Culto: Representação do nascimento de Jesus através dos tempos
Menino inspira artistas
A cena da natividade, o nascimento de Jesus há 2000 anos, é das representações mais emblemáticas na arte cristã. A profundidade do acontecimento marcou e continua a marcar gerações, apesar de tantas invasões de outras figuras quer por afastamento da realidade central do Natal, quer por interesses comerciais.
Por:Padre Pedro Boto
Até à Idade Média, a cena da natividade mantém os elementos comuns. A presença de Maria, sentada com o Menino sobre os joelhos, o Menino envolto em ligaduras, a presença de José, pensativo e aparentemente apartado da cena central com gesto de apreensão. A partir da Idade Média, alguns factores irão ter influência nestas representações. A espiritualidade da época vai reflectir-se numa tendência humanizante que se começa a sentir nestas representações.
É a partir do século XIV que surgem os motivos para a representação individualizada do Menino Jesus. A cena da natividade continua presente, mas com outras pretensões. Maria adora o Menino, José é representado em adoração com aspecto ancião.
No século XV, a individualização da imagem do Menino é clara. É apresentado nu, normalmente de pé e com o globo na mão. A cruz é um elemento comum, estabelecendo um paralelismo entre a natividade e a Paixão.
No século XVI assiste-se a um enorme desenvolvimento. O Menino aparece em variadíssimas atitudes. De pé, prosseguindo os esquemas anteriores, deitado sobre a cruz ou simplesmente adormecido, sentado. Começam as produções de adereços associados ao culto individualizado do Menino Jesus. Os adereços, como as camas, as cadeiras, as vestes extraordinariamente elaboradas, tudo muito ao gosto e modas da época, irão ser uma marca até aos dias de hoje.
Ao longo dos séculos XVII e XVIII chegam até nós inúmeros e ricos exemplos destas características associadas ao culto do Menino e à expressão devocional.
A graciosidade com que as imagens do Menino são apresentadas corresponde, em muitos casos, aos desejos dos encomendadores. Em todo o caso, nos vários tempos e épocas culturais, a figuração do Menino, apela à consciência de que o Céu desce e toca a terra, toma a nossa condição, aparece segundo os nossos gostos e perspectivas para nos elevar e projectar na medida divina.
REVELAÇÃO ATRAVÉS DA IMAGEM
Desde cedo a arte cristã usou a imagem do Menino para transmitir a mensagem evangélica, mas, acima de tudo, com carácter celebrativo. A imagem associa-se à celebração da fé, à vivência dos sacramentos e à projecção, na vida dos cristãos, desses acontecimentos da revelação. A figura de Cristo, representada inicialmente através de múltiplos símbolos e variados modelos iconográficos, ganha um relevo imprescindível.
Começam a surgir representações de Cristo como Bom Pastor, Mestre, Rei, associado ao Apostolado que o rodeia. Cenas de carácter bíblico que acentuam o poder de Cristo, cenas de carácter apocalíptico que acentuam a sua divindade. O que nos chegou dos primeiros séculos atesta não uma experiência de devoção mas a experiência cristã celebrativa e vivencial dos sacramentos.