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Sérgio Lemos

“Temo que Sócrates tenha, neste momento, uma carapaça indestrutível”, sublinha

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Grande Entrevista: João Pereira Coutinho

“Um país sem futuro convida à emigração ou à paródia”

Publica no Verão ‘O Livro das Opiniões’, que reúne 12 anos de escritos. Aos 33, segue o conselho de Woody Allen – deixou de ler o que sobre ele se escreve. Nesta entrevista, Pereira Coutinho, também sobre o país e os portugueses.

Por:Fernanda Cachão

- Se na segunda-feira, quando o primeiro-ministro foi à SIC, também tivesse podido fazer uma pergunta, qual seria?

- Senhor primeiro-ministro, acha que vale a pena continuar? Olhe bem para si, o senhor envelheceu barbaramente; começou como Clooney e hoje é uma pálida imagem do actor inicial. Acha que vale a pena o desgaste do governo? As trapalhadas em que o seu nome aparece constantemente envolvido? O senhor acha que o poder vale a pena? Perguntava-lhe isto.

- Que resposta é que acha que ouviria?

- A resposta de um robô. Que é vítima de todas as calúnias, que não tem culpa nenhuma e que, portanto, apesar de envelhecido - isso acho que ele reconheceria - continuaria a trabalhar em prol de Portugal e dos portugueses.

- E qual seria a resposta ideal?

- O ideal seria: um momento de pausa, duas lágrimas fugidias. O engenheiro Sócrates dizia: ‘Tem toda a razão, a partir de amanhã, o Teixeira dos Santos que tome conta disto que eu vou esquiar'.

- O ministro Teixeira dos Santos seria um bom primeiro-ministro?

- Acho que sim. Já o disse - e até já há algum tempo - que o engenheiro Sócrates deveria pôr o lugar à disposição para o bem do país e do PS e que um nome como o de Teixeira dos Santos podia perfeitamente tomar conta da pasta.

- O PS aguentaria a saída de Sócrates?

- Uma boa parte do PS não só aguentaria, como era tanto o fogo-de-artifício no largo do Rato que seria impossível dormir naquela zona durante 48 horas seguidas. Era a maior festa que poderiam fazer ao PS era o engenheiro sócrates dizer que ia esquiar e que não estava para isto.

- Quem é que acha que José Sócrates poderia levar consigo?

- Acho que, provavelmente, uma belíssima companhia seria o dr. Augusto Santos Silva e o secretário-estado da Defesa, o doutor Perestrello. Era um trio que eu gostaria de ver a esquiar, sem possibilidade de retorno rápido ao País.

- Escreveu no ‘CM' que o caso das escutas dividiu o País em duas metades...

- Na altura, no artigo, disse que havia aqueles para quem isto já teria levado à queda do Governo e outros para quem tudo é uma cabala contra o engenheiro Sócrates. Neste momento, já há outro grupo, o daqueles que até acreditam na responsabilidade, pelo menos a política, mas que, pura e simplesmente, já não se importam. O País está anestesiado. Receio até que, independentemente do que se passe daqui para a frente, o País está pura e simplesmente indiferente.

- Estamos no país do ‘mal o menos'?

- Acho que estamos no mínimo dominador comum. Os vários casos em que aparece o nome de Sócrates - este das escutas, as negociatas com a PT para comprar a TVI e a vontade de arregimentar os órgãos de Comunicação Social - deixam as pessoas numa profunda indiferença. Temo que o engenheiro Sócrates, por indiferença dos portugueses, tenha uma carapaça indestrutível. O homem só sai se quiser.

- Alguma vez imaginou que pudéssemos ter um primeiro-ministro tão atacado na praça pública?

- Não. Todos nós nos lembramos do breve consulado do dr. Santana Lopes. Devo ser das poucas pessoas em Portugal que ainda não percebeu por que é que o governo de Santana Lopes foi abatido pelo presidente Sampaio. Foi posto na rua por coisa nenhuma, porque o dr. Sampaio entendeu que havia um clamor de ilegitimidade em torno do governo de Santana. Jamais pensei que fosse possível existir um primeiro-ministro que resistisse tanto como este. Com outro tipo de político, tipo Santana Lopes, seria impensável.

- Qual o papel de Cavaco Silva?

