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04.02.2007  00:00
Palavras para quê? É um artista português
Começou a ser fabricada para os bochechos dos sifilíticos, quando a doença era uma epidemia. A receita pegou e mudaria o destino de uma farmácia da Baixa do Porto. “Dentes como estes...”
A primeira máquina de pôr as tampas nas bisnagas e fechá-las fazia enorme barulho no andar superior da Farmácia Couto, no Largo de São Domingos, no Porto. Em 1935, a industrialização chegou ali pequena e barulhenta, com som semelhante ao de um tiro de pistola de ar comprimido por cada tampa atarraxada. A Pasta Medicinal Couto levava já dois anos. O farmacêutico Alberto Ferreira do Couto mandara distribuir pelos meninos da Ribeira amostras; que eles levassem às famílias a fórmula que pretendia substituir o clorato de potássio nos bochechos dos sifilíticos. “A doença então na moda, a sífilis, atacava os dentes”, conta Alberto Gomes da Silva, o último herdeiro do negócio do senhor Couto.
A pasta medicinal do logótipo preto em formato de hexágono achatado surgiu ancorada numa doença sexualmente transmissível, que atacava o corpo e varria a boca de dentes. Alberto Ferreira do Couto, homem “simpático e empreendedor”, como dele diz o sobrinho Alberto, aceitou conselho de um dentista e criou uma fórmula “assente nas mesmas substâncias que se utilizavam para os bochechos.” A ver se pegava. Pegou. Logo em 1933, um ano depois de ser lançada, passa a ser vendida em todo o País. A concorrência é nenhuma, só existe uma pasta de nome improvável, a Couraça criada numa drogaria de Lisboa por um transmontano, Manuel Benigno Benedito Teixeira.
Dois anos depois de estar no mercado, as mãos dos empregados que fabricam a pasta deixam de dar vazão à meticulosa empreitada, a de encher bisnagas à espátula. “Num almofariz fazia-se a mistura como se fazia com o resto das coisas fabricadas na farmácia, pílulas, hóstias ou supositórios, e com uma espatulazinha metia-se dentro de uma bisnaga de chumbo, e pronto. Depois o meu tio comprou uma máquina em Espanha, com um depósito para 15 quilos de pasta e passou a encher-se bisnagas a um ritmo meio industrial”, conta Alberto Gomes da Silva sobre o tio, sujeito de ideias largas por ter emigrado para terra desempoeirada à vista do Porto da altura. No Brasil tinha aprendido o ofício de farmacêutico.
Quando a receita medicinal da pasta pegou nas vendas e migrou pelo País, Alberto Ferreira do Couto manda fazer uma placa de chumbo gravada com uma interrogação que perdurou no ouvido português. “Palavras para quê?” E rematava: “Dentes como estes só com Pasta Medicinal Couto” O slogan publicitário mandado ‘carimbar’ nos jornais sai da cabeça do Sr. Couto, bem como todas as manobras de marketing e publicidade da pasta e dos produtos que se lhe seguem. Diz o sobrinho Alberto: “Suponho que fomos um dos pioneiros na publicidade em Portugal e nessas coisas do género porque as multinacionais só chegaram lá para os anos 50. Era tudo da cabeça do meu tio. As frases. Tudo.”
Quando chega a Portugal, aos 22 anos, vindo do Brasil, Alberto Ferreira do Couto faz-se sócio da Farmácia Higiénica, no Largo de São Domingos. Quando o sócio original desiste da sociedade, a Higiénica vira Couto. À pasta medicinal, seguem-se ao longo dos anos o Deotak (um desodorizante espanhol comprado pelo farmacêutico português), as vaselinas, o petróleo e o restaurador Olex.
Para um país que então se estende além-mar até África, Alberto Couto magica frases para fazer vender os seus produtos, agora até na TV. Para o restaurador: “Um preto de cabeleira loura ou um branco de carapinha não é natural. O que é natural e fica bem é cada um usar o cabelo com que nasceu!” Para a pasta medicinal, num filme sem grande produção dança um moçambicano com uma cadeira nos dentes: “Palavras para quê? É um artista português.”
