Federer e Davydenko, em 2008, no Estoril OpenTénis: Finais ATP em Londres
Patinho Feio depena Cisne Federer
A final do torneio dos mestres é jogada por Juan Martin del Potro e Nikolay Davydenko – que, num duelo entre o ‘príncipe’ e o ‘pobre, quebrou uma malapata de 12 derrotas consecutivas diante de Roger Federer.A 40ª edição do torneio de encerramento de época no circuito profissional masculino – também apelidado de Masters, ATP Championships, Masters Cup e actualmente ATP World Tour Finals – tem o seu epílogo neste domingo, com o argentino número cinco mundial Juan Martin del Potro a medir forças com o russo sétimo classificado Nikolay Davydenko a partir das 14h15. No mano-a-mano, o jogador de Leste lidera com dois triunfos em três encontros face ao sul-americano.
Não é a final de sonho que se aguardava para um cenário fabuloso como a Arena O2 de Londres, mas num evento que reuniu a nata do ténis mundial não há finalistas usurpados. Entre os principais candidatos, os números 2 (Rafael Nadal), 3 (Novak Djokovic) e 4 (Andy Murray) não sobreviveram à fase de grupos. Del Potro qualificou-se quase milagrosamente para as meias-finais (foi preciso recorrer a uma contabilidade intrincada para estabelecer o desempate com Murray no Grupo A) e fez valer a custo o seu estatuto diante do sueco Robin Soderling (repescado para substituir o lesionado Andy Roddick), enquanto Davydenko bateu finalmente o seu carrasco Roger Federer na primeira semifinal e teve de adiar a sua partida para as Maldivas…
BOMBARDEAMENTO NAS ALTURAS
Na segunda meia-final, o argentino Juan Martin del Potro (1m98) e o sueco Robin Soderling (1m93) discutiram uma equilibrada contenda entre possantes colossos que anteciparam o ténis portentoso da segunda década do século XXI.
Como seria de esperar, o confronto foi caracterizado sobretudo por bélicas trocas de bola – torpedos no serviço, mísseis de direita, bazucas de esquerda. Del Potro esteve mal no tie-break que decidiu a equilibrada primeira partida e Soderling teve um mau jogo de serviço que permitiu ao adversário fazer o break na fase terminal do segundo set e empatar o encontro. Na terceira e decisiva partida, o viking logrou uma quebra de serviço e conseguiu uma vantagem de 4-2 que augurava a sua qualificação para a final – mas, como tantas vezes acontece, a seguir a um break vem o contra-break. O embate prosseguiu depois equilibrado.
O único sueco no top 100 e solitário herdeiro de uma linhagem de campeões (Bjorn Borg, Mats Wilander e Stefan Edberg foram número um, para além de todos os outros que povoaram o top 10 na década de 80 e 90) não conseguiu colocar pressão suficiente sobre o longílineo jogador das Pampas quando teve vantagens de 5-4 e 6-5 – Juan Martin del Potro serviu bem nesses momentos críticos e depois acabou por se impor no tie-break que definiu tudo: chegou aos 4-0, Soderling reduziu para 4-2 mas o argentino fechou com 7-3 graças ao seu 12º ás do encontro. Já passava das 11 da noite.
Só surgiu na conferência de imprensa depois da meia-noite e teve menos tempo para recuperar, mas Del Potro – que, ao vencer o Open dos Estados Unidos numa final em cinco sets diante de Roger Federer se tornou no mais alto campeão de sempre de um torneio do Grand Slam – se ganhar a final passa do quinto para o quarto lugar da hierarquia, por troca com Andy Murray. Quanto a Nikolay Davydenko, passa mais um dia na fria e chuvosa Londres em vez de estar a caminho de um arquipélago quente e ensolarado: “Pensei que fosse perder mais uma vez com o Federer e que no dia seguinte estaria a caminho das Maldivas”, confessou humoristicamente o campeão do Estoril Open de 2003. Em vez disso, discute o quinto mais importante título da modalidade – porque ninguém ganha a Nikolay Davydenko 13 vezes de afilada!