- Mesmo que quisesse dissolver a Assembleia da República (AR), o Presidente da República não o poderia fazer neste momento. É um problema que tem de ser resolvido pelo PS, que pode sair desta aventura bastante debilitado. Se o PS entende que não deve, cabe à AR eventualmente ponderar apresentar - quando houver uma liderança na Oposição capaz - uma moção de censura. Mas se a moção de censura resolveria a falta de condições políticas do primeiro-ministro até seria injusta para o Governo. O que tem de ser censurado é o primeiro-ministro.

- É uma questão moral?

- É moral e política. É grave quando o País parte do pressuposto de que o primeiro-ministro mentiu no Parlamento. Toda a gente dá isso por adquirido, apesar do próprio o desmentir. As pessoas agem como se fosse normal que o primeiro-ministro mentisse no parlamento. Ainda ontem, no debate [Prós e Contras, RTP 1, dia 22/02] depois da entrevista do engenheiro José Sócrates na SIC, vários comentadores diziam qualquer coisa como isto : "é evidente que ele mentiu mas isso pronto...". Ou seja, relativizavam aquilo que é, para mim, uma falha política fatal - o primeiro-ministro mentir no parlamento.

- Se mente, mente bem...

- Eu não sei se mente bem. Por acaso, acho que não. Acho que as pessoas, pura e simplesmente, não dão importância ao facto de o primeiro-ministro ter ou não uma relação problemática com a verdade.

- Os portugueses são benevolentes com a mentira?

- São indiferentes. Para os portugueses isso não é importante, como também não é importante a liberdade. Um país que aguenta 48 anos de ditadura não preza a liberdade. Seria impensável em qualquer país de tradição liberal, democrática. Para mim seria impensável viver 48 anos de ditadura, provavelmente teria fugido na primeira oportunidade.

- A ditadura influencia, até hoje, os portugueses?

- É a nossa tradição política. A República [1910-1926] foi à sua maneira também uma ditadura. Foi porque tivemos uma experiência republicana tão desastrosa que tivemos ditadura. Os portugueses preferem o consenso, a ordem, o respeitinho. Temos uma castração crítica e moral.

- Perante essa análise, como imagina Portugal já em 2011?

- Imagino um país mais empobrecido, mais endividado. Um país sem grande futuro.

- Não há remédio?...

- Diz-se que o país vai falir. A falência não tem nada de dramático - é preciso dizer isso. As pessoas acham que falir é ‘fechamos as portas e vamos viver para Espanha'. Não é. O país empobrece, torna-se mais pobre do que os outros, vamos ter mais desempregados do que os outros, menos poder de compra do que os outros, etc. Um país sem grande futuro, em situação de falência, que é basicamente a nossa situação actual, é um país que convida ou à emigração ou à paródia.

- Estamos em que fase?

- Na fase da paródia. Há uma profunda desconfiança nos actores políticos, uma profunda desconfiança nos partidos políticos, há uma profundíssima desconfiança na capacidade dos actores políticos de fazerem as reformas necessárias. Se se fizesse um dicionário político em Portugal, na palavra ‘reforma' estava ‘subida de impostos'. Qual é a melhor forma de chegar ao bolso dos contribuintes? - é isso que anima os governos.

- E o que pode animar o PSD?

- Daqueles que se apresentaram a concurso nenhum me convence. Não têm uma ideia consequente.

- Mas um deles até escreveu um livro.

Sim, eu li. Não sei se é uma obra realista ou de ficção. Se fosse militante, perguntava-me qual deles põe o engenheiro Sócrates a ferver e dos três é Paulo Rangel. Isso é um bom indicador:_o nosso inimigo, a espumar. Mas Rangel é desmoralizador com os seus entusiasmos federalistas, a ideia absurda de fazer da agricultura uma espécie de sector de ponta da economia e a ideia estatista da sociedade portuguesa. Se estivesse no congresso do PSD estava a rezar para que Jesus descesse à terra e Marcelo se chegasse à frente.

- Dizia ‘se eu fosse militante'. É ou foi militante de algum partido?

- Nenhum. Para evitar transtornos e vexames a esse partido. Não me calaria, não respeitaria coisas básicas, que resultam na remoção do cérebro e na instalação do chip partidário.

- Via o jornal de Manuela Moura Guedes?