Alberto Gomes da Silva entra na empresa pelos escritórios na euforia dos anos 50. Tinha 17 anos, não tinha querido tirar farmácia. O pai manda-o trabalhar para a empresa do cunhado, a Couto. “Na altura era uma sociedade, o meu tio e a minha tia. Quer dizer, a minha tia era só de nome porque a bem da verdade ela só estava em casa. Não riscava nada.” O sobrinho Alberto lembra--se da expansão da farmácia, pelos andares acima do prédio do Largo de São Domingos e de uma cidade, o Porto, que é mais uma aldeia. “Oh, estacionava onde queria. Depois tive de comprar lugares de estacionamento em frente à farmácia para conseguir arrumar o carro.”
Alberto Gomes da Silva lembra-se também, nessa altura, da chegada das multinacionais a um país salazarento. Longe estão os tempos em que lavar os dentes – quem os lavava – o fazia com pó da louça ou pó de cinza. A concorrência dos tubarões estrangeiros não faz mossa na Couto: “Passámos a vender melhor. A publicidade deles revertia a nosso favor. As pessoas lavavam os dentes cada vez mais.”
Em 1970, o rapazinho que não queria estudar Farmácia chega à administração da empresa. No ano dos cravos, a empresa Couto apanha a maior estalada da sua existência. Em 1974 morre Alberto Ferreira do Couto. Um ano antes tinha já falecido o seu cunhado, o pai de Alberto Gomes, que estava também ligado à administração da empresa. “Fiquei sozinho”, lembra. “A seguir à Revolução, houve algumas complicações mas conseguimos moldar o pessoal e não houve problema de maior. Era o tempo em que toda a gente achava que era dono de tudo.”
Desde meados da década de 60 que na fábrica da pasta, das vaselinas e dos óleos, as máquinas iam substituindo as pessoas e já não se admitia ninguém. “Na confusão de 1975, como éramos poucos, do mal o melhor.” Tinham chegado a ter três dezenas de empregados. Hoje são dez.
Há seis anos, a empresa Couto e a farmácia atravessaram o rio para Gaia. No degradado prédio do Largo de São Domingos, a autarquia da Invicta nunca aprovou a necessária recuperação. “Aquilo está na Baixa do Porto e diziam que ali só cabiam comércio e serviços. Diziam que nós éramos uma indústria e nunca chegámos a um acordo. Fartámo-nos.” Pela primeira vez, farmácia e produção separaram-se, ambas em Gaia mas em sítios diferentes.
O início do século XXI chega castigador para a Couto. As normas europeias obrigam a pasta a alterar o nome. De Medicinal Couto passa a Dentífrica. Em contrapartida começa a ser vendida fora das farmácias. O rótulo e a caixa laranja, a literatura inclusa que a faz parecer um medicamento, mantêm-se. O restaurador Olex é forçado a mudança mais radical – “No ano passado tivemos uma contra-indicação e as fórmulas dos colorantes de cabelo tiveram de ser alteradas. Aquilo era à base de acetato de chumbo que foi proibido na Europa. Na América é permitido. E ainda dizem que os americanos é que são esquisitos...”
Alberto Gomes da Silva fala de “um grande impedimento na produção” do Olex, agora já normalizada. A embalagem manteve-se, a Couto SA só lhe carimbou no rótulo ‘Nova Fórmula’. Depois de tantos anos no mercado, mais de meio século, a alteração europeia trouxe a alguns dos fiéis do Olex problemas de desbotamento: “Houve quem se ressentisse. Antigamente era só despejar para a cabeça e já estava. Hoje em dia, já não é assim e se se fizer como se fazia, mancha-se a cabeça, a cara e a roupa toda. Ora já tivemos queixas porque as pessoas não lêem as novas instruções de uso.”
O país onde a publicidade do Olex dizia “um preto de cabeleira loura ou um branco de carapinha” já não é o mesmo. As exportações africanas da Couto SA acabaram. Hoje em dia, os seus produtos chegam aos Palop em pouca quantidade e por intermediários. Nos Estados Unidos, o mercado emigrante e a moda do Vintage são consumidores tímidos e através de uma casa italiana. “O nosso grande mercado é o nacional.”
