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25 Maio 2012

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‘Cabrar’ – um verbo inventado para definir a sedução

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Sem sombra de pecado

Cada vez mais mulheres assumem a conquista sexual. Mas eles ainda se estão a habituar à inversão de papéis

Por:José Carlos Marques

 

 

Às três da manhã numa discoteca das Docas de Alcântara, em Lisboa, o calor da noite não é uma metáfora. Quatro amigas dançam, aparentemente indiferentes ao fogo cerrado de olhares masculinos que cruzam a pista de dança. Truques de quem sabe do ofício. Jovens, bonitas, é impossível não reparar nelas. Ana, de 26 anos, está como peixe na água. "Adoro o ritual da sedução. Gosto de seduzir e de ser seduzida".

As regras do jogo mudaram. Casanova, o lendário cortejador veneziano, teria hoje de lidar com a feroz concorrência que desponta no outro lado da barricada. O caçador tornou-se presa. Hoje, são cada vez mais elas que seduzem, em pé de igualdade com os homens. "Sou o tipo de pessoa que quando quer alguma coisa gosta de ir atrás. Aborrece-me esse joguinho de ter de esperar pelos avanços dos homens. Sou a rapariga das não regras, acho ridícula essa espera, temos de lutar pelo que queremos". Mariana, 23 anos, define assim o que diz ser uma mudança de mentalidades. Eles que se vão habituando.

VIVER EM PLENO

Ana quer aproveitar tudo ao máximo. "Preciso de viver a vida em pleno. Não é este o momento para ter uma relação estável, para mim isso é absurdo", diz. Há muitas formas de duas pessoas se juntarem e a monogamia pode muito bem ficar à porta. "Tenho uma relação aberta com uma pessoa que conheci na noite. Partimos os dois de um princípio, se acontecer alguma coisa com outra pessoa, aconteceu. Sem problemas", conta Ana. Para esta educadora infantil não há tabus. Quando procura a companhia de um homem, sabe bem o que quer. "Gosto do anonimato, não quero saber se ele tem uma relação com outra pessoa ou não. Às vezes tenho arrependimentos, mas só no dia seguinte, depois passa. Onde acabo as noites é uma coisa que varia muito. Mas prefiro a minha casa. Em geral, prefiro não acordar com eles".

Também Marta, de 28 anos, escolhe o seu território quando chega o momento de consumar as suas conquistas. "Não gosto que durmam comigo. Já me aconteceu encontrar homens que não gostam que eu lhes diga para saírem, mas sou eu que faço as regras. Jogar em casa dá-te uma grande confiança. Podes ser quem tu quiseres". As amigas chama-lhe "a ‘Samantha' do grupo", em referência à desinibida personagem da série ‘O Sexo e a Cidade'. Ela não recusa a comparação. "Elas adoram que eu conte as minhas experiências. Divertem-se muito com isso, estão sempre à espera de ouvir uma nova loucura que eu tenha feito".

EXPERIMENTAR TUDO

Patrícia tem 26 anos e diz já ter experimentado "tudo o que queria" a nível sexual. Tal como Ana e Marta, começou a morar sozinha muito cedo, no caso dela desde os 17 anos, quando saiu de uma pacata vila no centro do País para vir trabalhar em Lisboa. Uma liberdade que lhe permitiu fazer o que queria. "Eu e as minha amigas usamos um verbo inventado por uma delas: ‘cabrar'". O que é ‘cabrar'? "Juntamo-nos em casa umas das outras nas noites de sexta-feira e sábado. Bebemos uns copos, até que alguém pergunta, ‘como é, vamos ao engate?' Saímos para a noite, e depois logo se vê".

Patrícia é rápida e letal. Não gosta de delongas. "Nunca levei uma nega. Pelo contrário, consegui sempre o que queira". Para ela, é tudo muito simples: "Bebe-se um copo, conversa-se muito pouco, e depois é escolhermos, o teu carro ou o meu. Conheci muito poucos rapazes que fossem giros e inteligentes ao mesmo tempo. Estou-me nas tintas para o que eles pensam ou para quem eles são. A ideia é mesmo canibal, são coisas de uma noite".