- Via. É moda as pessoas dizerem: ‘aquele jornal devia continuar, embora não o visse'. As pessoas gostam de fazer a ressalva de nojo. Eu via e gostava. Um jornal como aquele, opinativo, agressivo, existe em qualquer país ocidental, do Reino Unido ao Brasil.

- E as imagens de Mário Crespo na comissão, viu?

- Vi, achei penoso, patético. Esta comissão só podia gerar claques - jornalistas favoráveis ao Governo, outros que não. O espectáculo de Mário Crespo foi penoso porque, em primeiro lugar, tenho respeito por ele - é um bom jornalista - mas a distribuição das fotocópias de uma crónica... como se isso fosse necessário! Tenho a certeza de que podia ter publicado a crónica noutro sítio. A camisola do ‘ainda não fui processado por Sócrates'... o que é que isso significa? Zero. Não acrescenta nada. Há liberdade de expressão. É óbvio. O problema está em saber até que ponto o Estado tem um papel predador na reorganização dos órgãos de comunicação social, que depois derive num problema de liberdade de expressão. Na época do ‘Mensalão', no Brasil, faziam comissões parlamentares de inquérito e todas as pessoas que eram chamadas choravam, riam, insultavam-se e porquê? Porque as comissões de inquérito exorbitam aquilo que as pessoas têm de pior, que é o ego.

- É liberal e conservador. Por que é que em Portugal isso parece ser criticável?

- Ignorância. É tão legítimo como ser socialista. Um pouco mais problemático e aberrante é ser comunista ou fascista depois de tantas mortes e arbitrariedades.

- Por essa lógica, na AR há deputados com convicções aberrantes...

- Acho triste termos um partido comunista. Já viu o que era termos um fascista?!

- Na blogosfera há uma certa inclinação para um desporto: o ‘vamos bater no Pereira Coutinho'... Incomoda-o?

- Não leio. Aconselho a futuros colunistas e a quem queira fazer uma actividade pública não ler o que se escreve a seu respeito. Woody Allen disse que o segredo da sanidade e da longevidade no trabalho é não se ler o que se escreve a nosso respeito. E tentar divertir-se.

- Já fez as pazes com o Daniel Oliveira [o bloquista e JPC envolveram-se numa troca de galhardetes na blogosfera]? Na altura, leu o que este escreveu...

- Li e foi um erro. Foi quando percebi que não valia a pena. O que foi dito foi dito, eu reagi como reagi mas, quer dizer, não perdoei, nem deixei de perdoar. Já nos voltamos a cruzar , cumprimentámo-nos hipocritamente como acontece em 90 por cento das nossas relações sociais.

- Começou nos jornais precisamente por ter escrito mal de alguém.

- Escrevi e fui condenado. Disse que um vereador de uma câmara, do Partido Socialista, era a carraça do presidente. E ele não gostou e fui processado. Não sou um mártir da liberdade de expressão como o Mário Crespo. Foi um disparate de juventude. Antigamente, como havia menos blogues, menos profusão de meios de expressão, aquilo que eu dizia provocava maior estranheza. Hoje em dia sou uma espécie de dinossauro.

- Numa entrevista disse que gostaria de ser um ‘Buda gordo em cima de uma almofada'. Está mais próximo?

- Acho que sim. Estou a dar menos importância àquilo que antigamente dava importância. Por exemplo, o estado político do País, fui perdendo em fúria e ganhando em ironia. É mais eficaz a ironia do que a fúria.

- Se tudo fosse uma maravilha não tinha o que escrever...

- É verdade. Há duas profissões que neste País têm sucesso garantido: cronista e coveiro.

- Na entrevista que fez a Tony Carreira, para a revista GQ, disse-lhe que ele estava no topo da sua agenda de pessoas a entrevistar e que não partilhava do preconceito elite cultural nacional. Então o João Pereira Coutinho não pertence a qualquer elite cultural, é isso?

- Em termos históricos é sempre muito complicado falar em elites. Em literatura, o cúmulo da sofisticação é Shakespeare e, no entanto, no século XVI, o escritor era enxovalhado pelos intelectuais da corte. Platão recomendava que não se lesse esses poetas populares, tipo Homero. Portanto, a história do gosto não anda a par da história da arte.

- Acha, então, que um dia Tony Carreira poderá ocupar outro patamar cultural?

