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Medrag e Violeta Dorot foram pais de Esperança

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Imigração: Saúde e nascimentos em Portugal

Mães que dizem ‘filho’ noutras línguas

O fenómeno da imigração em Portugal trouxe novos bebés. A experiência da maternidade quando não se entendem procedimentos ou a língua.

Por:Marta Martins Silva

Esperança nasceu com quatro quilos e cem gramas. ‘Que bebé tão grande’, disseram os médicos. ‘Que Esperança tão grande’, pensaram os pais. Nunca se deve subestimar a importância de um nome para quem o atribui. "Metemos o nome Esperança para ser a nossa esperança de um futuro melhor. Para ela, para toda a família".

Na Roménia, país de origem dos pais da bebé de cinco meses, esperança escreve-se ‘spera’ mas significa o mesmo tanto. Em quatro anos de Portugal, o patriarca Medrag, operário fabril na terra natal, por aqui vendedor da revista ‘Cais’, aprendeu cedo as palavras que carregam a importância maior. Violeta, a mãe, não as sabe todas. O dia-a-dia ocupa-se dos cinco filhos, da lida de uma casa onde não sobra espaço nem dinheiro ao final do mês nem, afinal, tempo para muitas palavras.

Porque Esperança não é filha única das preocupações dos pais. Naomi, Fabien, Maria e Isaac partilham-nas. Isaac também nasceu por cá – deu ainda menos tempo aos pais de aprenderem a língua do país onde aterraram convictos de uma vida melhor. "No início foi difícil, muitas coisas não conseguíamos entender, principalmente relacionadas com a saúde. Porque a comida é fácil, era chegar ao supermercado e comprar. Aliás, era mais fácil do que agora, que uma nota de dez euros não dá para nada".

Muitas vezes bateram o pé para se fazerem perceber. "Não temos médico por isso vamos ao hospital. Quando é uma constipação tratamos em casa, se tivermos dúvidas perguntamos a outros romenos e confirmamos na farmácia. Pedimos sempre para falarem devagar ou para repetirem de forma que a gente perceba. Dizemos: ‘senhor, desculpe, não sou português, pode falar mais devagar?’".

Ben-u-ron é pronunciado devagar mas faz parte da farmácia caseira deste casal, ele de 39, ela de 34 anos. Valeriana também, para esquecer as dores da alma. "Eu era um homem forte, mas tive de ir à farmácia pedir uma coisa para relaxar a cabeça", confessa Medrag.

O parto dos bebés em marquesas lusas também arrancou suspiros a Violeta. "Ela estava no quarto com senhoras portuguesas e não percebia o que elas diziam mas sorria para não a acharem mal educada. Não entendia os enfermeiros mas teve de confiar no que diziam. Só uma vez no hospital um médico falou de uma maneira má para a minha mulher e isso é discriminação. Mas foi o único".

A experiência da imigração ensinou Medrag a agarrar-se às coisas que realmente importam. "Houve um doutor muito bom que me disse uma coisa que nunca mais vou esquecer: ‘os bebés são mais importantes do que os adultos’. E eu quero que eles cresçam e sejam alguém. E que um deles seja um grande pianista como o Richard Clayderman".

O CHORO É MÚSICA DE BEBÉ

Sheila tem dois meses e a única música que até agora conhece é o seu próprio choro. Assanata "fez força três vezes" e em menos de nada o bebé cumprimentou o mundo com um gemido, explica a avó pela vez da mãe.

Em 2008 nasceram em Portugal 13 802 bebés, 13% do total em que pelo menos um dos pais era estrangeiro. Não é o caso de Sheila, filha de pai e mãe guineenses.