Mariana é mais cuidadosa. Acumula um emprego diurno numa agência de publicidade com a função de relações públicas na Kapital, uma das discotecas mais in da noite lisboeta. "Procuro alguém que tenha alguma cabeça e um estilo de vida que se encaixe no meu. Porque nunca excluo a hipótese de que um caso de uma noite se transforme numa relação. Aliás, nunca fecho as portas a nada".

UMA SÓ NOITE

Marta é muito céptica. Acredita que nenhuma relação séria pode nascer de um engate de ocasião. "Um homem que é abordado nunca pensa que uma mulher que encontrou na noite será uma parceira para a vida. E, pensando bem, as mulheres pensam exactamente o mesmo. Não são coisas para durar". As experiências de Patrícia levam-na à mesma conclusão: "na noite é impossível arranjar alguém. Nunca consegui estabelecer uma relação, nem sequer de amizade, com alguém com quem tenha tido um caso. Mas também não era isso que procurava". Também já trabalhou em discotecas, na BBC, uma das casas da moda em Lisboa. Mas trabalho e sedução não rimam: "Nunca quis ter nada com colegas de trabalho e evito os círculos de amigos próximos".

As histórias de Patrícia e Marta coincidem em vários pontos. Habituaram-se cedo a viver sozinhas e a serem independentes. E ficaram marcadas por relações mal sucedidas antes de escolherem o caminho da boémia. "Tive uma relação que correu mal. Ele traiu-me a torto e a direito e aí eu percebi que tinha dois caminhos, ou fazer de santinha ou partir para a diversão. E escolhi a segunda via", conta Patrícia. "Passei pela fase do namoro sério. Mas a desilusão amorosa fez-me querer aproveitar a vida. Preferi ter coisas de uma noite, de um fim-de-semana", diz Marta.

Também Mariana veio nova para Lisboa, deixando para trás Portimão. Os pais davam-lhe toda a liberdade, mas sentia-se presa num meio demasiado pequeno. "Saí de casa com 18 anos para vir estudar para Lisboa. É muito mais difícil nos meios pequenos, toda a gente conhecia os meus pais, ali sabe--se tudo. Nunca me senti aprisionada por viver com a família, mas é diferente".

A OUTRA FACE DA MOEDA

Mas nem tudo são rosas para quem assume a liderança no campo sexual. Preconceitos e estigmas são hoje mais ténues, mas ainda existem. Até os homens que se deixam seduzir mantém um certo orgulho. "Qualquer homem recebe de braços abertos a abordagem de uma mulher que seja minimamente atraente, mas continuam a gostar que sejam eles a mandar. Mesmo quando estão a ser engatados, preferem pensar que são eles que estão por cima do acontecimento", explica Marta.

Ana assume sem problemas que vive uma vida dupla: "à noite sou outra pessoa, as pessoas com quem trabalho nem desconfiam". Mariana diz que nem tudo mudou nas relações entre homens e mulheres. Algumas ideias feitas ainda perduram nos espíritos, mesmo entre os que se dizem mais liberais: "apesar de tudo, ainda subsiste a ideia de que um homem que conquista muita mulheres é um garanhão e uma mulher que faz o contrário é uma p***. As mulheres têm de saber ser discretas para não ficarem com má fama". E mesmo entre as mulheres, há quem olhe de lado para quem consideram ser uma ameaça permanente: "sei que uma mulher do meu grupo de amigas não gosta de mim por eu ter um perfil de conquistadora. E sinto que não me convidam para certos jantares ou festas porque ninguém sabe com quem é que eu vou aparecer. Já tive todo o tipo de homens", explica Marta.

Para estas mulheres, a liberdade sexual significa variedade na escolha de parceiros. E o sexo sem obrigação de relações emocionais também faz parte dessa opção.