- Não, não acho isso. Já estava à espera dessa pergunta. Acho que ele é um fenómeno popular de massas e até com alguns problemas de originalidade nos temas de canta. O que me interessa é a dimensão social - os três milhões de CD vendidos e milhares de fãs, sobretudo mulheres. É este lado de mitomania e loucura de massas que me interessa. Interessava qualquer pessoa.

- O que é que este tipo de fenómenos diz do País e já agora das mulheres?

- Não sei. Acho que a maioria das pessoas não é exigente com os produtos culturais que consome, se o fosse o Tony Carreira não venderia aquilo que vende. As músicas são fáceis, as letras primitivas. Estes fenómenos existem em qualquer país. O Tony Carreira ao pé dos cantores da América Latina é quase Charles Aznavour.

- Chamou à blogosfera de lixeira. Porquê?

- Referia-me aos blogues que são uma lixeira. Não estava a dizer que a blogosfera é uma lixeira. Há uma enorme quantidade de blogues em que se escreve belissimamente, onde se pensa belissimamente. Nunca imaginei que houvesse tanta gente a pensar tão bem e a escrever tão bem. Disse lixeira e referia-me aos blogues do mesquinho, do anonimato, do insulto puro e simples.

- É a blogosfera que trata de questões eminentemente políticas?

- É toda a blogosfera política, social. Sobretudo aquela que é alimentada por pessoas para quem escrever sobre si próprias, é interessante. Isso, para mim, é um dos maiores mistérios. Nem todas as pessoas são interessantes. Pelo contrário, acho que a grande maioria das pessoas são profundamente desinteressantes.

- Porque é que optou por ter uma página pessoal na Internet?

- Para armazenar textos que vou publicando. Ali não está produção nova. É uma forma de orientar quem está interessado.

- E o que são aquelas entradas com os pecados e as virtudes?

- Na altura andava a ler uns livrinhos sobre pecados mortais e escritos por filósofos. Achei piada ao conceito e ao pensar num arquivo de textos para o site, achei que talvez fosse interessante dividir os textos em pecados e virtudes.

- Na sua vida diária reflecte muito sobre pecados e virtudes?

- Não mas acho que, na minha vida diária, os pecados são imensos e as virtudes escassas.

- Uma virtude?

- A humildade, talvez a virtude que melhor me define.

- Escreveu na ‘Folha de São Paulo', a propósito do Tiger Woods, que a expiação pública de pecados privados é uma forma particularmente indigna de destruir um ser humano.

- É dos espectáculos mais penosos. Os americanos são especialistas. Há dois meses, o David Letterman [do canal de televisão CBS] aproveitou o seu programa para dizer que tinha ‘comido' não sei quem. Como se isso fosse de interesse. A pressão para que o pecador apareça em público a expiar os pecados é das coisas mais terríveis da sociedade mediática.

- O paradigma americano está presente em Portugal?

- Não, seguimos a escola francesa. Os portugueses não farejam os lençóis das figuras públicas. Aí está uma coisa admirável em Portugal, ao contrário do que, por exemplo, se passa em Inglaterra.

- Em que se inspirava quando escrevia para a ‘Maxmen' [revista masculina]?

- No que via à volta. Foi das coisas que mais prazer me deu fazer. Total liberdade de temas. Devo ter feito 100 verbetes - agora, alguns deles vão estar no livro que vou publicar no Verão e em que recupero textos dos últimos 12 anos. Para a ‘Maxmen' escrevia sobre filosofia. O leitor lia sobre Platão e duas páginas depois tinha a Marisa Cruz. É o cúmulo da sofisticação.

- E não o angustiava que a maioria dos leitores pudesse passar por cima de Platão directamente para Marisa Cruz?

- Acho que nunca aconteceu.

- Quando escrevia na Maxmen já dava aulas na Católica?

- Já, na parte final.

- Os alunos vão ter consigo e falam das crónicas?

- Os alunos chegam às aulas a pensar que estas são uma espécie de crónica ao vivo mas não é isso que apanham pela frente. Apanham matéria chata de ciência política. As aulas começam com muitos alunos e acabam com poucos.

- Como é o professor João Pereira Coutinho?

- Tento que as aulas sejam participadas. Ensino ciência politica, é um tema polémico. Se eu fosse professor de anatomia patológica não haveria discussão. Mas, dentro da universidade, eu sou professor; cronista fora dela. Nunca confundo os dois planos. Não faço opinião nas aulas. Se me pedem uma opinião, digo: bebemos café.

