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Há 10 anos o mar chegou à planície (COM VÍDEO)
O fecho das comportas do Alqueva levou o futuro ao interior alentejano. Nem tudo se cumpriu, mas a região já não é a mesma.
Por:Alexandre M. Silva e Pedro Galego
Nos tempos da Reforma Agrária, no muro da velha ponte sobre o Guadiana, foi escrita uma frase que mostrava a ansiedade com que os alentejanos esperavam a obra do Alqueva, considerada desde o início do século XX como a tábua de salvação da região. A frase - "Construam-me, porra!!" - ainda lá está. O dia mais esperado chegou finalmente a 8 de Fevereiro de 2002. Foi o então primeiro-ministro, António Guterres, que premiu o botão que levou ao histórico fecho das comportas.
Dez anos depois, o lago artificial continua ainda em construção. Mas muita obra está já concluída, para benefício de agricultores, população e empresários ligados ao turismo.
A Amieira Marina, no concelho de Portel, foi o primeiro, e é até ao momento o único projecto turístico consolidado na albufeira. Prestes a iniciar o sétimo ano de actividade, a empresa que aluga barcos-casa e organiza cruzeiros no Alqueva tem, segundo os seus responsáveis, vindo a crescer de forma sustentada e não depende do sucesso de outros projectos.
"Somos auto-suficientes. Obviamente que a consolidação de outros projectos, por exemplo o de José Roquette, no futuro nos pode trazer grandes vantagens, mas até agora dispomos de todas as condições, quer de natureza quer de infra-estruturas, para continuar a crescer", disse Eduardo Lucas, administrador da Amieira Marina.
O projecto do empresário da Herdade do Esporão, que pode criar mais de dois mil postos de trabalho, prevê dois portos de recreio, quatro campos de golfe, hotéis e aldeamentos turísticos com capacidade para 17 mil camas. O Parque Alqueva é um projecto turístico de mil milhões de euros no concelho de Reguengos de Monsaraz, que arranca por fases depois de ter sido anunciado e sucessivamente adiado desde 2008.
Pela dimensão do projecto, percebe-se a sua importância para a zona e concretamente para a Amieira Marina, que funciona com uma frota de 15 barcos-casa, com capacidades de duas até 12 pessoas, e três barcos de cruzeiro, dois com lugar para 25 pessoas e um com capacidade para 120 passageiros, já utilizados em casamentos, apresentações comerciais de marcas e empresas, visitas políticas,
Os preços destes ‘hotéis flutuantes' são bastante variáveis, consoante o tipo de embarcação e a altura do ano, mas um barco para um casal, num fim-de-semana em época alta, pode chegar aos mil euros. Os preços por dia vão descendo conforme o tamanho da embarcação e a divisão dos custos pelos ocupantes. Em época baixa, um grupo de oito amigos, por exemplo, pode conseguir uma embarcação que fica a cerca de 30 euros, por dia, por pessoa. As estes valores, há sempre a acrescentar o preço do combustível.
O objectivo da empresa para o primeiro ano era atingir a venda de 50 semanas - chegou às 72.
O ano passado terminou com a venda de 540 blocos (semanas) e com uma facturação de cerca de 1,6 milhões de euros dividida entre os barcos-casa e os cruzeiros.
A Amieira Marina, que emprega actualmente 22 pessoas, tem ainda um restaurante onde dois terços dos clientes têm origem no mercado interno (invertendo a tendência dos primeiros anos). A aposta é a exploração de mercados como o espanhol, o britânico e o escandinavo. "Esta lógica de turismo ainda é pouco conhecida, e há que desmistificar a utilização dos barcos-casa. Não é preciso carta de marinheiro e são muito fáceis de manobrar, basta bom senso."
O negócio tem crescido ao ritmo da região do Alentejo. A crise, de certa forma, até poderá contribuir para o aumento da procura por turistas nacionais. "As pessoas estão a planear as suas férias no País", acrescentou Eduardo Lucas.
OFICINA DE BARCOS
O grande mar do interior alentejano mudou radicalmente a vida de Vítor Avelino. Longe de imaginar que um dia poderia haver um centro náutico no concelho de Reguengos de Monsaraz, um dos mais interiores do País, este mecânico de 40 anos acabou por ser uma peça na engrenagem do progresso ao decidir enveredar pela reparação de barcos.
"Sempre gostei de barcos e sabia de mecânica porque trabalhei em várias empresas ligadas à agricultura. Acabei por juntar o útil ao agradável", disse o proprietário e único funcionário da Nautiagro, centro náutico sediado na aldeia de Cumeada, a escassos quilómetros do espelho de água do Alqueva.
