Entrevista - Paulo Rocha
“Sinto-me cada vez mais identificado com o Brasil”
A viver no Rio de Janeiro, o ator de 35 anos revela o segredo do sucesso, fala da sua integração e ainda das diferenças entre a ficção portuguesa e a brasileira
Por:Duarte Faria
Está a gravar a sua segunda novela brasileira, ‘Guerra dos Sexos’. Qual é o segredo do seu sucesso no Brasil?
Foi um fenómeno que aconteceu devido à primeira novela [‘Fina Estampa’]. Há muitos anos que uma novela não tinha tanto sucesso. E depois, o facto de as coisas terem funcionado bem com a Lília [Cabral], uma das minhas melhores amigas, contribuiu. O facto de eu ser novidade, junto com algumas características físicas, ajudou. E fui à boleia do produto.
Dizem que faltam galãs nas novelas. Isso ajudou?
Não concordo. Na minha geração, o Brasil está bem servido de galãs. No meu caso, o que aconteceu foi um conjunto de fatores que convergiram para tudo dar certo. Se tivesse vindo para um projeto de menor sucesso, a probabilidade de ter ficado seria menor. Não estou a desvalorizar o meu trabalho, mas na vida tudo depende de sorte e qualidade.
Qual a sua situação com a Globo?
Antes de terminar a ‘Fina Estampa’, convidaram-me para fazer um contrato de exclusividade de três anos, sendo que uma das exigências era aprender a falar português do Brasil. Não ia ficar três anos à espera que surgisse outro papel de um português. Seria idiota da minha parte e desperdício de dinheiro da Globo.
Tem sido difícil?
Não. Falo 24 horas português do Brasil e isso facilita muito. Tive de fazer bastante trabalho com uma fonóloga. Se tivermos vontade, ela faz com que as coisas funcionem.
Já se considera brasileiro?
Sinto-me muito feliz aqui e gosto muito. Mas sou português. A estranheza esfumou--se nas primeiras três semanas da ‘Fina Estampa’. Sinto-me cada vez mais identificado com o Brasil.
O que lhe chega da situação política de Portugal?
Que as coisas não estão bem. Os meus amigos dizem que a situação está devastadora.
Quantos colegas já lhe pediram oportunidades no Brasil?
Os meus colegas são educados e não fazem essas exigências. Há um ou outro que já sugeri, como o Gonçalo Portela, um talento desperdiçado. O Francisco Corte--Real tem imagem e a frescura para vingar aqui. Todos os dias digo para ele vir...
Mas já os sugeriu à Globo?
Já falei. Tentei convencê-los a vir para cá. Mas é assustador. Estamos em Portugal num cenário que não é brilhante, mas virem para cá, que é desconhecido, é mais assustador.
Foi assustador para si?
Não. Tive alguma relutância em vir, só que a convenção social fez com que viesse. Passo a explicar: seria muito idiota da minha parte, aos olhos de toda a gente, não vir.
Foi empurrado?
Não é isso. Temos de vir. Uma oportunidade destas toda a gente queria ter. Como é que teria o descaramento de dizer que não vinha porque tinha medo?
Fala de colegas brasileiros mas não do Ricardo Pereira. Qual o papel dele na sua integração?
O Ricardo tem a vida dele. Eu tenho a minha. Em Portugal, não saíamos para nos encontrarmos. Aqui aconteceu o mesmo. Até porque não sou uma criança, não preciso de babysitting. Fomos próximos mas, nos últimos anos, a vida levou cada um para o seu espaço.
Tem contacto com outros portugueses?
Não. E não tenho alma de emigrante, no sentido de andar à procura de referências...
Revela boa adaptação…
Para mim, é importante. Gosto de sentir que tenho a capacidade de me adaptar sozinho.
Os brasileiros são melhores a fazer ficção?
Têm mais recursos em termos logísticos. Em termos artísticos, é tão bom em Portugal como no Brasil. E não estou a dar uma resposta politicamente correta... os dramas são os mesmos, as pessoas comportam-se de forma igual.
Mas a qualidade do produto final é diferente.
Tem mais a ver com os meios e conhecimento do que com a qualidade das pessoas.
Mas depois falta o resto: autores, iluminadores…
A estrutura é diferente. A máquina está muito mais oleada. A maior parte dos autores de novela portugueses são relativamente jovens. É uma indústria que está a começar agora.
Tem convites de Portugal?
Quando terminei a primeira novela no Brasil, a TVI ligou-me e fez-me dois convites. Acabou por não se proporcionar. Depois, fechei a porta. Tinha de me concentrar aqui.
Gostava de voltar a trabalhar em Portugal?
Gostava de voltar a fazer uma novela portuguesa.
Com outras exigências de cachet, protagonismo…
Sim. Mas acho que hoje em dia as novelas brasileiras não têm impacto em Portugal.
‘Avenida Brasil’ e ‘Fina Estampa’ lideram.
Talvez a culpa seja nossa. Minha e do Ricardo.
Há muita comparação entre vocês?
No início houve muita tentativa de associação, de fazer coisas juntos. Achei que não seria bom para nós.
Daí se terem afastado…
Não foi termo-nos afastado. O Ricardo estava a trabalhar e eu estava a trabalhar, depois ele foi para Portugal e está lá há imenso tempo. Aqui no Brasil, o Ricardo vive perto de mim. Encontramo-nos para ver o Benfica, a paixão que nos une.
Nunca se deslumbrou?
Já passei por quase todas as situações possíveis. Desde estar a fazer grandes novelas e fazer dinheiro com presenças como, no ano seguinte, ficar sem forma de pagar a renda. Acho difícil deixar-me deslumbrar.
PERFIL
Viagem entre continentes Nasceu em Setúbal a 27 de maio de 1977. Estreou-se na novela ‘A Senhora das Águas’ (2001). Desde então, integrou o elenco de séries e novelas da SIC e TVI. Em 2011, partiu para o Brasil a convite do autor Aguinaldo Silva.