Leilão: Polémica vai prolongar-se pelos próximos meses
Bens de Pessoa vão a tribunal
Compraram os bens... e talvez uma guerra. Nos próximos dias, o Estado poderá exercer o ‘direito de preferência’ sobre os documentos de Fernando Pessoa que foram comprados anteontem num leilão polémico ocorrido no Centro Cultural de Belém. E mesmo que o Estado não o faça, a Câmara Municipal de Lisboa (CML)irá reivindicar junto dos compradores aquilo que, no dizer de Inês Pedrosa, directora da Casa Fernando Pessoa, é legitimamente seu.
Por:Ana Maria Ribeiro
"Em 1986, quando adquirimos a biblioteca pessoal completa de Pessoa, por 36 mil contos, foram- -nos entregues 1060 volumes. Agora vêm a leilão livros e revistas que integravam a biblioteca e cuja existência desconhecíamos", explicou. "Inclusivamente, apareceu a leilão a contracapa de um livro que nós temos. É inacreditável."
Um emissário da CML ainda tentou, em vão, travar a venda dos 26 lotes visados – que incluem livros, revistas e várias primeiras edições de obras do poeta – mas verificou-se que a providência cautelar que apresentou carecia de selo do tribunal.
O caso segue agora para a barra dos tribunais. "Vamos instaurar uma acção de reivindicação de propriedade, que abrange os herdeiros mas também as pessoas que compraram os livros e as revistas", diz Inês Pedrosa.
Quanto ao Estado, que também está na corrida, tem menos de uma semana para decidir se quer ou não reclamar os 50 documentos vendidos durante a sessão. Dos 70 lotes disponibilizados pelos herdeiros do artista, 19 ficaram retidos pela leiloeira, por falta de licitação. Assim não sucedeu ao lote 52, a famosa arca onde o poeta guardava os seus inéditos, que, apesar das expectativas de Inês Pedrosa, foi arrematada por um coleccionador privado que quis preservar o anonimato.
Num leilão que esteve cheio mas em que os licitadores se contavam pelos dedos, foi um francês quem, através de chamadas telefónicas, adquiriu grande parte do espólio, nomeadamente as fotografias do poeta. Documentos que, por lei, não poderão sair do País.
COMPROU ARCA PARA OFERECER AO PAI
O coleccionador que adquiriu – por 59 500 euros – a arca de Fernando Pessoa diz que a comprou para oferecê-la ao pai, pessoano convicto, ele próprio coleccionador de livros do poeta. No entanto, aceita as prerrogativas do Estado e está disposto a abdicar do cobiçado objecto. "Se o Estado quiser ficar com a arca, tê-la-á", disse ao CM. Inês Pedrosa gostaria de a ver na Casa Fernando Pessoa. "Apelo ao dono a que mostre a arca", diz. "Não está em causa a posse, evidentemente, mas seria bom partilhá-la com o público e os turistas que nos visitam. Sobretudo agora, que reconstruímos o quarto do poeta."
SAIBA MAIS
OS MAIS CAROS
Tanto a arca como as cartas a Crowley renderam 59 500 euros.
352 777,50
euros foi o que rendeu o leilão, já com IVA incluído. A leiloeira pretendia chegar aos 400 mil.
O MAIS BARATO
Uma cópia da revista ‘Ressurreição’ vendeu-se por 476 euros.