A página de José Medeiros Ferreira
Partidos paralíticos
Depois das Europeias, o PS e o PSD ficaram paralisados, o PS pela derrota, e o PSD perante a vitória. E assim se passou o tempo. Como se nenhum deles estivesse preparado para uma inversão de papéis.
Por:José Medeiros Ferreira, Professor Universitário
O caso do PS é talvez mais compreensível, embora sintomático. Dotou-se de um líder que em poucos meses o levou à maioria absoluta perante o entusiasmo da sociedade civil consubstanciada em banqueiros, empresários, gestores, grandes causídicos, novos militantes esperançosos, e até certos círculos da Europa comunitária.
Para muitos apareceu como um vencedor nato, quase um homem providencial, ou pelo menos como metade dele, depois da eleição de Cavaco Silva para PR. As sondagens permaneciam constantes mau grado o mal-estar das manifestações. Era um ambiente propício a conjecturas milenaristas, os dirigentes do PS deliciavam-se com o seu novo papel na sociedade portuguesa. O resultado das europeias obrigou a um acordar estremunhado. Os apoiantes do mundo exterior tornaram-se mais discretos, a perplexidade assaltou os mais entusiastas. Quase ninguém propôs um exame de consciência.
O caso do PSD é mais estranho, mas não menos significativo. Depois dos festejos da vitória propôs que o país parasse à espera da nova distribuição de tarefas, nomeadamente no domínio das obras públicas, um ministério assim rebaptizado pelo cavaquismo governamental. De resto nada disse de substancial sobre o futuro. Usou um discurso político e programático pobre. Como se não se tivesse preparado para a eventualidade.
Os portugueses vão ter de se armar de paciência durante uns tempos até aparecerem outras propostas.
A LUA HÁ 40 ANOS
Dia 21 fez 40 anos que o homem chegou à Lua. Um acontecimento mundial.
Fui dos que ficaram a pé até ao passo de Neil Armstrong.
Eram 3h e 56 em Genebra. Um pequeno grupo de estudantes expatriados de várias nações assentou no Centre Universitaire Protestant. Um laço especial envolveu-nos como no filme de Steven Spielberg ‘Encontros Imediatos’. Que será feito dessa gente que acreditava na Lua?
A LEGISLATURA MAIS LONGA
Terminou anteontem a legislatura mais longa da história da Constituição de 1976, graças à dissolução da Assembleia por Jorge Sampaio em Dezembro de 2004 e à existência de uma maioria absoluta monopartidária. Os resultados eleitorais de 27 de Setembro funcionarão como uma espécie de Juízo Final desse tempo extraordinário que cada um viveu à sua maneira. Começou com as contas do défice. Há quem queira que termine como começou.
FUTEBOL VIRTUAL
A pré-época futebolística é o momento de todas as ilusões. Para alguns clubes é mesmo o melhor momento da temporada. Quase tudo se joga nos jornais a começar pelas inúmeras notícias de transferências e dos milhões envolvidos. Mesmo os jogos-treinos são transmitidos como grandes acontecimentos que não são. Um golo fortuito dá para chancelar um jogador e até uma equipa. A prova da realidade só vem depois. Tarde de mais?
A EUROPA QUE SE SEGUE
Quase nada se discutiu sobre as questões europeias durante a campanha de Junho, e elas aí estão a merecer a máxima atenção. No PE, o Partido Socialista Europeu nem sabe como se há-de chamar: "grupo", "aliança", "democratas e progressistas" foram palavras que andaram numa roda viva.
Os ex-comunistas italianos foram os campeões da caça ao eufemismo desde que se não vivificassem as cores do socialismo.
Mas o mais importante passa--se na Alemanha. Enquanto se consagra em lei de bronze os limites para o endividamento a nível nacional e regional, o Tribunal Constitucional decretou que não haverá mais transferências de soberania para a EU num amplo naipe de matérias desde a política de defesa, à educação e à justiça penal, desde a política fiscal à segurança interna, sem uma revisão da Lei Fundamental de 1949, com tudo o que isso implica. Ou seja, o Tratado de Lisboa assemelha-se ao fim da história europeia para Berlim.
A SEGUIR: LIVROS PARA O VERÃO
‘Um Escritor Confessa-se’, de Aquilino Ribeiro( Bertrand). Um extraordinário documento sobre a vida de um escritor que fez crescer a língua portuguesa; ‘À Espera de Godinho’ (Bizâncio), um diálogo intenso entre 4 exilados que não regressaram a Portugal depois do 25 de Abril.
“Que será feito dessa gente que acreditava na Lua?” Não sabe?Andam todos na Lua, em quarto minguante, tal como o seu PS.