Vende, repara, prepara, trata da documentação e guarda barcos de clientes espalhados um pouco por todo o território nacional. Das gentes da terra, sente ainda pouca adesão. "As pessoas daqui sempre estiveram habituada à terra firme, pensar em ter um barco de recreio é algo que não lhes passa pela cabeça. Alguns barcos de pesca ainda se vendem nesta região, mas a maior parte dos clientes é de fora", explica.
"Foi um investimento grande e felizmente trabalho não me falta. Trabalho muito, mas só dá para mim. Se há dias em que compensava criar outro posto de trabalho, na maior parte do tempo não há serviço para duas pessoas", acrescentou Vítor Avelino. A sua empresa é a única do género na região, é "o maior centro náutico do Alentejo interior", como lhe chama Vítor, mas apesar disso também sente a crise.
"Antigamente pensava-se que quem tinha dinheiro para ter um barco grande não tinha problemas com os gastos, mas hoje em dia já não é assim. Mesmo quem tem mais disponibilidade financeira já faz contas. Com o aparecimento de mais projectos turísticos, pode ser que o negócio cresça mais", diz este empresário, que reclama ainda mais condições de acesso à água nas margens da barragem junto ao Campinho, outra das aldeias ribeirinhas.
"Estou a meia dúzia de quilómetros do Campinho, mas um cliente meu com um barco grande tem de dar uma grande volta, até Monsaraz, para o meter na água. Não deve custar muito fazer uma boa rampa e melhorar a estrada. É só do que me posso queixar."
Outro dos grandes benefícios do Alqueva foi a implementação de quilómetros de canais de rega. O concelho de Ferreira do Alentejo foi o mais beneficiado na última década. Ali, nasceram 509 novas empresas desde 2001.
Entre a indústria agrícola, destaca-se a construção do maior lagar de azeite do País. Propriedade do Grupo Sovena, que detém as marcas de azeite Oliveira da Serra, em Portugal, e Andorinha, no Brasil, o Lagar do Marmelo tem uma área de laboração de 5500 m2 com capacidade de extracção de 8 milhões de litros/ano. Na obra, inaugurada em Novembro de 2010, foram investidos nove milhões de euros. Criou 200 postos de trabalho.
"Este investimento, pelo que significa em termos de requalificação e expansão da área de olival, demonstra uma clara aposta na agricultura portuguesa", disse na altura da inauguração o presidente da Sovena, António Simões.
Outros dos projectos agrícolas deste concelho é a Herdade de Vale da Rosa, conhecida pela produção de uvas de mesa com e sem grainha. A exploração, iniciada nos anos 50, começou a exportar em 1972. Desde então, a empresa conheceu um significativo crescimento e participou na implementação do perímetro de rega de Alqueva na região, dada a experiência dos proprietários da empresa nas culturas de regadio. A Vale da Rosa produz dez milhões de cachos de uvas por ano e em 2011 a facturação ascendeu a sete milhões de euros. A herdade emprega em média, por mês, 350 pessoas, mas em picos de produção chega à meia centena.
"Temos uma barragem própria. Neste momento, em caso de necessidade, já podemos regar Alqueva", António Silvestre Ferreira, administrador da Vale da Rosa.
A MÁ SORTE ALENTEJANA
Se para uns o Alqueva mudou as suas vidas, para outros não passa de uma desilusão. Sem trabalho, muitas famílias perderam a esperança numa vida melhor nas margens da albufeira. Alguns dos concelhos ocupados pelo grande lago, como o de Mourão, perderam 18 por cento da população.
A aldeia da Luz, construída para acolher toda a população da outra aldeia que ficou submersa, é um dos exemplos mais flagrantes deste abandono. Muitos dos habitantes nunca aceitaram a mudança e perpetuam a revolta diária que na altura do realojamento teve eco nos meios de comunicação.
Há quem - derrotado pela burocracia - nem sequer tenha feito a escritura das terras agrícolas a que tem direito. As lojas fecharam. Muitas casas estão à venda. Restaurantes são muito poucos, apesar do elevado movimento de turistas, atraídos pela beleza da região e pelo museu da Luz. As crianças são cada vez menos, tendo mesmo a moderna escola básica - uma das melhores de todo o Alentejo - estado na iminência de fechar as portas neste ano lectivo.
"Só não aconteceu porque trouxeram para aqui alunos de Mourão [sede de concelho]. A aldeia parou no tempo depois de 2007 porque ninguém olha por nós", frisou o presidente da junta de freguesia local, Francisco Oliveira, que vai abandonar a autarquia ao fim de 18 anos. "Nunca houve investimento. Não foi feita a adega nem outras infra-estruturas necessárias para a fixação da população. Perdemos quase 100 pessoas", sublinha.
Depois da Luz, foi a aldeia da Estrela a que mais viu mudar a sua face devido à subida das águas do Alqueva, tornando-se numa península. À semelhança de outras localidades do interior, a desertificação, o envelhecimento da população e a falta de trabalho têm tornado a vida mais complicada nesta aldeia do concelho de Mourão, onde só os fins-de-semana parecem ser animados com a visita de turistas.
