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Carlos de Abreu Amorim, Jurista
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14 Outubro 2009 - 18h04

Opinião

Solidão

Foi na terça-feira, em Paris. O corpo de um cidadão português foi descoberto na sua casa, dois anos depois da sua morte, aparentemente devida a causas naturais. Ninguém havia dado conta da sua desaparição: nem familiares, nem amigos, nem conhecidos, nem vizinhos. Pelos vistos, não fazia falta a ninguém. Nem a si próprio.

A tragédia que resulta desta imensa solidão é um retrato, em alto contraste, do mundo em que vivemos. Quantas pessoas estarão hoje assim, perdidas em moradas isoladas, sem contactos nem interesses, num país que, apesar de tudo, lhes continua a ser estranho, cortadas de uma sociedade da qual, de facto, estão excluídas?

Este é um outro lado da emigração de que não se fala, das muitas pessoas que talvez não tenham conseguido um bem-estar material que lhes dê o orgulho e a vontade de manter uma relação regular com a terra natal, de levar aos familiares em Portugal as histórias da sua vida em França, de fazer visitas a velhos amigos e conhecidos, de charlar pelas mesas dos cafés, no contentamento dos Verões nas suas terreolas. São os perdedores da nossa eterna aventura exterior, alguns marcados por crises afectivas que lhes condicionam o futuro. Um dia, sabe-se lá quando!, começaram a fechar-se em si mesmos, a ponto de já não terem vontade de viver o mundo exterior. Quantos haverá, entre o mais de meio milhão de portugueses que por aqui vivem?

Há meses, encontrei, numa rua de Paris, um 'sem-abrigo' beirão. Falei com ele, ofereci-lhe apoio, a minha disponibilidade para o ajudar a regressar à sua terra. Não quer nada. Nem de mim, nem de Portugal. Quer que o deixem na paz que construiu. Não porque partilhe a propalada filosofia libertária dos 'clochards' parisienses, que alimenta mitologias intelectuais e dá cenário a algum confortável turismo fotográfico. Vim a apurar que os traumas da vida deste homem acabaram com a sua vontade de sair da rotina de miséria em que se enredou, hoje apenas aquecida sobre uma grade por onde passa o ar quente do metro.

O meu amigo Manuel Freire, num poema de há muito, cantava essa geração da coragem: 'Virão um dia, ricos ou não'. E, no final, acrescentava: 'ou não!'. É o que acontece a muitos e que hoje nos dá a imensa tristeza criada por este caso.




Francisco Seixas da Costa, Embaixador de Portugal em França
» COMENTÁRIOS
15 Outubro 2009 - 10h37  | Jose Alvares
Felizmente que ainda ha um Embai-xador que se preocupa com a situa-cao dos Portugueses.Muito bem haja!
15 Outubro 2009 - 09h14  | manuel silva
Em Macau também há casos destes com portugueses a viver em pobreza e a Casa de Portugal e consulado sabem... Triste !
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