O fantasma dos abortos espontâneos trouxe a mãe de Sheila, Assanata, de uma junta médica da Guiné para segurar o bebé que lhe crescia no ventre. Está cá há quatro meses e o tempo é pouco para se aventurar no discurso. É a mãe, Isabel, por aqui há cinco anos, que traduz as palavras. Às consultas do médico nunca foi sozinha porque a língua não sabe o que dizer. "Eu e a minha irmã fomos com ela a todas e eu assisti ao parto. Tivemos muita sorte porque o médico era guineense. Ele elogiou-a na nossa língua, disse que era corajosa porque aguentava a dor".

Rosana (nome fictício) chegou há dois anos em "busca de uma vida melhor que a anterior". Deixou o Brasil e duas filhas de um anterior casamento. Um ano depois da aterragem recebeu dos braços de um médico português, após uma gravidez difícil, o João Pedro – que se não fossem as irmãs responderia por Lucas Gabriel.

"Actualmente só o pai do João é que está a trabalhar, em hotelaria, nos últimos meses não tenho conseguido trabalho porque o Joãozinho está na fase de ir fazer exames ao hospital. Não tem sido fácil, sinto que há diferenças por não ser daqui". João Pedro tem agora 12 meses e ri-se a cada flash disparado pela máquina. Terá sido da mãe que herdou tamanha espontaneidade. "Na maternidade fiz muitas amigas, portuguesas e brasileiras, talvez por falarmos a mesma língua".

É NORMAL SER MÃE AOS 39

Ana Maria tem um mês. Quando pela primeira vez visitar a terra natal dos pais vai escrever-se Anna, embora as diferenças entre os dois países não se esgotem na grafia. "Na Ucrânia não é normal ter filhos com a minha idade", conta Nádia Umanska, mãe de três aos 39 anos, em Portugal há sete. "E não fazem tantas ecografias. Foi muito querida pelos médicos esta gravidez, achei os exames rápidos e os conselhos bons. Sinto que fizeram um esforço para me compreenderem; quando eu não percebia pedia para explicarem por sinónimos".

Nádia é o exemplo da persistência. Na terra de origem era professora primária com formação em Inglês, por cá é "empregada de limpeza durante a semana e professora numa escola ucraniana – que ensina as tradições do país às crianças – ao sábado". Aprendeu sozinha a língua lusa. "Tinha sempre um dicionário para traduzir, fui ajudando os meus filhos mais velhos com a escola desta forma". E aprendeu bem. Tanto que, na semana seguinte ao parto de Ana – que nasceu prematura e por isso ficou internada – fez de tradutora de outra ucraniana que se encontrava na maternidade.

Para Nádia, a altura mais difícil também foi em solo hospitalar. "A bebé nasceu de 36 semanas e ficou amarela e sem força de mamar, as enfermeiras ficaram preocupadas, disseram que ela tinha de apanhar as luzes, mas ninguém me explicou o que era isso de apanhar as luzes. Foi um choque. Disseram-me que havia uma capelita, chorei lá muito". As luzes eram, afinal, a incubadora.

O contrário passou-se com a sobrinha-neta de D. Ximenes Belo. Passaram nove meses e três dias e Tatiana não dava mostras de querer sair da barriga de Celestina. Hoje tem nove meses e continua a notar-se a personalidade forte da bebé de um casal de timorenses que aterrou em Portugal há 12 anos, através da Cruz Vermelha.

"Eu tinha 23 anos quando vim. Em Portugal marido trabalha, mulher trabalha, todos trabalham. Na terra, é boa vida: marido trabalha e a gente fica em casa. Pai sustenta todos". Celestina brinca com as diferenças, mas nem sempre foi assim. "Tive muitas dificuldades, não sabia falar português nem hoje sei bem. O meu pai veio com uma trombose, a minha mãe sem saber ler nem escrever, tivemos que aprender o mais que podíamos para nos aguentarmos. Dantes, quando chegava ao hospital e eles não me ligavam por não me perceberem, criava logo problema. Na Segurança Social também. Falava até me ouvirem: os meus filhos estão na frente!"

