Entrevista
"Mulheres continuam a ser menosprezadas" (VÍDEO)
Actriz recupera o papel da filósofa e astrónoma Hypatia, massacrada por cristãos radicais, no filme ‘Ágora', já em exibição nas salas nacionais.
Por:Paulo Portugal
Como descreveria a experiância de trabalho com o realizador Alejandro Amenábar?
Ele é um génio, um verdadeiro génio! Foi uma experiência incrível. Apesar de 'Ágora' se tratar de uma grande produção, ele tinha sempre tempo para os actores.
Já conhecia a personagem da filósofa Hypatia que interpretou?
Não, nunca tinha ouvido falar dela. O que é espantoso dada a relevância do seu trabalho. O Alejandro deu-me alguns livros que falam dela, mas eram demasiado académicos.
Na verdade, era uma filósofa e astrónoma bastante avançada para o seu tempo...
... e que foi morta em circunstâncias horríveis por cristãos, que a esfolaram viva e dilaceraram a sua carne dos ossos. É claro que parte é verdade, mas também fruto da imaginação e da adulteração dos factos com o decorrer do tempo.
O que é mais difícil para um actor, conhecer tudo sobre a sua personagem ou, como neste caso, ter de recorrer à imaginação por a verdade não ser translúcida?
Existem muitas cartas enviadas pelos seu alunos e acho que também algumas respostas dela. É claro que existem outras anotações dela, mas são equações mateméticas que eu não compreendo.
É extraordinário ver uma mulher nessa altura a ensinar matemática e astronomia e com um pensamento tão evoluído...
Sim, é invulgar, mas, aparentemente, existiam outras. Ela não seria a única.
O filme é uma interessante parábola sobre ciência e religião, mas em que os cristãos não são heróis, mas sim vilões que matam em nome de Deus. Não será esta uma visão próxima do que se passa hoje em dia. Como vê essa perseguição de mentes livres por fanáticos?
É algo que desaprovo, claro. O que é interessante é a actualidade do pensamento dela, pois hoje, em muitas partes do mundo, continua a matar-se em nome de Deus. As mulheres continuam a ser menosprezadas e a educação não é uma prioridade. É fascinante como existem tantas semelhanças apesar de distantes no tempo.
Como explica que entre o século IV e o século XXI não tenham existido mudanças significativas?
Se soubesse a resposta salvava o Mundo (risos). Quando povos diferentes invocam o seu deus para justificar exactamente o oposto de outros povos entramos num anátema difícil de solucionar.
Sente-se de alguma forma próxima da sua personagem? No sentido de ser uma pensadora livre, racional e sempre à procura?
Não necessariamente. Eu sou uma contadora de histórias e ela era uma cientista.
No entanto, deixa-se levar pela razão?
Não sei se serei assim tão razoável, mas uma coisa é certa: sou bastante tolerante. Acho que toda a gente deverá ser livre de ter a sua práctica religiosa, as suas crenças. Não acredito que o que eu pensamento seja mais acertado do que os outros.
Acha que hoje em dia existem mais papéis femininos mais interessantes?
O que eu acho é que nunca são suficientes. Há alguns. Mas também há menos realizadoras e menos argumentistas, por isso é natural que existam menos papéis femininos com garra. A indústria de cinema é governada por homens. Mas também isso está a mudar. Acho que precisamos de mais produtoras e realizadoras para contar histórias femininas. O que é único no Alejandro é que consegue contar uma história interessante sobre uma mulher sem tornar o filme feminista.
A Rachel é casada com um realizador. Percebe-se no trabalho do Darren (Aronofsky) uma intenção orgânica semelhante a Amenàbar, concorda?
Sim, ele concebe o seu trabalho como uma procura interior. Não é seguramente um realizador 'por encomenda'. Todos os seus filmes é ele quem os desenvolve. Por exemplo, 'A Fonte' demorou vários anos a amadurecer, ainda que não tenha sido muito bem recebido. Foi quase um trabalho bíblico concretizá-lo. O mesmo se passou com 'The Wrestler'. Diria que são ambos apaixonados pelas histórias que contam.
Apesar de tudo, gostaria de ter vivido neste período? Longe da tecnologia?
Gostaria de poder viver longe dos emails e dos Blackberry's (risos)... Podemos passar uma vida inteira a responder a emails ou a atender telemóveis.
Ou a responder a perguntas em entrevistas... (risos)
... (risos) Sim, mas essa é apenas uma circunstância individual, não atinge toda a gente.
Mas o que gostaria mais do facto de poder viver no século IV?
Gostaria de apreciar a calma, a paz e o silêncio. Naquela altura tudo se movia muito mais devagar.
Considera-se mais uma mulher urbana ou campestre?
Ambas. Gosto de estar na cidade, mas não dispenso a calma do campo. Sem email... (risos)
De que forma mudou a sua vida com a chegada do seu filho (Henry Chance, de 3 anos)?
Mudou completamente. Agora somos três. É uma alegria muito grande.
É difícil manter o equilíbrio entre a vida familiar e o trabalho?
Eu não sou a única mãe trabalhadora. Mas tiro o chapéu a todas elas. No entanto, como ele ainda era pequeno vinha comigo. Aliás, os locais de filmagens são muito convidativos a crianças e animais domésticos - é uma espécie de circo (risos). Quando começam a escola já é mais complicado.
Tem sido complicado arranjar a sua vida para que consigam estar os três juntos?
Por acaso tem corrido bem. Quando estive a fazer este filme no Inverno passado, o Darren editava 'The Wrestler', em Malta, onde eu estava. Foi óptimo.
Como foi filmar em Malta?
Foi óptimo. Estávamos numa pequena aldeia piscatória. Era muito tradicional. Foi uma experiência muito interessante.
Vai voltar a trabalhar com o Darren?
Se ele me convidar...
Acha complicado trabalhar com o seu companheiro ou até se torna mais facilitado?
Foi uma experiência bastante agradável. É interessante ibservar o nosso companheiro numa relação de trabalho. Digamos que pelo menos não me dirigia assim em casa... (risos) Foi até bastante sexy perceber os outros aspectos do seu talento. Fez-me até ficar mais apaixonada por ele.
Mas, se calhar, é a Rachel quem o dirige em casa, não?...
Sim, claro (risos)... É uma pessoa diferente em casa.
Como foi a experiência de ser dirigida pelo Peter Jackson em 'Visto do Céu'?
Gostei muito. Por acaso, até acabei o filme dele antes do 'Ágora'. Filmámos em Filadélfia e depois na Nova Zelândia. É um filme muito tocante. E a Saoirse Ronan vai ser uma revelação.
PERFIL
Rachel Weisz, londrina de 39 anos, deu nas vistas logo aos 14 como modelo e só estudou Drama na Universidade de Cambridge. No entanto, ganhou logo um Óscar de Melhor Actriz Secundária por ‘O Fiel Jardineiro’ (2005).