AMIGOS COLORIDOS

‘Fuckfriends', ‘fuckbuddies', amigos especiais. Três designações para um tipo muito especial de relação. Sem amor, mas com muito sexo. Marta, Patrícia e Mariana já passaram por isso. O amigo especial de Marta durou seis anos. "Ligava-lhe e combinávamos um encontro. Era só sexo, sem compromisso. Acabámos por ficar muito amigos, mas a nossa relação nesses tempos era puramente física". Patrícia tinha uma alcunha brejeira para o seu homem ‘utilitário'. Um trocadilho com ‘Telepizza'. "Bastava ligar a dizer que precisava dos serviços dele. Sem mais complicações".

O parceiro de Mariana tem sido menos solicitado nos últimos tempos. "Agora tenho uma relação aberta, não preciso". Foi com esse homem que Marta cumpriu uma das suas fantasias. "Ele tinha um amigo que eu achava muito giro. Então, num dos meus aniversários, a prenda dele foi trazer o amigo e fizemos sexo a três". Mariana já cumpriu quase todos os seus desejos sexuais. "Já fiz amor ao volante - era ele que ia a guiar, ao contrário é impossível". Mas falta-lhe uma experiência - fazer sexo num avião enquanto o aparelho descola: "O avião levanta voo e eu também", explica. Ter um parceiro sexual que a satisfaz por inteiro leva-a a ser muito mais criteriosa. "Sou exigente. Para me satisfazer sexualmente já tenho uma pessoa a quem posso ligar e que me conhece, sabe os meus gostos. Por isso, quando escolho alguém, tem de ser uma pessoa muito interessante".

A sedução tem dois sentidos. Elas também gostam de ser cortejadas. Mas lamentam a parca imaginação deles. "Os homens são muito básicos no engate. Normalmente pagam um copo", conta Ana. Patrícia lembra outra frase gasta: "Dizem sempre ‘conheço-te de algum lado não é'?". Elas são subtis. Todas elegem o olhar como a arma mais poderosa. A postura também conta. "As pessoas dizem imenso com a linguagem corporal. Há muita informação que consegues retirar de alguém sem serem precisas palavras", conta Marta.

DESFECHOS DIFERENTES

Os caminhos que estas quatro mulheres escolheram levaram--nas a lugares muito diferentes. Ana está no pleno gozo da sua juventude e, aos 26 anos, garante que não quer ouvir falar em relações estáveis. "Quando era adolescente era uma pessoa muito mais recatada. Agora decidi libertar-me e fazer o que me apetece".

Mariana diz que está no limbo. "Sou capaz de assumir uma relação, mas agora não sei se conseguia ser fiel. Não fecho as portas a nada, não quero fazer planos a longo prazo".

Para Marta e Patrícia, o tempo da "loucura" acabou. Tudo o que aqui contam faz parte de um passado que dizem já encerrado. Patrícia casou-se há ano e meio e está grávida do primeiro filho. "Não sei ainda o sexo do bebé, mas sei que tenho a escola toda para lhe ensinar. Só quero que tenha juízo e que use sempre preservativos". O marido não conhece o seu passado. "Ele não precisa de saber tudo".

Marta também se cansou. "Dá mais trabalho andar nessa vida do que ter uma relação estável. Fartei-me". Hoje vive com o namorado, um antigo colega de liceu, que deixou de ver durante dez anos. "Não tenho problemas com o meu passado. Ele já sabe como eu era no liceu e ele também não é nenhum santo". Há dias, Marta foi a Madrid a uma despedida de solteira. Eram 11 mulheres e cruzaram-se na pista de dança com um grupo de homens que também faziam uma festa semelhante. "Claro que houve troca de olhares e flirt. Mas quando chegou a hora de se passar a algo de mais sério, eu retirei-me gloriosamente. As minhas amigas até ficaram surpreendidas. Mas para mim é natural, nem preciso de me autocontrolar. Essa fase já passou".

"SÓ NOS PODEMOS CONGRATULAR" (Júlio Machado Vaz, sexólogo)

- Os homens portugueses aceitam bem que sejam eles os seduzidos? Pode-se falar de uma mudança de mentalidades?