- Nasceu em 1976. Há uma grande diferença entre a sua geração e a daqueles que são seus alunos?

- Não creio que haja uma grande diferença. Acontece muitas vezes, sobretudo nos mestrados, que seja eu a pessoa mais nova dentro da sala. E, portanto, talvez fosse mais útil perguntar-lhes a diferença entre os professores que eles tiveram e este jovem que lhes aparece pela frente.

- Nunca teve curiosidade em saber que diferenças seriam essas?

- Não, e para citar um conhecido pensador inglês, o facto de nós conhecermos a verdade não significa que a verdade possa ser interessante. Ou que seja verdade.

- Toca piano. Qual o tema que interpretaria nas próximas Legislativas?

- Ou a marcha nupcial ou a marcha fúnebre. A marcha fúnebre para qualquer candidato com um modelo de Estado esgotado. A nupcial para quem fizesse reformas e procurasse atacar o problema de um país a viver acima daquilo que pode.

- Para si, à Direita?

- Acho que a solução possa vir da Direita. Mas como isto está, podia vir de qualquer lado.

- Frequentou a escola de cinema.

- Tinha uma visão romântica. Eu vinha de Direito e passar para o mundo do cinema deve ser a mesma experiência que um bombista suicida tem quando chega ao paraíso e encontra 72 virgens. Infelizmente, descobri que as 72 virgens já não eram virgens. E não eram, sequer, 72.

- Que cineasta faria melhor o filme do País?

- Nenhum poderia fazer justiça à qualidade romanesca da vida portuguesa. Aliás, é por isso que temos mau cinema; a nossa vida já é um filme. A grande arte sempre eliminou a redundância.

"TIVE UMA ARMA APONTADA À CABEÇA"

- Como é que os brasileiros vêem um português na ‘Folha de São Paulo'?

- Não estranham. Nas palavras do próprio director da ‘Folha', o facto de eu ter um português muito enxuto é próximo do português do Brasil.

- Qando começou a colaborar?

- Em 2005, por convite do director Octávio Frias Filho, depois deste ter lido o meu primeiro livro de crónicas, ‘Vida Independente'.

- Já foi assaltado...

- No lobby do hotel em São Paulo, uma arma apontada à cabeça. Levaram-_-me o laptop. Nenhum morto, nenhum ferido.

"ESQUERDAS TENDEM A UNIREM-SE NO FINAL [PARA AS PRESIDENCIAIS]"

- Em 2011, quem poderá estar em Belém?

- Em Belém, provavelmente, Cavaco Silva. Mas não alinho com aqueles que dizem que o actual Presidente da República vai ter um passeio até Belém. Seria avisado, ganhar à primeira volta. Se não, podemos ter uma situação como a de 1986, com um grande candidato da Direita, à época, o professor Freitas do Amaral, e a Esquerda com dois ou três nomes, então Pintassilgo, Soares Carneiro e Mário Soares. O facto do professor Freitas do Amaral não ter resolvido a eleição na primeira volta fez com que perdesse na segunda. As Esquerdas tendem a unir-se no final.

- Por essa lógica de pensamento, quem poderia ser o Mário Soares do século XXI?

Em 1986, Soares começou com 5 % e fui galopando. Neste momento, não vejo ninguém nestas condições, embora não subestime o poder de atracção de alguém como, por exemplo, Manuel Alegre. Seria um erro subestimar Manuel Alegre. Acho que tem todas as condições para ser candidato pelo PS e até congregar pessoas à Esquerda e à Direita que podem forçar a uma segunda volta. Nesse sentido, é um grande erro subestimar Manuel Alegre. A Direita - PSD e CDS - pode pagar bem caro se subestimar a candidatura de Manuel Alegre.

- E em São Bento?

- O engenheiro Sócrates. Não é de excluir que, quer com Cavaco em Belém, quer até com Alegre, o País possa estar na iminência de eleições ou porque o presidente Cavaco resolve convidar os portugueses a legitimar um novo Governo ou porque o próprio José Sócrates, no caso de ser eleito Manuel Alegre, possa interpretar essa eleição como uma espécie de oportunidade para pedir os portugueses que lhe dêem um voto de confiança, leia-se, maioria absoluta.

