Ligação directa
FNAT*
“Fica claro que o Povo é mais cioso do Entrudo do que de feriados religiosos, civis, históricos ou patriotas”
Por:Victor Bandarra, Jornalista (vmbandarra@tvi.pt)
Passos Coelho nem sabe no que se meteu. Sem consultar o especialista Cavaco, decidiu-se pela intolerância de ponto em Dia de Carnaval. À memória de portugueses mais antigos, porventura esquecidos de recentes maldades da troika, assomou uma sigla que fez história: FNAT - Fundação Nacional para a Alegria no Trabalho.
Antecessora do INATEL, foi criada em 1935. Ignoram os doutos tecnocratas do FMI que a FNAT seguiu as pisadas de modelos italianos e alemães que tentavam encarrilar algum Povo nas modernices do turismo social e do preenchimento dos tempos livres. Surgiram as ‘colónias de férias’, os ‘serões para trabalhadores’ e até os ‘refeitórios económicos’.
A Salazar, cuidadoso, não lhe passou pela cabeça acabar com o feriado de Entrudo, salvaguardada a decência e os bons costumes – o que o Povo raramente cumpria. Era no tempo em que, à boca pequena, os foliões traduziam FNAT por ‘Famintos Nacionais Agarrados ao Tacho’.
De uma assentada, Passos pôs analistas a comentar, oposição a criticar e milhões de compatriotas a pensar no que fazer aos filhos que, no Dia de Carnaval, não vão ter ‘refeitório económico’ na escola. Mais: obrigou muitos autarcas a fazer contas ao investimento em corsos e escolas de samba. Fica claro que o Povo é mais cioso do Entrudo do que de feriados religiosos, civis, históricos ou patriotas.
Sou pelo Entrudo e pelo FNAT, ou seja, pelo Feriado Nacional para a Alegria no Trabalho. Poupa-se um dinheirão em psiquiatras e tranquilizantes, esquecem-se chefes e patrões, exteriorizam-se pecadilhos e tendências sexuais. No dia seguinte, renascidos das cinzas, frescos que nem alfaces, os assalariados hão-de voltar ao trabalho com mais eficácia e alguma alegria.
O meu amigo Zé dos Pneus deu-me razão ("ó Passos volta para trás") e avançou com uma grande ideia. O Governo alinha no feriado de Carnaval: Passos de blusão aos quadradinhos mascara-se de pescador, Gaspar de capacete passa por operário e Portas, de camisa preta, pendura fio de ouro ao pescoço e confunde-se com feirante. Distribuem-se pela Nazaré, Torres Vedras, Loulé e Ovar e fingem todos que se divertem que nem uns perdidos. Fazem um figurão e o Povo fica contente.
Na Quarta-Feira de Cinzas, a troika já precavida dá uma mãozinha a Passos Coelho: anuncia que, no acordo para 2013, não há feriado de Entrudo nem lusitanas pieguices carnavalescas.
*Feriado Nacional para a Alegria no Trabalho