A minha guerra
“Perdi seis camaradas de uma só vez”
Não sabíamos se voltávamos vivos da guerra e isso é o que custa mais. Depois de muitas emboscadas e minas, consegui sobreviver e regressar
Por:Augusto Pereira, Moçambique (1970-1971)
Parti no navio ‘Vera Cruz' a 25 de Abril de 1970 com destino a Moçambique. A despedida marca logo um homem, porque não sabe se vai voltar da guerra. Foi terrível, tudo a chorar, os que estavam no barco e os que estavam em terra. Mas ia mesmo para Moçambique, para longe da minha terra. Fiz escala em Luanda e em Lourenço Marques, duas cidades muito belas. Lembro-me que, nessa altura, disse de mim para mim: ‘Se a guerra é isto, estou safo'. O pior veio depois. Mal eu sabia, então, o que estava para acontecer.
Mais um dia na Beira, outro em Nacala e, por fim, em Mocimboa da Praia. Já em terra firme foi dada a ordem, carregar as G3 e subir para as viaturas. Foi aí que partimos para a verdadeira guerra, que até começou passados vinte minutos. A Berliet que ia na minha frente foi pelo ar. Um estrondo que se ouviu a a 20 quilómetros, fumo negro e muitos gritos.
Os helicópteros chegavam, tudo em azáfama. Alguns soldados daquele rebentamento, camaradas nossos, já não voltariam à guerra. Fomos então picar, sem nunca ter feito aquilo, todos cheios de medo de pôr os pés no chão. Lembro-me que tivemos de ficar na picada. Foi uma noite que nunca mais acabava. Quando, no dia seguinte, avistámos Nambude, que era um círculo de arame farpado, a alegria era tanta que mais parecia que a guerra tinha acabado.
A minha vida militar resume-se a emboscadas, minas, fome, cansaço, operações e muitas saudades da minha mulher e dos dois filhos que havia deixado em Portugal, mas que, felizmente, pude voltar a abraçar. Quando regressei, mesmo doente, senti que tinha dado o meu contributo à pátria.
MANOBRAS COM ARMA
Precisaria de uma semana para conseguir narrar todos os episódios que marcaram a minha vida militar. Um dos acontecimentos que mais recordo, estávamos lá há três meses, foi o rebentamento de uma mina com uma bomba lançada de um avião que desfez uma Berliet da nossa companhia. Perdemos seis camaradas de uma vez.
São com momentos destes que percebemos o quanto a guerra é dura e a sorte que tivemos em sobreviver.
Houve momentos caricatos, como é normal, e o mais curioso aconteceu-nos com quinze dias de guerra, quando recebemos ordem para uma operação. Eu era apontador de metralhadora e, por isso, fui eu que a levei. Como eu não confiava nela, levei também comigo a G3, água e ração. Lembro-me que, de vez em quando, batia com a arma no chão, tal era o desespero que sentia e o cansaço.
Depois de muito andar ficámos emboscados, à espera que o inimigo surgisse por ali, após um assalto que os ‘páras' e os ‘fusas' fizeram a uma base deles. Ao fim de umas horas foi dada a ordem para regressarmos e lá viemos outra vez pelo mesmo caminho. Era mata tão cerrada que se não tivéssemos guia nos perderíamos pela certa. Quando olhei para o chão percebi que tinha ali perdido a peça de comando de travamento da metralhadora, o que, depois, me deu para rir. Se dependesse de mim, naquele dia, o inimigo saía ileso.
Regressei no dia 31 de Dezembro de 1971 depois de quatro meses internado no Hospital com tuberculose. Na memória ficam os camaradas de armas, que comigo conviveram e muitos nunca mais vi.
PERFIL
Nome: Augusto Pereira
Comissão: Moçambique (1970-1971)
Força: Companhia de Caçadores 2704
Actualidade: Reformado, casado, pai de dois filhos e avô de dois netos
TAMBEM TIVE EM M. DA PRAIA TIVE SEMPRE DENTRO DO ARAME ASSIM DEUS O QUIZ MAS VIVI ESSES MOMENTOS DE PERCA DE COLEGAS QUE AINDA HOGE ME NÃO ESQUEÇO C.CAÇ.2727 SOL.024062/69 BÁSICO ALEGRE DOS SANTOS