A FRASE MAIS FAMOSA
Há uma frase famosa no mundo do ténis, proferida pelo malogrado norte-americano Vitas Gerulaitis na edição do Masters de 1979 após derrotar finalmente o seu compatriota Jimmy Connors depois de 16 desaires consecutivos: «Ninguém ganha a Vitas Gerulaitis 17 vezes seguidas», disse então. Essa tirada é a frase mais repetida no universo tenístico consoante as circunstâncias e pelos mais diversos jogadores, desde Natasha Zvereva (que derrotou Steffi Graf à 20ª tentativa) ao sueco Robin Soderling na cerimónia da entrega de prémios de Roland Garros após ter perdido com Roger Federer pela 10º vez consecutiva.
Exactamente 30 anos depois da tirada original de Vitas Gerulaitis e na 40ª edição do mesmo torneio, Nikolay Davydenko conseguiu finalmente “matar” a sua besta negra Roger Federer e pode clamar bem alto: “NINGUÉM BATE NIKOLAY DAVYDENKO 13 VEZES CONSECUTIVAS”.
Depois de ter desistido (problemas dorsais) na final do Estoril Open de 2008 na anterior ocasião em que se defrontaram (a 12ª), o russo logrou o seu primeiro triunfo sobre o campeoníssimo suíço por 6-2, 4-6 e 7-5 ao cabo de 1h55 de jogo – ficando depois a saborear no sofá e pela televisão o desgaste dos protagonistas da segunda meia-final que determinaria o seu adversário na final.
SHARAPOVA FICOU COM TUDO
Com a sua aparência discreta e enganadora falta de carisma (na verdade apresenta uma personalidade muito divertida), Davydenko é o jogador do top 10 que menos patrocínios tem – recebe uns trocos por usar uma obscura marca de vestuário francesa (a Airness) e sapatos Asics, mas não recebe nada por jogar com as raquetas que escolheu. “A Prince gasta todo o dinheiro de patrocínios com a Sharapova”, brinca, esclarecendo depois: “talvez encontrasse patrocínio junto de outras marcas, o problema é que quero jogar com este modelo”. E acrescentou: “Para mim, o mais importante não é o dinheiro, é eu jogar com as raquetas de que gosto”.
O multimilionário Roger Federer, que factura cerca de 25 milhões de euros anuais de patrocínios e tem um contrato com a Wilson para o resto da vida, teve a oportunidade quando liderou por 5-4 e 0-30 no serviço do adversário logo a seguir a um ponto genial (um mash em passing-shot que surpreendeu o russo à rede), mas Davydenko esconjurou galhardamente o perigo, fez o break logo a seguir e depois quebrou a malapata com um bom jogo de serviço final. Para ele, o 13 foi número de sorte; para Federer foi de azar.
O suíço perdeu o primeiro set do encontro pela quarta vez no torneio. “Tentei fazer tudo para começar bem, mas não consegui pôr o meu serviço a funcionar no primeiro set ao longo da semana – ainda por cima aqui só jogamos contra adversários de topo”. E elogiou o adversário: “Tenho muito respeito pelo Davydenko. Teve uns últimos anos muito difíceis, sobretudo quando teve aquela nuvem de suspeição sobre a sua cabeça (NDR: devido às insinuações dos encontros viciados e a consequente investigação que o ilibou) e não foi justo ter de enfrentar frequentemente as mesmas perguntas estúpidas sobre o assunto, mas ele lidou muito bem com a situação. Respeito-o por isso e pelo jogador que é, desejo-lhe o melhor para a final”.
“NÃO DURMO COM QUATRO MULHERES”
O próprio Davydenko abordou o delicado tema: “Foi surpreendente como continuei a fazer bons resultados nessa altura. A coisa não me saia da cabeça, estava continuamente sob pressão por parte da imprensa em todos os torneios – só queria parar de jogar durante alguns meses para não ter de responder. Mas tenho uma família que me apoia e que me ajudou a concentrar no ténis». Sobre o modo como conseguiu finalmente ganhar a Federer, afirmou sucintamente no seu inglês algo macarrónico: «Fiz mais uns vóleis, uns bons serviços… e uma boas respostas para ganhar 7-5 no terceiro set».
