Histórias
Um príncipe verdadeiramente real
A zona de Lisboa do Príncipe Real atraiu novos moradores e o interesse de imobiliárias de luxo. Os preços dispararam
Por:Vanessa Fidalgo
Todas as cidades têm o seu Soho e Lisboa tem o Príncipe Real. O enclave aristocrático da cidade mantém o charme, emprestado agora pelos novos habitantes – gente das artes e estrangeiros – e está cada vez mais ‘in’. Nas novas lojas e espaços, pulsam as liberdades individuais e a criatividade, inseridas numa arquitectura excepcionalmente bem conservada e na vida de bairro, contraste que o pôs no topo de todos os desejos. Por isso, o preço das casas disparou, ameaçando tornar o Príncipe Real no bairro mais exclusivo da capital, onde já não há rendas por menos de 1200 euros mensais nem casa própria abaixo dos 250 mil.
A mudança começou a operar--se há dez anos. Os antiquários foram sendo substituídos pelas lojas de design, pelos cafés com estilo e vista sobre a cidade, por prateleiras de madeira maciça carregadas de iguarias gourmet, ao lado de galerias e ‘charriots’ de roupa de autor. Um rasgo de "instinto" de meia dúzia de afoitos com faro apurado para o estilo, como a designer Marcela Brunken, mentora da Fabrico Infinito (agora também livraria Babel). Corria o ano de 2007 quando viu nas antigas cavalariças abandonadas e infestadas de ratos o cenário ideal de uma loja vintage. "Mas esta rua era mortiça e apagada. Quando contava os meus planos, chamavam-se excêntrica ou exótica." Foram anos de pesquisa, planos, trabalho e "muito investimento pessoal e financeiro". Hoje, a Fabrico Infinito, loja, galeria e bar, é uma referência na zona.
Já "atraída por esses ares de mudança", veio a vizinha Lost In, ou melhor, Leonor Guimarães Lobato e o seu projecto de roupa ‘hippie chic’ com o segredo mais bem guardado do Príncipe Real nas traseiras: a soberba vista sobre o casario, onde instalou um bar.
"Aqui uma loja quase nunca termina na loja. Há quase sempre o recanto escondido, o pátio lá trás", diz a criadora Carla Amaro. Logradouros românticos como o seu, onde instalou o ateliê que lhe permite "fabricar peças de joalharia contemporânea à luz natural do dia". Ali mesmo, na rua de São Marçal. Onde o silêncio impera e até se ouvem os passarinhos, no coração da cidade. A mesma "calma e vida de bairro" que fez a actriz Fátima Belo trocar o Chiado pelo Príncipe Real.
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A diferença não é excepção mas regra, quase número sim, número sim, na via formada pelas ruas D. Pedro V e da Escola Politécnica. Em 350 metros, abriram 20 novas lojas desde 2007, algumas em espaços que estavam fechados há 15 anos.
Para nos perdermos, há a irresistível Moy – onde se prova que requinte também é uma palavra aplicável à charcutaria –, a ‘très belle’ Poison D’Amour ou os aromas em chá do Orpheu. E há também o teatro (dos Artistas Unidos, que agora se instalaram na Politécnica), a velhinha padaria de azulejo e o mercado de produtos biológicos aos sábados de manhã, onde a acelga e a segurelha, o tomate-cherry e os morangos se vendem bem cedinho a quem ali vive e a quem passa, sob o olhar atento do singular cedro de 23 metros de copa. Só o quiosque no senhor Oliveira, ali há mais de 30 anos, rivaliza com o ex-líbris do jardim: "É bom que venham estas coisas novas. Por causa deles o quiosque deixou de ser frequentado só pela classe baixa e agora serve também a classe alta." Os primeiros vêm logo às oito da manhã. Os segundos não têm hora. "Mas convivem aqui", como em todo o bairro. Talvez agora mais do que nunca.
O Príncipe Real acolhe cada vez mais artistas e jovens, solteiros ou já em pares, hetero ou homossexuais. O bairro, aliás, figura nos principais roteiros gay da Europa e há algum tempo que acolhe a maior comunidade homossexual da capital.
Mas se o charme é maior, o preço a pagar por viver no Príncipe Real está inevitavelmente em alta também. "O imóvel mais caro à venda neste momento, um palacete, ronda os oito milhões de euros. Um apartamento com boas áreas (200 a 300 metros quadrados) anda pelos três mil euros de renda mensal", conta Ana Farto, da agência de imóveis de luxo Sotheby’s, ela própria rendida aos encantos da zona, onde vive. "Para mim, Lisboa é o Príncipe Real, e mais nada", confessa.
Fora do sector de luxo também não há pechinchas. Um pequeno T2 em boas condições de habitabilidade não se encontra por menos de mil euros mensais, que podem facilmente chegar aos 1500, consoante as áreas e as vistas. Se a opção for a compra, é preciso dispor de, pelo menos, 250 mil.
O preço médio por metro quadrado na freguesia das Mercês aumentou 14% entre o primeiro trimestre de 2007 e o terceiro semestre de 2011, de acordo com dados da Confidencial Imobiliário. Em Santa Catarina, o aumento foi ainda maior: 25%. Contas feitas, o preço do metro quadrado vai dos 3500 aos 4 mil euros.
Por isso, o Eastbanc, fundo de investimento imobiliário (que já recuperou bairros inteiros como Georgetown, em Washington DC), já investiu 50 milhões no Príncipe Real. A empresa norte-americana adquiriu cerca de 20 edifícios (alguns deles palacetes como o Ribeiro da Cunha ou o do Banco de Portugal), que integrarão oito projectos distintos, desde condomínios (como o futuro Alegria 76) , hotéis e o primeiro Urban Club de Lisboa (habitação de luxo inserida no espaço verde do Jardim Botânico). "O objectivo não é optimizar um edifício, mas o bairro na sua totalidade, num horizonte a 15 ou 20 anos", revela Catarina Lopes, directora-geral do Eastbanc em Portugal.
O futuro, por isso, promete um Príncipe Real ainda mais exclusivo e abonado. Ana Farto, da Sotheby’s, confirma que "tudo aponta para a continuação da valorização", com tendência para os preços se equipararem aos do Chiado, actualmente a zona mais cara do País.
Até lá, a intervenção do Eastbanc passa por "fazer acontecer a regeneração urbana", desde a "componente residencial ao desenvolvimento do comércio de rua". A intenção é "inverter a tendência dos últimos anos e voltar a trazer habitantes para o centro de Lisboa", promovendo para isso acções como o Príncipe Real Live.
Nos prédios adquiridos, o Eastbanc tornou-se inclusivamente senhorio de alguns lojistas, com os quais discute ideias para a dinamização do bairro. "Quando a comunidade, tanto de residentes como de comerciantes, se sente envolvida, participa e promove o projecto porque se revê nele", justifica Catarina Lopes.
Dieter Sachs, designer gráfico alemão de 39 anos a residir há nove meses num T1 no bairro, arrendado por 800 euros, defende isso mesmo. "A cidade precisa de soluções, por isso as respostas são sempre bem-vindas." Veio de Colónia, resignado com o fim de um amor que o coração teimava em não esquecer. Por cá, encontrou logo outro, de tez morena e olhos cor de mel. Ali mesmo, ao lado do centenário cedro do Príncipe Real.