Histórias
Vidas com um túmulo ao lado
Restos mortais de Fernão Teles de Meneses descobertos após 150 anos no centro de Lisboa
Por:João C. Rodrigues
Afinal o túmulo estava ali. Sempre esteve ali, escondido numa casa de função usada por funcionários da outrora Escola Politécnica de Lisboa, bem no centro da capital. Foi lá posto, calculam os historiadores, entre 1850 e 1860. E desapareceu da vista de todos. A casa passou de geração em geração. Casais e crianças dormiram naquele quarto. Sem nunca saberem que ao seu lado - do outro lado da parede de tabique - repousavam no descanso eterno os restos mortais de Fernão Teles de Meneses, antigo governador da Índia e do Algarve, e da mulher D. Maria de Noronha, falecidos no início do século XVII, protegidos pelo túmulo de mármore rosa com mais de seis metros de altura e várias toneladas de peso. Só agora voltou a ver a luz do dia, mais de 150 anos depois de ser ‘emparedado', graças à aposentação do último ocupante daquela casa de função, um antigo guarda do Museu Nacional de História Natural.
A descoberta, feita em Abril, deixou os investigadores do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, tutelado pela Universidade de Lisboa, em êxtase. Só o tinham ‘visto' em desenho - o único - e apenas o conheciam pelas descrições escritas feitas antes do ‘emparedamento'. Sabiam que havia outros túmulos semelhantes - os de D. João III e D. Manuel, nos Jerónimos, e outro na Capela dos Castros, nas instalações dos Pupilos do Exército -, mas nunca esperaram que a descoberta pudesse estar tão bem conservada e intacta.
PAZ INTERROMPIDA
A estória começa em 1605, com a morte de Fernão Teles de Meneses, governador da Índia em 1581 e do Algarve após o seu regresso, em 1587. Sem descendência directa e com fortes ligações à Companhia de Jesus, mandou fundar o Noviciado da Cotovia na sua quinta do Monte Olivete - que actualmente corresponde ao edifício da Escola Politécnica de Lisboa e ao Jardim Botânico - a favor dos Jesuítas. Aí esteve tranquilamente sepultado, juntamente com a esposa, durante mais de 200 anos.
Por ordem do Marquês de Pombal, os Jesuítas foram expulsos e o Noviciado da Cotovia transformou-se no Colégio dos Nobres durante os séculos XVIII e XIX. Mas a Revolução Setembrista de 1836 trouxe o Liberalismo e a imposição do ensino secular. Tudo o que estava relacionado com a Igreja tinha de ‘desaparecer'. Por isso, em 1837, com a instalação da Escola Politécnica naquele espaço, o património foi disperso por várias igrejas de Lisboa e pelo Museu Nacional de Arte Antiga. Pelo menos as peças mais leves.
"Tiraram tudo o que podiam carregar, mas o túmulo era pesadíssimo e ninguém sabia o que fazer com ele", conta Marta Lourenço, investigadora do Museu Nacional de História Natural e da Ciência. "Tiveram que desmontar o túmulo e juntar oito cavalos para o carregar da capela onde estava para as cavalariças do picadeiro, onde foi posto num canto", acrescenta. E ali ficou esquecido e longe dos olhares. A grande mudança deu-se "algures nas décadas de 50 e 60 do século XIX", quando as cavalariças foram transformadas em casas de função para os funcionários da Escola Politécnica de Lisboa. Mas o túmulo continuou no mesmo sítio. Era difícil movê-lo.
"TABIQUE PROTEGEU"
"O primeiro ocupante, quando entrou na habitação, deparou-se com um túmulo de seis metros de altura num dos quartos. Escreveu ao reitor várias vezes a pedir que resolvessem o problema, mas nunca obteve uma resposta", relata Fernando António Baptista Pereira, museólogo, historiador de Arte e professor da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa.
Farto de adormecer a olhar para as ossadas dos outros ‘inquilinos', o homem decidiu ‘emparedar' o túmulo. E assim construiu uma parede de tabique. "Foi essa parede de tabique que protegeu o túmulo da exposição aos elementos. A casa passou de geração em geração. Ninguém terá tocado nele durante cerca de 150 anos". Até 2011.