Mas o ponto alto da conferência de imprensa surgiu quando estava a comentar o facto de que, por ter acabado depois das 23 horas o embate da véspera que ganhou a Robin Soderling (o último da fase de grupos que determinou a sua qualificação, e também a do sueco, para as meias-finais), só conseguiu adormecer por volta das 3 da manhã. “Vim à conferência de imprensa e depois tive uma sessão de massagem de hora e meia. Só dormi sete horas…”. Foi então que o italiano Gianni Clerici, um decano do jornalismo especializado, disparou: «Dormiste sozinho?». No meio da galhofa geral, Davydenko disparou: «Vá lá, eu tenho mulher! Vocês queriam o quê, que eu dormisse com duas, três, quatro raparigas?». Gianni Clerici: «És russo…». Davydenko: «Pois, sou russo – mas não sou o Safin!». Gargalhada geral.
GÉMEOS APONTAM PARA NÚMERO UM
Tal como Del Potro pode ascender do quinto ao quarto lugar em caso de triunfo, também na variante de pares a dupla dos gémeos norte-americanos Bob e Mike Bryan tem uma motivação extra relacionada com o ranking na final diante do duo constituído pelo bielorusso Max Mirnyi e pelo israelita Andy Ram (agendada para as 12h30): é que, se conseguirem o título, encerraram a temporada como a dupla número um mundial – desalojando da liderança a formação composta pelo canadiano Daniel Nestor e pelo sérvio Nenad Zimonjic, que se quedou pela fase de grupos.
RESULTADOS
MEIAS-FINAIS
singulares
Nikolay Davydenko (Rus, nº7) v. Roger Federer (Sui, nº1), 6-2, 4-6, 7-5
Juan Martin del Potro (Arg, nº5) v. Robin Soderling (Sue, nº9), 6-7(1/7), 6-3, 7-6(7/3)
Pares
B. Bryan/M. Bryan (EUA, nº2) v. M. Bhupathi/M. Knowles (
M. Mirnyi/A. Ram (Bie/Isr, nº7) v. F. Cermak/M. Mertinak (Che/Elq, nº6), 6-4, 7-6
FASE DE GRUPOS
6ª JORNADA – SEXTA-FEIRA, 27 NOVEMBRO
Grupo B
Novak Djokovic (Ser, nº3) v. Rafael Nadal (Esp, nº2), 7-6, 6-3
Nikolay Davydenko (Rus,nº7) v. Robin Soderling (Sue, nº9), 7-6, 4-6, 6-3
5ª JORNADA – QUINTA-FEIRA, 26 NOVEMBRO
Grupo A
Andy Murray (GBR, nº4) v. Fernando Verdasco (Esp, nº8), 6-4, 6-7, 7-6
Juan Martin del Potro (Arg, nº5)-Roger Federer (Sui, nº1), 6-2, 6-7, 6-3
4ª JORNADA – QUARTA-FEIRA, 25 NOVEMBRO
Grupo B
Robin Soderling (Sue, nº9) v. Novak Djokovic (Ser, nº3), 7-6, 6-1
Nikolay Davydenko (Rus,nº7) v. Rafael Nadal (Esp, nº2), 6-1, 7-6
3ª JORNADA – TERÇA-FEIRA, 24 NOVEMBRO
Grupo A
Roger Federer (Sui, nº1) v. Andy Murray (GBR, nº4), 3-6, 6-3 e 6-1
Juan Martin del Potro (Arg, nº5) v. Fernando Verdasco (Esp, nº8), 6-4, 3-6, 7-6
2ª JORNADA – SEGUNDA-FEIRA, 23 NOVEMBRO
Grupo B
Robin Soderling (Sue, nº9) v. Rafael Nadal (Esp, nº2), 6-4, 6-4
Novak Djokovic (Ser, nº3) v. Nikolay Davydenko (Rus, nº7), 3-6, 6-4, 7-5
1ª JORNADA – DOMINGO, 22 NOVEMBRO
Grupo A
Andy Murray (GBR, nº4) v. Juan Martin del Potro (Arg, nº5), 6-3, 3-6, 6-2
Roger Federer (Sui, nº1) v. Fernando Verdasco (Esp, nº8), 4-6, 7-5, 6-1
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