A minha guerra
“Passou-me uma rajada por cima da cabeça”
Dormi oito dias debaixo da viatura. Fiquei debaixo de fogo com a arma encravada. Vi um furriel morrer. E só conheci o meu filho aos dois anos.
Por:Manuel Lopes, Angola (1964-1966)
Embarquei para Angola a 6 de Outubro de 1964. Saí de Santa Margarida por volta da uma ou duas da manhã de comboio. Chegámos a Lisboa, ao Cais da Rocha de Conde de Óbidos, já tinha amanhecido. Embarcámos no ‘Vera Cruz’. Eu já era casado e a minha esposa estava grávida – o bebé nasceu a 29 de Novembro, estava eu em Angola. Deixei por isso a minha mulher com o receio de não regressar, de não conhecer o meu filho. Nós íamos com os olhos tapados, não sabíamos o que nos esperava. Os nove dias de viagem foram uma desolação.
Desembarcámos em Cabinda, em alto mar. Foi outro martírio. Tínhamos de descer por uma escada lateral para uns batelões. A gente via ali os tubarões à volta. Houve alguns de nós que não conseguiram descer. Esses tiveram de ser ajudados.
SEM CAMAS PARA DORMIR
Já em terra, ficámos o dia todo no cais de Cabinda à espera e só de noite vieram umas viaturas buscar-nos. Fomos para o quartel de Malembo. Alguns de nós – eu inclusive – ficámos oito dias a dormir debaixo das viaturas, só depois vagaram camas na rendição das tropas. Estivemos ali dez meses.
Fomos depois para Belize. Ficámos instalados na fazenda Alzira da Fonseca. Foi nesta região que sofri o primeiro ataque: duas horas debaixo de fogo. Tínhamos ido fazer um patrulhamento. Aquilo era mata virgem. E nós já nem sabíamos onde estávamos. Levávamos rações de reserva para três dias e já íamos no quinto dia. Ficámos também sem transmissões na zona onde estávamos.
Ao quinto dia, de manhã, caminhámos durante uma hora ou hora e meia até que conseguimos encontrar um ponto de referência. Finalmente também já tínhamos comunicações e pedimos para que as viaturas nos fossem buscar.
Na fazenda havia lá um capataz que nunca saía. Mas nesse dia decidiu ir de motorizada ao nosso encontro. Quando ele se cruzou connosco disse-nos que viu, um pouco atrás, o inimigo a montar uma mina. Mas nós já tínhamos passado por uma outra mina, que o enfermeiro avistou. Decidimos parar e um grupo voltou ao local da mina que já tínhamos passado e que não tinha sido armada. Encontrámo-nos de frente com o inimigo que estava lá a levantá-la. Abriram fogo. A minha arma encravou. Fiquei 20 minutos sob fogo, mas como não tinha arma, decidi ir para a frente ao encontro dos nossos que lá tinham ficado. Quando lá cheguei, passou-me uma rajada por cima da cabeça. Ficámos duas horas debaixo de fogo. Lançaram granadas e com a deslocação do ar alguns de nós ficaram ligeiramente feridos. Eu ainda passei uns dias na enfermaria, atordoado.
Mais tarde, uns meses, talvez, nessa mesma zona, um furriel é morto numa patrulha. Ele ia na frente do pelotão, logo atrás do guia local, que passou por uma primeira mina. Não a calcou. Mas pisou a segunda. E o furriel teve azar, calcou a primeira. Disso não me quero lembrar. Vi-o ficar desfeito da cintura para baixo e ainda vivo durante umas duas horas. Morreram os dois.
Onze meses depois (e 22 em Angola), fomos para Dinge, ainda na região de Cabinda. Evitou-se mais uma tragédia. Um civil descobriu que estavam a montar um ataque ao quartel. Fomos avisados, mas não ficámos muito convencidos. A nossa tropa teve sorte porque conseguiu surpreender o guarda avançado deles. Um dos nossos deu-lhe um tiro. Matou-o. E eles ficaram desorientados.
Chegámos a Lisboa, no dia 15 de Dezembro de 66, com muito frio mas uma alegria imensa. Foi inesquecível, um dia depois, conhecer o meu filho, que entretanto já tinha feito dois anos.
PERFIL
Nome: Manuel Lopes
Comissão: Angola (1964/66)
Força: Companhia 720, Batalhão 721 de Infantaria
Actualidade: Tem 68 anos e está reformado da função pública. Vive em Valadares
Quando em zona de guerra as G3 são levadas ao ombro como cajados, não admira que haja mortos. Comandei um grupo de combate que em Angola teve unicamente um ferido porque estes abandalhanços não eram permitidos.