Os homens precisam de mimo
Na cama
“A minha cama é a minha cama, e detesto emprestá-la a quem quer que seja, seja pai, mãe, avozinha e muito menos filhos”
Por:João Miguel Tavares, Jornalista (jmtavares@cmjornal.pt)
Eu e a minha excelentíssima esposa andamos com um sério problema de cama. Não, não é esse problema de cama que vocês estão a pensar. É sobre a presença dos nossos filhos na nossa cama e sobre a nossa presença na cama dos nossos filhos. As nossas opiniões em relação a esta matéria divergem muito. E como de costume, apesar de haver uma teoria certa (a minha) e uma teoria errada (a dela), a prática errada (a dela) tem uma extraordinária tendência para se impor à prática certa (a minha).
Ora, isto está mal. No que ao meu colchão diz respeito, sou um tipo extremamente possessivo. A minha cama é a minha cama, e detesto emprestá-la a quem quer que seja, seja pai, mãe, avozinha e muito menos filhos, que têm as suas próprias camas e não têm a menor necessidade de vir colonizar os meus lençóis. Permitir que entre na minha cama qualquer outra pessoa que não a minha excelentíssima esposa provoca em mim um sentimento semelhante ao que teria D. Afonso Henriques se fosse obrigado a deixar um bando de mouros pernoitar no Castelo de Guimarães.
Não vejam isto como uma manifestação extremada de egoísmo, egocentrismo, ou seja lá o que for, ok? A vida de um homem de família no século XXI é a história da diminuição progressiva do seu espaço privado à medida que se vai casando e lhe vão nascendo um, dois, três filhos. A nossa mulher começa por tomar conta da casa, os bebés tomam-nos conta do quarto, as crianças tomam-nos conta do escritório, e de repente um homem sente que aqueles dois metros quadrados de colchão são o seu último reduto, que tem a obrigação de proteger com a própria vida. "Afasta-te da minha cama, homúnculo de três anos, ou dou cabo de ti!"
Infelizmente, a minha esposa não comunga desta obsessão animalesca pelo controlo do seu território. E por ela a sua cama estava sempre aberta a toda a gente (salvo seja). Um deles tem um pesadelo? "Vem cá, queridinho". O outro tosse três vezes de seguida? "Vem cá, fofinho". A outra tem os pés frios? "Vem cá, amorzinho." Não, não, não. Isto não pode ser. Nenhum puto se enfia na minha cama com menos de 40 graus de febre nem com um pesadelo que envolva menos do que um zombie podre e malcheiroso a estraçalhar todo o agregado familiar, como num filme do Romero. Se um dia destes acordar abocanhado à canela de um dos putos, vocês são minhas testemunhas: eu avisei.
adoro ler as sua cronicas