- Acha que José Sócrates assumiria esse risco?

- Seria um risco. A questão é que, provavelmente, com uma eleição presidencial de Esquerda, seria um risco bastante calculado. Seria uma oportunidade para, de certa forma, o actual primeiro-ministro tentar captar essas energias eleitorais e chegar a S. Bento com uma maioria absoluta. Mas, enfim, são cenários hipotéticos. Em 2011, o mais provável é que esteja tudo como dantes no quartel em Abrantes.

- Há algum período histórico que se possa assemelhar ao actual?

- Não. Nunca houve um período da nossa História em que estivéssemos a viver num regime que nenhum dos principais actores conteste. É uma situação singular. E temos problemas de confiança política, em relação ao Governo e ao primeiro-ministro e profundas desconfianças em relação ao sistema judicial. O falhanço da Justiça é, por assim dizer, o principal problema português e não tem a ver apenas com a incapacidade desta esgrimir conflitos, julgar. É um problema económico. Uma Justiça que não é eficaz e que não transmite uma imagem de confiança, é também uma Justiça que condena um povo ao empobrecimento, por falta de investimento estrangeiro. Não há ninguém que ponha aqui um tostão sabendo que a possibilidade de reaver uma dívida é demorada e, muitas vezes, arquivada. A juntar a isto, temos um ensino que não prima pela qualidade, antes pelo contrário. As sucessivas reformas fizeram-se para abater a autoridade do professor e a responsabilidade do aluno. Acho um pouco aberrante vivermos num sistema educativo em que os alunos podem, pura e simplesmente, passar sem ter nenhum mérito significativo para isso. É uma total perversão do sistema. E, finalmente, como se isto não bastasse, continuamos a ter um Estado enorme, devorador. Continuamos a ter um Estado que não só consome grande parte daquilo que produz, como também tem uma grande classe que depende desse Estado directa ou indirectamente - está bastante acima dos 6 ou até dos 7 milhões de portugueses, entre funcionários públicos, reformados, desempregados, pessoas que vivem de todo o tipo de subsídios estatais. Isto é um país que não pode ter grande futuro.

PERFIL

"Gosto de trabalhar. Gosto do trabalho bem feito. E bem pago. Mas prefiro livros e silêncios e mais livros. Demasiado anglófilo? Not really. Mas entre Joyce ou Lídia Jorge, o meu coração não balança. Não acredito em nenhuma ideologia redentora capaz de ordenar o caos que nos consome. Vamos indo e vamos vendo. Sabemos pouco. Sabemos nada. Respeito a política, a única actividade verdadeiramente nobre do ser humano. Mas desprezo os políticos. Como, aliás, o grosso da espécie humana. Somos capazes de tudo. Tudo. Auschwitz e o gulag não foram páginas singulares. O pior, como sempre, ainda está para vir. Sociedade ideal? Uma sociedade onde não exista nenhum Ideal. Isto faz de mim um conservador? Talvez. Prefiro a certeza do que tenho à incerteza do que não tenho. A perda dói. E estamos sempre a um pequeno passo de perder tudo. De resto, tento ser decente com quem devo e indecente com quem posso. Amo os meus amigos. Mais do que seria desejável. E, claro, amo-te a ti. O amor é a única coisa que resiste. Sei do que falo. Já estive várias vezes no fim da linha. Não existe rigorosamente mais nada. E continuo por cá. Vou caindo. Levanto-me sempre. Até ver. Injustiças? Quantas vezes. Magoei pessoas que não mereciam. Por estupidez ou vaidade. Nunca por vingança. Nunca por maldade. Nomes? Não temos espaço. E pedir desculpa seria um gesto obsceno. Não me desculpo. Não me justifico. Porque verdadeiramente implacável, só comigo. Talvez Deus me possa perdoar. Um dia. Quem sabe. No fundo, no fundo, eu nunca acreditei em redenções mundanas." - descreve-se numa crónica publicada a 23 de Maio de 2003, em ‘O Independente' e que integra ‘O Livro das Opiniões', a publicar no Verão e que reúne 12 anos de escritos. Doutorou-se em Teoria e Ciência Política na Universidade Católica de Lisboa, onde dá aulas. Entre outras publicações, escreve na última página do Correio da Manhã e, também, no jornal brasileiro ‘Folha de São Paulo'.

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