- Pode, mas menos do que parece, muitos homens ainda se debatem entre o agrado e o desconforto.

- Uma ‘sedutora' diz que os homens gostam sempre de sentir que são eles quem está a comandar o ‘engate'. Resquícios da mentalidade de ‘macho latino'?

- Seguramente um resquício dos papéis clássicos de género. Aliás, alguns homens acabam por tirar conclusões "pessimistas" do género - "se faz isto comigo não o fará com outros?".

- Esta forma de estar e agir é hoje mais frequente nas portuguesas?

- É mais frequente e no passado considerada "tipicamente masculina". Se isso lhes permite assumir compromissos com mais lucidez do que nos tempos em que passavam dos pais para os maridos directamente só nos podemos congratular.

- Dizem elas que os homens levam muito mais ‘negas'. Será menos aceitável socialmente um homem dizer ‘não' a uma mulher?

- Muitos homens continuam a considerar que é sinal de masculinidade aproveitar todas as oportunidades sexuais. Felizmente também aí se vão constatando mudanças, é ridículo "fingir o desejo" para manter uma imagem. Quando não conduz ao uso injustificado de medicação...

‘SAMANTHA', A TODA-PODEROSA

"A ‘Samantha' tem sempre razão. Ajuda a ver as coisas em perspectiva, passou a haver mais tolerância. E toda a gente vê a série, até os homens". Marta explica assim a admiração pela personagem que Kim Cattrall encarnou na série ‘O Sexo e a Cidade'. ‘Samantha Jones' é uma relações públicas que adora sexo e vai atrás dos homens que quer. A actriz tornou-se autora best-seller de livros sobre sexo. E arrumou de vez a menina exemplar que espera pelo cavaleiro encantado. Na ficção como na vida.

NOTAS

SUCESSO

É raro as mulheres ouvirem uma nega. Avançam quando têm a certeza e os homens raramente resistem a um ataque feminino.

PRAZER

Quem anda na noite não procura um namorado. A elas basta-lhes apenas uma noite bem passada.

RÓTULOS

Apesar de uma mudança de mentalidades, as mulheres têm de ser discretas para não serem mal faladas.

ADEUS

Elas não querem complicações. Na maior parte das vezes preferem acordar sozinhas e nas suas casas. 

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Comentários a esta notícia
  • Comentário feito por:Frank
  • 23 Maio 2010

--- Cada qual opta por aquilo que gosta de fazer sem que prejudique o próximo. No entanto, tenho eu a certeza, estes comportamentos têm uma carga de retroactividade muito grande que, quando menos se espera, se manifestam destabilizando as relações estáveis que mais tarde decidam manter. Tenham juizinho,,, é o que vos peço!!!

  • Comentário feito por:Frank
  • 23 Maio 2010

--- Cada qual opta por aquilo que gosta de fazer sem que prejudique o próximo. No entanto, tenho eu a certeza, estes comportamentos têm uma carga de retroactividade muito grande que, quando menos se espera, se manifestam destabilizando as relações estáveis que mais tarde decidam manter. Tenham juizinho,,, é o que vos peço!!!

  • Comentário feito por:Frank
  • 23 Maio 2010

--- Cada qual opta por aquilo que gosta de fazer sem que prejudique o próximo. No entanto, tenho eu a certeza, estes comportamentos têm uma carga de retroactividade muito grande que, quando menos se espera, se manifestam destabilizando as relações estáveis que mais tarde decidam manter. Tenham juizinho,,, é o que vos peço!!!

  • Comentário feito por:Frank
  • 23 Maio 2010

--- Cada qual opta por aquilo que gosta de fazer sem que prejudique o próximo. No entanto, tenho eu a certeza, estes comportamentos têm uma carga de retroactividade muito grande que, quando menos se espera, se manifestam destabilizando as relações estáveis que mais tarde decidam manter. Tenham juizinho,,, é o que vos peço!!!

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