Primeiro nasceu o Diogo, hoje com 10 anos. "O menino nasceu com um problema de estômago e os médicos agora já nos conhecem por estarmos muitas vezes no hospital. Aqui o mais difícil é que não podemos deixar os filhos sozinhos em casa, têm que ter uma pessoa a tomar conta. Lá a gente deixava com os vizinhos, ou quando havia um filho maior ele tomava conta do resto. E aqui para ter filhos tem de se ter condições: quando está doente tem de se comprar remédios, quando a roupa não serve tem de se arranjar".

Voltar para Timor "só um dia. Quero que tirem um curso, para voltarem já formados, para trabalharem lá. Nunca imaginei que ia ter dois filhos portugueses".

A mãe de Vitória também não e no entanto foi por cá que a bebé nasceu, de olho arregalado para o mundo, num país longe da Nigéria da mãe, que não tem trabalho mas tem rosto, embora prefira não se identificar. Nos braços compridos, a filha parece ainda mais pequena do que os dois quilos que tinha quando nasceu há cinco meses.

Em três anos, Júlia (nome fictício) ainda não aprendeu português, usa o inglês para se fazer entender, mas a verdade é que a incompreensão dificulta o dia-a-dia. "Não tenho trabalho, é difícil arranjar. E é difícil em todo o lado dizer aquilo que preciso", explica entre pesados silêncios.

"É duro ser mãe num país estrangeiro, embora não tenha sido mãe noutro lado". Nem será, se seguir as convicções presentes. "Não quero voltar para lá, vim para Portugal sem dizer nada a ninguém. O único problema é que a bebé adora comer e eu não tenho dinheiro, vivo na casa de uns amigos nigerianos, se não fosse o CEPAC [ver entrevista] a dar-me comida e roupa não sei como faria".

Tanto desalento não combina com o nome da menina, tão cheio de garra. "Um dia, quando estava grávida, ia a passar junto de uma janela e ouvi alguém a gritar ‘vitória, vitória’ e achei muito bonito". Não sabemos se alguém celebrava um golo no momento. Mas, mesmo que ouvido de surpresa, nunca se deve subestimar a importância de um nome. Pode significar tanto como o que anuncia.

SAÚDE EMPURROU-OS PARA CÁ

Rafael mora com a mãe e com a tia em Portugal. Nasceu há onze meses da barriga de Maria, de 34 anos, que saiu de São Tomé através de uma junta médica. As dificuldades são "muitas", como explica a tia Deolinda, com quem o Rafa também mora, e que um problema de coração trouxe para cá, à semelhança da irmã. "Se não fossem os problemas de saúde tínhamos ficado lá mas tão cedo não vamos embora. Apesar de ser difícil perceber o que dizem é melhor cá do que lá". Da família não foram as únicas que trocaram África por Portugal.

"Temos connosco mais uma irmã mas é muito difícil aguentar as saudades. Tenho lá os meus quatro filhos". O Rafael é, aqui, a única criança da casa e cabe-lhe a responsabilidade de alegrar a mãe e as tias. "Chora muito, mas quando está alegre consola-nos o coração". Das irmãs, só Deolinda ainda não arranjou emprego. "Quando for operada ao coração posso trabalhar nas limpezas, como elas, agora não tenho força".

FELICIDADE DISFARÇA FALTA DE EMPREGO

Sheila não conhece o pai. Ficou na Guiné e sobre ele as palavras que a mãe e a avó soltam são contidas. Separa-os a distância e algo mais que o silêncio pesado trai. A bebé ainda só se alimenta do "peito da mãe por isso o dinheiro que se gasta é mais com gazes e soros". Felizmente, revelam os olhos tristes da avó Isabel, porque o desemprego bateu-lhe à porta. "Graças a Deus que ainda não temos de nos preocupar com comida. E que tem sido uma menina saudável."

Lá, na terra natal, Isabel era escriturária administrativa. Assanata, hoje com 26 anos, estudava. "A minha filha também precisa de arranjar emprego aqui. Pode ser nas limpezas. Precisa e quer, apesar de ainda não falar português. Ela diz sempre que é muito difícil perceber o que as pessoas dizem mas eu digo--lhe que temos que nos adaptar porque a vida é mesmo assim".