A pasta de dentes continua a ser o avançado da empresa – cerca de 600 mil unidades ano – produzida em maquinaria que envergonha aquela outra de 1935. “As máquinas são automáticas e produzem 3500 tubos por hora. Ou seja, têm capacidade para isso mas não o fazem porque não estão sempre a funcionar com a pasta, produzem também vaselina e desodorizante, depois de lavadas.”
Enquanto conta esta história, o sobrinho do senhor Couto está no seu escritório da fundação que recebeu depois do 25 de Abril o nome do tio. A vida avançou solitária, depois da morte dos tios e dos pais. O herdeiro, de 68 anos, nunca casou. “Fomos sempre uma empresa familiar. Os meus tios não tiveram filhos, a segunda geração sou eu, o sobrinho, e não tenho filhos. Até ver. A minha irmã, que ficou com a farmácia, também não. Não há sequência por linha de sangue mas a farmácia Couto está assegurada porque há um afilhado. Na Couto SA, ver-se-á.”
O LEGADO: FUNDAÇÃO REGAÇO DE MARIA O Regaço de Maria era uma instituição de apoio a crianças desfavorecidas de Gaia, aberta na casa onde morou o casal Couto, em Vila Nova de Gaia. Era o ‘ai Jesus’ da senhora Couto e dedicava-se apenas a crianças pobres. Foi esta a obra da pré-história da Fundação Couto, constituída a 11 de Abril de 1974.
No local da antiga casa foram inauguradas a 13 de Maio de 2006, as novas e maiores instalações da Fundação Couto com berçário, infantário e ATL, dirigidos por Teresa Pereira. Na modernidade, perdeu-se o pendor exclusivo de colhimento dos meninos desfavorecidos. Planeados estão já uma nova creche, um centro de acolhimento para crianças em risco e um lar de idosos para o local da Quinta Baylina, também em Vila Nova de Gaia.
CABAZ DE COMPRAS DA SAUDADE
PRODUTOS DE OUTROS TEMPOS
São contemporâneos da pasta dentífrica Couto e do restaurador Olex e, tal como estes, bem portugueses. Sobreviveram à erosão do tempo e mantiveram-se no mercado durante décadas para chegar a este século e receberem o rótulo Vintage que é como quem diz: antigo, sim, nunca antiquado, eternamente na moda.
Fábrica Nally - 1928
O creme Benamôr foi o primeiro a ser produzido naquela fábrica de Lisboa, seguindo depois o Alantoíne. Entre os clientes destes cosméticos estiveram a rainha D. Amélia e António Oliveira Salazar.
Conserveira de Lisboa - 1930
As Conservas Tricana foram desde sempre o produto por excelência da conserveira, que ainda hoje se mantém como loja na Rua dos Bacalhoeiros. Longe vão os tempos onde ali se preparavam as conservas.
Claus Porto - 1887
A Claus Porto foi fundada pelos alemães Ferdinand Claus e George Ph. Schweder. O português Achilles de Brito, sócio gerente, acabou por ficar com a empresa, mas manteve a marca Claus Porto. Hoje em dia é o produto Vintage-chic por excelência.
Chá Gorreana - Início da produção 1878
A Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense procurou impulsionar a agricultura local, para isso escolheu o chá. As primeiras experiências, no entanto, datam de 1750.
Brasileira do Chiado - 1905
“O genuíno Café do Brasil de Minas Gerais”, anunciava a Brasileira do Chiado, quando abriu como café no coração da cidade de Lisboa. O estabelecimento, mais do que o café que nele se servia, ficou para a história da cultura portuguesa. Foi tertúlia de intelectuais,entre eles Fernando Pessoa.
Lápis Viarco - 1936
Seis milhões e meio de lápis continuam a ser produzidos por ano em São João da Madeira, numa empresa fundada depois da extinção da Fábrica Portuguesa de Lápis, fundada em Vila do Conde, em 1914 por industriais franceses.
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