o parabéns a estes jovens, porque conseguiram vencer apesar de todas as dificuldades

  • Comentário feito por:Luis Morteira
  • 17 Abril 2008

Quando as pessoas querem conseguem atingir os seus objectivos. É preciso trabalhar, seja qual for a nacionalidade ou raça. Estes jovens mostram a outros que, mesmo com muitas dificuldades, conseguiram estudar. Barreiro

  • Comentário feito por:Andreia Correia
  • 14 Abril 2008

Ainda bem que em Portugal há lugar para todos desde que se esforcem. Também existem muitas gerações de portugueses lá fora e conseguem vencer.

  • Comentário feito por:Graça Afonso
  • 20 Abril 2008

Quero dar o parabéns a estes jovens, porque conseguiram vencer apesar de todas as dificuldades

  • Comentário feito por:Luis Morteira
  • 17 Abril 2008

Quando as pessoas querem conseguem atingir os seus objectivos. É preciso trabalhar, seja qual for a nacionalidade ou raça. Estes jovens mostram a outros que, mesmo com muitas dificuldades, conseguiram estudar. Barreiro

  • Comentário feito por:Andreia Correia
  • 14 Abril 2008

Ainda bem que em Portugal há lugar para todos desde que se esforcem. Também existem muitas gerações de portugueses lá fora e conseguem vencer.

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