"A NÍVEL DA POPULAÇÃO EM GERAL HÁ CASOS DE DISCRIMINAÇÃO" (Mário Silva, director do Centro Padre Alves Correia - CEPAC -, instituição que apoia os imigrantes)

- Daquilo que é a vossa experiência, quais os principais entraves à qualidade de vida – e boa integração no país de acolhimento – dos imigrantes que seguem no CEPAC?

- Problemas legais e, com eles, a burocracia exigida; pouca (ou nenhuma) formação profissional; nível escolar baixo; determinados aspectos culturais que chocam com a integração na "sociedade do salário": cumprimento de horários, cumprimento de determinadas regras e, outro exemplo, como é a vivência do luto.

- Quais as maiores dificuldades destes imigrantes?

- As maiores dificuldades são as legais: sem contrato de trabalho não há "papéis", sem "papéis" não há contrato de trabalho. Depois, as do acesso à saúde que, porque não têm descontos para a Segurança Social, pagam taxas elevadas numa consulta médica e não têm direito a medicamentos comparticipados. Para não falar dos exames complementares de diagnóstico.

- Ainda se pode falar de discriminação dos imigrantes em Portugal, não só ao nível da população em geral como num contexto mais lato, como os serviços de saúde, por exemplo?

- A nível da população em geral há casos de discriminação. Contudo, não me atrevo a afirmar que seja uma característica da sociedade portuguesa. A nível de saúde o mesmo se passa. Há funcionários que descriminam! Contudo, no que ao "não acesso" diz respeito, não! O Serviço Nacional de Saúde é um direito dos cidadãos que pagam impostos.

PERFIS

MEDRAG E VIOLETA DOROT 

São romenos. Medrag e Violeta Dorot foram pais de Esperança. Uma bebé que, desejam eles, lhes há-de mudar o rumo das suas vidas. Para melhor. Por isso investem os pais nos filhos. Com essa esperança. Medrag vende a revista ‘Cais’ para sustentar a família. Violeta ocupa-se dos cinco filhos. Esta família sobrevive em Portugal. Mas aprenderam algo que valorizam: "os bebés são mais importantes do que os adultos".

NÁDIA UMANSKA

Nádia Umanska, 39 anos, era professora primária na Ucrânia. Em Portugal foi nas limpezas que se remediou. Mas ao fim-de-semana ainda se dedica a ensinar os seus compatriotas. Também aos 39 anos deu à luz a filha Ana Maria. Nasceu às 36 semanas. A experiência no hospital foi muito sofrida, conta.

NOTAS

13 POR CENTO

Dos 13 802 bebés nascidos em 2008, 13 por cento têm pelo menos um dos pais estrangeiro.

137 POR CENTO

Em apenas uma década o número de estrangeiros residentes no País aumentou em 137 por cento.

BILHETE DE IDENTIDADE

Têm nacionalidade portuguesa os filhos de estrangeiros residentes legalmente por cá há 5 anos.

LIVRO

O livro ‘Como Cuidar do Meu Bebé’ foi traduzido para seis línguas. É grátis nas maternidades do País.

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Comentários a esta notícia
  • Comentário feito por:rm
  • 04 Janeiro 2010

Eu tambem fui mae num pais que nao e o meu.... Coragem a todas estas mulheres.

  • Comentário feito por:rm
  • 04 Janeiro 2010

Eu tambem fui mae num pais que nao e o meu.... Coragem a todas estas mulheres.

  • Comentário feito por:rm
  • 04 Janeiro 2010

Eu tambem fui mae num pais que nao e o meu.... Coragem a todas estas mulheres.

  • Comentário feito por:rm
  • 04 Janeiro 2010

Eu tambem fui mae num pais que nao e o meu.... Coragem a todas estas mulheres.

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