Foto António Araújo/Lusa
Tal como os vizinhos, cerca de dez famílias, estão agora abrigados na Casa do Povo de Faial da Terra, para onde foram levados às duas da madrugada
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14.03.2013  18:31
“Monstro de lama” destruiu tudo em segundos

Deviam faltar cinco minutos para a meia-noite quando João Silva, 47 anos e habitante no Faial da Terra, nos Açores, ouviu um vento estranhamente forte: "Foi como um sopro, em segundos estava tudo destruído."

João Silva, a mulher Noémia, a filha Gabriela e a neta de quase dois anos são uma das famílias que vivia numa das três casas afetadas esta quinta-feira por um deslizamento de terra no lugar de Burguete, freguesia do Faial da Terra, concelho da Povoação, ilha de S. Miguel.

Foram eles os quatro que conseguiram escapar pelos próprios meios, saindo por uma janela, "ao monstro de lama", como lhe chama Noémia, que lhes rebentou portas e vidros e lhes entrou pela casa adentro.

Tal como os vizinhos, cerca de dez famílias, estão agora abrigados na Casa do Povo de Faial da Terra, para onde foram levados às duas da madrugada.

Ainda não sabem quanto tempo vão ficar. A casa onde viviam, alugada ao Governo Regional, diz Noémia, ficava mesmo na base de uma enorme encosta cheia de árvores que, durante a noite, deslizou, lançando lama, pedras e árvores em cima de três habitações.

Morreram três vizinhos de João e Noémia: dois irmãos, na casa dos 30 anos, que viviam na casa que ficou totalmente soterrada e um homem de cerca de 50 anos que vivia com a mulher e três filhas numa habitação que está agora parcialmente destruída.

O homem, contam os vizinhos que assistem aos trabalhos dos bombeiros no meio dos escombros, sob uma chuva contínua e forte, estava deitado na cama abraçado à filha de cinco anos que, apesar de coberta de lama e de ter já "ramos e terra na boca", estava viva.

Em casa estavam ainda mais duas meninas de oito e 16 anos e a mãe: todas saíram ilesas, tendo sido retiradas de casa pelos bombeiros e pelos moradores, contam.



Roberto Santos, 38 anos, vive um pouco mais abaixo, no centro da freguesia, a 300 metros do local do deslizamento, a onde chegou "à meia-noite e cinco", depois de ter ouvido perfeitamente o "trambolhão". Os dois irmãos que morreram eram seus primos, um deles "não tinha uma perna".

Olha para as casas destruídas e lembra-se de "um filme de terror", mas já sabe que quando há uma derrocada assim, depois de dias a fio de muita chuva, "arranca tudo, não há perdão".

As casas destruídas, apesar de terem "cem anos", segundo o presidente da Câmara da Povoação, Carlos Ávila, estavam recuperadas. A causa do deslizamento, disse à Lusa, foi a "enorme quantidade de chuva" que caiu nos Açores nos últimos dias.

Por outro lado, "a zona é propícia a isso", por ser "muito montanhosa" e a infiltração da chuva originar estes "movimentos de vertente". Mas há quem diga que nem sempre foi assim. Álvaro Tavares, padrinho de um dos irmãos que morreu, chegou ao local com o nascer do dia e lembra que na freguesia do Faial da Terra já viveram 2.000 pessoas, estando hoje a população reduzida a 200.

Nesses tempos, antes da emigração massiva, todas aquelas encostas estavam cultivadas com vinha, diz, e os terrenos eram menos movediços.

Depois, com o abandono dos campos, o mato e as árvores tomaram conta de toda a zona. Enquanto os homens observam os trabalhos dos bombeiros, as mulheres preferem o abrigo da Casa do Povo.

Entre conversas, lágrimas e também já alguns sorrisos, vão ouvindo Noémia contar que esta é a segunda derrocada que lhe atinge uma casa e sempre sobreviveu. Acredita que acontecerá o mesmo quando vier a terceira.
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