Aliás, a ‘descoberta' só foi possível devido à aposentação do ‘senhor António', em 2009. Desconhece-se se o homem, entretanto falecido, sabia que atrás da cabeceira da cama, do outro lado da parede, estavam os corpos dos ilustres Fernão Mendes Teles e D. Maria de Noronha. "No tabique, entre o gesso e a madeira, foram encontradas folhas de jornal de 1954", conta Marta Lourenço. É possível que algum dos antigos ocupantes tenha feito uma restauração à parede.
"TEIAS E MÁRMORE FRIO"
Só este ano os investigadores do Museu da Ciência puderam verificar se toda a história sobre o túmulo era verídica ou apenas um mito. "Sabia-se que ele estava lá", mas ninguém o tinha visto desde meados do século XIX. Era preciso ter a certeza.
Como ninguém tinha a chave da casa de função, a primeira equipa entrou pela janela. "Primeiro fizemos um pequeno buraco, mas não dava para ver nada. Fez-se um segundo buraco na parede, onde introduzimos uma lanterna. E espreitámos pela outra abertura. Estava mesmo lá alguma coisa. Quando meti a mão no buraco só senti teias de aranha e o mármore frio na ponta dos dedos".
Mas o melhor estava para vir e chegou no dia 9 de Abril, com a autorização para derrubar a parede de tabique. "A cor impressionou logo. Era um rosa magnífico. Estava em perfeito estado de conservação. Não cinzento, como os túmulos que estão nos Jerónimos, há anos expostos aos elementos", relata Marta Lourenço.
Lá dentro repousavam, dentro de duas arcas de couro, as ossadas do antigo governador da Índia e do Algarve e da mulher. "Ao lado estavam os dois elefantes que serviam de base. Só faltavam as presas, que deviam ser de marfim".
MUDANÇA EM PREPARAÇÃO
Desde Abril, a casa de função só foi aberta ao público por três vezes, as duas últimas em Agosto, no âmbito do Festival dos Oceanos, em que as visitas aconteceram à noite. E o túmulo foi visto por menos de 200 pessoas no total.
Agora prepara-se a mudança definitiva do túmulo para o novo espaço museológico que está a ser criado no edifício principal do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, onde poderá ser visitado por todos. A ‘trasladação' será feita no final de Setembro.
A grande dificuldade prende-se com o peso do túmulo. "Estão a ser feitas perícias com geo-radar para verificar se não há bolsas sob o pavimento e se o piso aguenta com o peso". No entanto, ao contrário do que aconteceu há cerca de 150 anos, não serão usados oito cavalos para puxar a pesada estrutura de mármore, mas sim uma grua.
Até lá também está previsto a realização de um estudo antropológico aos restos mortais.
EPITÁFIO EM PORTUGUÊS DO SÉCULO XVII
O longo epitáfio inscrito na base do túmulo é um verdadeiro curriculum vitae. Nele lê-se, em português do século XVII e não em latim: "Aqui jaz Fernão Teles de Meneses (...) Camareyro mor e Guarda mor e Capitão dos Ginetes, q foi do Iffãte D. Luis, e de D. Catarina de Brito sua molher, o qual foy do Cõselho do Estado D`El Rey nosso Sõr. E governou os Estados da India e o Reyno do Algarve e foy Regedor da justiça da casa da suplicação e Presidente do Conselho da India e partes ultramarinas.(...) Falleceo Fernão Teles de Mñs a XXVI. De Novº de MDCV e de Mª de Nr. A VII de Março de MDCXXIII".
NOTAS
TRÊS MIL
O túmulo de Fernão Teles de Meneses custou, no séc. XVII, 3000 cruzados. Uma fortuna na época.
RENOVAÇÃO
O Museu Nacional de História Natural e da Ciência está a renovar os seus espaços de exposição.
FAMÍLIA
Os responsáveis do Museu estão à procura de descendentes de Fernão Teles de Meneses para a abertura da exposição.
VISITAS
O Museu Nacional de História Natural e da Ciência organiza visitas ao túmulo a 1 e 15 de Setembro, às 17h. A entrada é livre.
Convém dizer, em jeito de reparo, que o dito senhor António ainda se encontra bem vivo!!