Economia
Sem crédito: Tragédia grega arrasta Portugal
O ano de 2010 tem registos contraditórios. Nominalmente, o PIB até regista uma ligeira evolução positiva, longe do fulgor alemão, mas vai crescer, apesar da aterragem do último trimestre.
Por:Armando Esteves Pereira, director-adjunto do Correio da Manhã
As exportações foram um motor saudável. No consumo interno, os concessionários automóveis tiveram um ano excelente, venderam-se milhões de telemóveis e os cartões de crédito e o levantamento nas caixas multibanco indiciam novos recordes do consumo, apesar das queixas de muitos lojistas e do desaparecimento de milhares de estabelecimentos do comércio tradicional. Na outra face da moeda está um país onde cerca de 300 mil jovens com menos de 30 anos não têm emprego. As estatísticas oficiais do desemprego são negras, mas a realidade é ainda pior. Mais de 700 mil portugueses passam este Natal sem trabalho. E o pior é que o flagelo vai agravar-se em 2011.
As ondas de choque na Europa iniciadas ainda em 2009 com a crise grega abalaram profundamente a imagem de Portugal, penalizando a dívida pública. Em Janeiro, Portugal era considerado um bom pagador, apesar da anemia económica. O prémio de risco pago pelas Obrigações do Tesouro face às suas equivalentes alemãs rondava os 0,60 pontos percentuais, o que significava um custo extra de 6 milhões de euros em cada mil milhões. Os primeiros sinais de que Portugal iria sofrer com a tragédia grega chegaram na Primavera, quando Sócrates foi obrigado a anunciar o PEC II, que aumentou impostos, nomeadamente o IVA e o IRS, com medidas de constitucionalidade duvidosa, como a retroactividade a partir de Janeiro do agravamento dos impostos sobre o rendimento. Pedro Passos Coelho, que viabilizou esse pacote, pediu desculpa aos portugueses.
Passos Coelho não sabia que teria novamente de dançar o tango para viabilizar o PEC III, anunciado em Setembro, precisamente um ano depois de Sócrates ter vencido as eleições, contando com um orçamento eleitoralista, onde se tinha destacado um aumento generoso para a Função Pública.
É nesse dia 29 de Setembro, em que Sócrates, ladeado por Teixeira dos Santos e Silva Pereira, anuncia um draconiano plano de cortes, incluindo inéditas reduções nos salários da Função Pública, que a maioria dos portugueses se apercebe que o Estado Social estava mesmo a desmoronar-se. A incompetência do Governo em conter a despesa pública coloca o Estado à beira da falência.
O Orçamento apresentado em Outubro segue as directrizes desse PEC e anuncia cortes cegos em despesas, investimentos e nos apoios sociais, dos quais o mais emblemático é o fim do abono de família para filhos de pessoas que ganham pouco mais do que 600 euros brutos por mês.
O IVA volta a aumentar. Desta vez, a subida é de 2 pontos percentuais e há produtos que sobem de 6% para 23%. A maior parte da classe média consegue escapar a um aumento brutal de impostos graças à negociação de Eduardo Catroga, num acordo que serviu de moeda de troca do PSD ao aval do orçamento.
Caminho da recessão
Mas nem este orçamento de cortes gigantescos que anuncia recessão para 2011 acalmou a pressão sobre a dívida. A percepção dos mercados é que o País é um dos elos fracos do euro que vai precisar de resgate. A Irlanda, que garantiu os seus bancos, afundou-se e foi o segundo país a precisar da intervenção dos seus parceiros do euro e do FMI. As taxas de juro exigidas a Portugal subiram a um ritmo exponencial e chegaram a ultrapassar os 7% a 10 anos, o limite que numa entrevista Teixeira dos Santos tinha considerado como o da entrada do FMI em Portugal. O prémio de risco das OT a 10 anos subiu os 450 pontos face às obrigações alemãs, o que significa um aumento de sete vezes face ao spread exigido no início do ano.
Na primeira linha da crise está a Banca portuguesa, num país que não tem capacidade de poupança. No teste de robustez, os cinco grandes passaram com distinção, mas a exposição às dívidas de Portugal e dos outros periféricos do euro é considerada um anátema. Os grandes bancos só contaram com a generosa ajuda do Banco Central Europeu, que injectou muitos milhões de euros em Portugal. Mas a ajuda é temporária. No mercado monetário, os outros bancos não emprestam aos bancos portugueses. Em consequência, o crédito às empresas secou e as famílias viram aumentados os spreads para novos créditos.
Crise foi talvez a palavra mais repetida em 2010, mas 2011 tem tudo para ser ainda pior. A classe média vai apertar o cinto. O exército de desempregados vai aumentar. Os apoios sociais do Estado encolhem. Vai ser gerada menos riqueza, sendo Portugal e a Grécia os piores da Europa. Os preços administrativos, da electricidade aos passes sociais, aumentam acima da inflação. Os juros podem subir e, pior do que isso, o crédito até pode desaparecer. É um cenário dantesco, que vai levar muita gente a ter saudades daquilo a que chama crise este ano. E a grande incógnita de 2011 é saber se o País se livra da tutela do FMI.
Positivo:
Zeinal Bava: Foi o protagonista do negócio do ano com a venda da Vivo à espanhola Telefónica, parceira na operação brasileira, por 7,5 mil milhões de euros.
Autoeuropa: António Melo Pires é o primeiro português a ser nomeado para liderar a fábrica da Volkswagen em Palmela. Os bons resultados da Autoeuropa levaram a administração a dar aumentos de 3,9 %.
Turismo: Foi um bom ano para o turismo nacional, que em Setembro já tinha arrecadado receitas com estrangeiros nunca antes atingidas naquela época do ano: perto de seis mil milhões de euros.
Exportações: As exportações tiveram um comportamento muito positivo, tendo atingido um crescimento de 15 por cento nos primeiro 10 meses do ano. Uma contribuição para a redução do défice da balança comercial.
Banca: A compra do Finibanco pelo Montepio Geral por mais de 300 milhões de euros deu dimensão a uma instituição sem provocar despedimentos.
Negativo:
Helena André: A ministra do Trabalho não conseguiu evitar uma taxa de desemprego de 11%, segundo o Eurostat, ou seja, mais de 600 mil pessoas.
ERSE: Os portugueses pagam na factura da electricidade muito mais do que o que consomem de energia. Mas a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos nada faz contra os custos, que já passam os 50% na factura.
Spreads: Os bancos alegaram dificuldades de financiamento e aumentaram substancialmente a sua margem nos empréstimos à habitação, que atingem os quatro por cento.
Combustíveis: O preço dos combustíveis volta a subir, penalizando toda a economia. As empresas de transportes, por exemplo, queixam-se de uma subida de custos sem compensações.
TVI: As razões do interesse da PT na TVI, que motivou uma Comissão de Inquérito, lançou suspeitas de interferência política do Governo sobre a empresa de telecomunicações e fez abortar o negócio.
Para os jovens que me estão a ler, deixem este país que não tem nada para vos dar e procurem emprego lá fora, que é a única forma de arranjar emprego e condições de vida neste momento.