Cardeal Patriarca recusa comentar aprovação em Conselho de Ministros de união homossexual
D. José não fala de casamentos gay
O Cardeal Patriarca de Lisboa, D. José Policarpo, escusou-se esta manhã a comentar a aprovação do casamento civil entre homossexuais em Conselho de Ministros, na passada quinta-feira. Questionado pelos jornalistas, durante uma visita à Comunidade Vida e Paz (CVP), o responsável máximo da igreja católica portuguesa reagiu de forma algo rude. "Não lhe respondo, homem, ainda não percebeu que não lhe respondo", disse, dirigindo-se ao repórter que o questionara.
Por:Bernardo Esteves
Recorde-se que no domingo a igreja católica manifestou a sua oposição ao casamento entre homossexuais e defendeu a realização de um referendo pela voz de D. Jorge Ortiga,arcebispo de Braga e presidente da Conferência Episcopal Portuguesa. "O assunto está a passar ao lado das pessoas e a ser decidido pelos políticos. Um referendo, como oportunidade para a reflexão, seria bem-vindo. A igreja é contra a legalização deste tipo de uniões", afirmou o prelado bracarense, quebrando um alegado pacto de silêncio que teria sido estabelecido entre José Sócrates e D. José Policarpo, segundo foi noticiado.
Na visita ao centro da CVP de Sapataria, Sobral de Monte Agraço, o Cardeal Patriarca de Lisboa pôde conhecer de perto algumas das cerca de 70 pessoas que ali vivem. A CVP está "vocacionada para retirar da rua e recuperar alcoólicos e toxicodependentes", explicou o padre Carlos Azevedo, garantindo que a taxa de sucesso dos tratamentos é de "72 por cento".
Propriedade do Patriarcado de Lisboa, a CVP, que está a comemorar 20 anos de existência, vive também de comparticipações estatais e doações. Nos seus três centros (Sapataria, Fátima e Venda do Pinheiro) acolhe cerca de 300 pessoas e ocupa 120 profissionais, muitos deles antigos residentes. Tudo começa nas equipas de noite formadas por 500 voluntários, que apoiam os sem-abrigo e tentam convencê-los a deixar a rua. Ficam nos centros cerca de um ano a recuperar, recebem formação em áreas como carpintaria, olaria ou agricultura e são depois reintegrados na sociedade passando, pelos apartamentos da CVP.
"Se não tivesse vindo para aqui já não estava vivo. Foi Deus que me acendeu uma luz", diz ao CM José Salvado, de 47 anos, que entrou no centro em 2005 após 30 anos de alcoolismo. Hoje, está recuperado, ajuda no centro como voluntário e partilha um apartamento em Sapataria com outro antigo residente. "Estou reformado por invalidez com duzentos e poucos euros", disse. Confessando ter "veia poética", José remata a conversa assim: "Às vezes, é preciso morrer para renascer".