
Alergia: Afecta 30% dos idosos e se ignorada pode provocar asma
A doença que se confunde com a gripe
Nariz tapado, comichão, espirros e corrimento nasal são os sintomas mais comuns da rinite alérgica, uma doença que afecta cerca de 30 por cento dos portugueses com mais de 65 anos. No entanto, a maioria, por confundir os sintomas com os da gripe sazonal, não diagnostica ou trata a patologia convenientemente."São indícios muitas vezes ignorados ou desvalorizados por parte dos idosos ou mesmo por profissionais de saúde", alerta Mário Morais de Almeida, presidente da Sociedade Portuguesa de Alergologia e Imunologia Clínica (SPAIC). "Isso pode levar ao agravamento da doença e ao aparecimento de asma", acrescenta o especialista, admitindo que existe ainda pouca informação sobre rinite nos idosos.
Sabe-se contudo que entre a população sénior o organismo passa por alterações de ordem estrutural, hormonal, neurológica, imunológica e mesmo olfactiva. Estas alterações tornam os idosos mais predispostos a desenvolver patologias alérgicas. Por isso, o agravamento da doença, especialmente entre a população mais velha, tem tendência a resultar no aparecimento de asma. A doença que já afecta 11 por cento dos idosos.
Os dados resultam de um estudo inédito a nível nacional e internacional feito pela SPAIC. Para Mário Morais de Almeida, o assunto é sério, pois "o impacto dos sintomas de rinite alérgica reduz a qualidade de vida em cerca de 40 por cento".
De todos os sintomas, o que acarreta maiores consequências para a saúde é a obstrução nasal. Por obrigar a respirar pela boca, este problema causa perturbações no sono, estados de fadiga, tosse e irritabilidade brônquica.
Estima-se que um quarto da população portuguesa (aproximadamente dois milhões e meio de pessoas) sofra de rinite alérgica. No entanto, apenas 930 mil casos, entre crianças, jovens, adultos e idosos, estão diagnosticados.
SEXO FEMININO É MAIS AFECTADO
A patologia surge maioritariamente nas mulheres, e em Portugal o Alentejo é a zona onde mais se verifica a doença, por oposição ao Algarve, região onde existe uma menor prevalência da rinite alérgica.
Os doentes afectados pela patologia sentem-se frequentemente constipados. Principalmente na Primavera, mas também no resto do ano. Só o Verão tende a ser favorável para quem sofre de rinite alérgica.
O cansaço constante leva muitas vezes o doente a nem conseguir sair da cama, e mesmo as tarefas e rotinas mais básicas são evitadas por medo de eventuais recaídas.
PORMENORES
LIGAÇÃO
Estudos recentes revelam que a asma aparece três vezes mais nos indivíduos com rinite do que naqueles que nunca tiveram problemas nasais.
VARIAÇÃO
A rinite pode ser intermitente ou persistente, variando depois entre ligeira, moderada ou grave. 42% dos casos deste estudo têm rinite alérgica intermitente e 52% persistente. Neste estudo, os idosos com rinite persistente demonstraram estar mais propensos a desenvolver asma.
CONFUSÃO
A confusão dos sintomas da rinite com patologias gripais é comum entre idosos e mesmo entre alguns profissionais de saúde. Isto pode fazer a doença evoluir para quadro grave de asma.
O MEU CASO: ANTERO D'EÇA
PRIMEIRA CRISE LEVOU-O A TRATAR-SE
Aos 71 anos a idade já não permite a Antero D’Eça lembrar-se com exactidão de quando foi a primeira vez que sentiu o impacto dos sintomas de rinite alérgica. "Foi mais ou menos quando tinha 15 anos, em África. Lembro-me que a poeira e o calor me faziam mesmo muito mal", recorda.
Apesar disso, desde essa altura vários anos passaram sem que Antero valorizasse ou tratasse a doença apropriadamente. Até que na década de sessenta, já em Portugal, sentiu a primeira grande crise de rinite alérgica e não pôde mais continuar a ignorar a sua doença.
"Trabalhava como topógrafo, no campo, e quando me aproximei de uns fenos os meus olhos e o nariz pingaram tanto que nem conseguia tirar um lenço, com a aflição", recorda o idoso, actualmente a viver em Faro.
Hoje em dia, tal como acontece a muitas outras pessoas afectadas por esta patologia, qualquer aproximação a pólens é problemática para Antero D’Eça. "Por exemplo, se me aproximo de zonas muito floridas fico logo com uma cortina de água nos olhos", descreve. Uma situação que o afecta principalmente no tempo seco.
Actualmente, já faz um tratamento médico indicado e desta forma consegue controlar a rinite. Com vacinas antialérgicas garante conseguir levar uma vida normal, como se não sofresse da patologia. Contudo, quando se esquece de tomar as vacinas, tudo regressa. Admite que tem recaídas e que fica "quase inválido", dado o impacto dos sintomas.
"Toda e qualquer hipótese de bem-estar acaba logo, passo noites inteiras sem dormir, por não conseguir respirar bem", conta Antero D’Eça. Os dias não são melhores. Ficam "desfeitos, sem me conseguir concentrar nas tarefas mais básicas", lamenta o idoso.
De entre todas as épocas do ano, Antero D’Eça destaca a Primavera como a estação do ano mais crítica para quem sofre da doença. É nessa altura que há mais pólens a circular no ar e que as alergias se tornam mais intensas para os que sofrem de rinite alérgica.
PERFIL
Antero D’Eça, casado, 71 anos, começou a sentir os sintomas aos 15 anos, em África. Piorou na década de 60, já em Portugal. Hoje consegue levar uma vida normal tratando-se com vacinas antialérgicas.
DISCURSO DIRECTO
"ALERGIAS SÃO PARA TODA A VIDA": Mário MORAIS DE ALMEIDA, Presidente da SPAIC
Correio da Manhã – Porquê umestudo sobre rinite em idosos?
Mário Morais de Almeida – Não há muito conhecimento sobre as manifestações da rinite alérgica nos idosos, daí a SPAIC ter desenvolvido o estudo ARPA Sénior.
– Os sintomas da rinite são mais intensos junto dos idosos?
– A população idosa passa por transformações fisiológicas importantes ao nível dos tecidos das vias respiratórias, o que os torna susceptíveis a desenvolverem rinites crónicase, consequentemente, asma.
– E de onde vem a dificuldadede diagnóstico e tratamento?
– As alergias surgem na infânciae continuam por toda a vida. Grande parte das pessoas ignora os sintomas, comparando-o a constipações, E as medidas de prevenção e atenuação desses sintomas devem ser aplicadas o mais cedo possível.
NOTAS
MEDIDAS PREVENTIVAS
Não fumar, abolir cortinase tapetes, aspirar frequentemente o colchão, evitar áreas de elevada polinização.
PERIGO PARA IDOSOS
Nos idosos, o organismo passa por alterações que os tornam mais predispostos a desenvolver patologias alérgicas.
CAUSAS DA DOENÇA
Pó da casa e pólen (62%), mudanças de temperatura, humidade e ar condicionado (51%), fumos (47%), odores (39%).
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