JÁ NÃO HÁ "NOVOS"
Sentados junto ao café Estrela, perto da agora única entrada da península, um grupo de estrelenses lembra os tempos em que os campos eram maiores do que a água. "Tínhamos o Guadiana lá ao fundo e a ribeira de Zebro, hoje só vemos água e, para sair daqui, só há esta estrada. A volta é grande para chegar a qualquer lado", disse José Caeiro, de 74 anos.
"Ao fim-de-semana vem aí muita gente para ver, mas não fica nada na terra. Não há trabalho no campo, quem tinha gado teve de se desfazer dele e estamos isolados", lamenta Francisco Oliveira, de 76 anos. "Estamos pior do que estávamos", concluiu o habitante da aldeia que exumou alguns dos seus mortos quando as águas de Alqueva estavam às portas da aldeia e do cemitério.
"Já não há gente nova. Quem quer trabalho tem de ir para Mourão, Reguengos, ou para mais longe. Se quisermos arranjar uma casa, ninguém autoriza. Quem quer comprar terrenos não pode construir. A gente acha que o Alqueva é bom, mas é lá para baixo, onde chega o regadio", acusa Jaime Santos, de 75 anos. "O tempo não mudou com a barragem. Agora, se calhar, há um bocadinho mais de nevoeiro, mas antigamente, como agora, o Inverno é muito frio e o Verão muito quente. O Alqueva não temperou."
Apesar do imenso espelho de água na planície, o desenvolvimento económico e a consequente criação de postos de trabalho que todos esperavam ainda não é uma realidade plena.
Dos 110 mil hectares de regadio, foram feitos 60 mil. E, sobre os perímetros de rega que faltam, nenhum membro do actual Governo avança com uma data de conclusão do projecto, inicialmente anunciada para 2013 pelo Executivo de José Sócrates. A data de conclusão foi tornada num tabu da dimensão da crise económica portuguesa. "O silêncio é absoluto. Mas Portugal não pode deixar passar a oportunidade para acabar o Alqueva, porque o benefício para as gerações vindouras será enorme", diz Francisco Palma, presidente da Associação de Agricultores do Baixo Alentejo.
Com a água paga entre três e nove cêntimos por metro cúbico, os agricultores, habituados às culturas de sequeiro, renderam-se ao regadio. Em zonas onde crescia trigo, colhe-se agora milho ou tomate. Regam--se também centenas de hectares de novo olival. Mas, segundo Francisco Palma, muita terra está ainda à espera de água.
Na zona de Beja, os agricultores reclamam cerca de 12 mil hectares de regadio. "Era importante para a região. Por exemplo, uma cultura de beterraba iria dar trabalho a muita gente, e podia surgir aqui também uma indústria de transformação de açúcar", frisou o agricultor de 42 anos.
Dos projectos turísticos que há 10 anos preenchiam o sonho alentejano, apenas avançou a primeira fase do empreendimento de Roquette. No terceiro trimestre deste ano, deverá ser concluído no concelho de Reguengos de Monsaraz, perto de São Marcos do Campo, um hotel com 81 quartos, wineclub e campo de golfe. O projecto Roncão D'el Rei, considerado como PIN (Potencial Interesse Nacional), inclui outras obras, num valor total de cerca de mil milhões de euros, a serem investidos nos próximos 20 anos. Irá criar dois mil postos de trabalho directos e três mil indirectos.
A mais-valia do Alqueva está no aproveitamento hidroeléctrico, no regadio e abastecimento de água, embora neste capítulo a sua qualidade esteja em discussão devido aos níveis de poluição verificados em alguns afluentes e no caudal do Guadiana proveniente de Espanha. Más práticas agrícolas e consequente contaminação das águas subterrâneas estarão na origem do problema.
O mar alentejano abastece 200 mil pessoas e rega os campos agrícolas em três anos consecutivos de seca. "É por termos este bem precioso, a água, que nós não podemos desistir. Não podemos morrer na praia", diz Francisco Palma, presidente dos agricultores do Baixo Alentejo.
"SE NÃO FOSSE A PERSISTÊNCIA TINHA ACABADO POR SAIR DAQUI"
Dez anos separam as fotografias ao lado da família Ramalho, a primeira a ser realojada e que ainda continua a viver na aldeia da Luz. Nem tudo tem sido fácil: "A pedreira onde trabalhava fechou. Estive desempregado dois anos e meio, mas, quando não esperava, surgiu uma oportunidade na farmácia de Mourão", referiu Manuel Ramalho. "Se não fosse a persistência, tinha acabado por sair daqui também em busca de algo melhor para a família."