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28 Julho 2014

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Filme estreia em cinemas nacionais e selecionados no próximo mês

Histórias

Ficção científica à portuguesa

A domingo assistiu às gravações do filme ‘Collider' na Irlanda e à estreia em Londres

Por:Duarte Faria

 

Inspirado no sucesso da série televisiva ‘Perdidos’ e na saga cinematográfica de ‘Exterminador Implacável’, e apesar de "não ser fã de ficção científica", o produtor Nuno Bernardo começou a desenvolver, em 2008, durante uma viagem ao Egito, um projeto que pretendia misturar personagens "num local e tempo desconhecidos". A isso queria misturar ação, tensão e suspense.

Na ideia do criador e presidente da beActive, empresa portuguesa que há dez anos faz sucesso um pouco por todo o Mundo com as suas produções, a história era simples. Em 2018, o planeta entra em colapso e a espécie humana é dizimada devido a uma sucessão de desastres naturais e ao surgimento de uma raça mutante. Um grupo de seis sobreviventes é a última esperança da humanidade. Estes terão de unir esforços para conseguirem reativar o ‘Collider’ (inspirado no ‘LHC’, o maior acelerador de partículas do Mundo, criado em 1953, localizado na região noroeste de Genebra, e que conta com financiamento português desde 1986) e assim recuarem no tempo e evitar o apocalipse. Contudo, o que parecia simples acabou por revelar alguma complexidade e Nuno Bernardo viu-se obrigado a reformular várias vezes a sua história. "Lembro-me de que chegámos a apresentar o projeto a uma operadora de comunicações móveis, mas não resultou como queríamos."

FILMAGENS NA IRLANDA 

Foi já em 2011 que se reuniram todas as condições para avançar com um projeto de longa-metragem. Assim nasceu ‘Collider’, financiado pelo FICA – Fundo de Investimento para o Cinema e Audiovisual. Ainda assim, este é um projeto internacional no elenco e na produção.

A longa-metragem, com uma duração de 80 minutos, demorou um mês a ser rodada mas levou 12 meses de pós-produção, nos quais foram adicionados dezenas de efeitos especiais. Tudo isto com um custo de 650 mil euroS e incentivos fiscais do governo irlandês, o que levou à decisão de deslocar as filmagens para aquele país e recrutar uma equipa que juntou portugueses, ingleses, escoceses e irlandeses.

Um hotel abandonado numa região rural dos arredores da capital irlandesa, em tempos um ‘boutique hotel’ que acolheu artistas e estrelas da música mundial, como Bob Dylan e David Bowie, foi um dos principais cenários escolhidos para a rodagem, no último trimestre do ano passado. Foi lá, debaixo de um frio a que por cá não estamos habituados, que a Domingo encontrou o argumentista e produtor Nuno Bernardo e Teresa Tavares e Marco Costa, os atores lusos que aceitaram o desafio de se ‘transportarem’ até 2018. No entanto, para a dupla portuguesa, mais do que esta viagem, o principal desafio durante as filmagens foi o sotaque. Não pelo inglês, uma vez que ambos já viveram experiências profissionais em países anglófonos, mas essencialmente por darem vida a personagens de origens tão diferentes como o Brasil, no caso de Teresa Tavares, e Espanha, para Marco Costa. "É muito bom sermos desafiados e sairmos da nossa zona de conforto", explica à Domingo, no intervalo das gravações, a atriz portuguesa.

Ideia partilhada por Marco Costa, que destacou também o frio que a equipa teve de enfrentar e o facto de ter estado a gravar mais de 12 horas numa central de tratamento de águas em Ballymore Eustace. "Foram semanas muito intensas, de muita pesquisa, com muita ação e que exigiram muito de nós fisicamente", contou o ator, que observou trabalhos de Javier Bardem e Antonio Banderas para incorporar a sua personagem.

Para Teresa Tavares, este é "um filme de grupo", em que "a diferença cultural entre atores e até personagens é notória", e é em cima de tais distâncias que "o trabalho foi desenvolvido". De resto, os seis atores à volta do qual gira toda a narrativa apenas receberam o guião na véspera de se iniciarem as filmagens. O objetivo do realizador, o irlandês Jason Butler, foi o de criar maior suspense e novidade em relação à própria história e ao final do filme e obrigar a um maior envolvimento entre os atores: Iain Robertson (que entrou em ‘Instinto Fatal 2’ e na minissérie ‘Irmãos de Armas’), Jamie Maclachlan (protagonista do filme ‘Quatro Minutos’, com Christopher Plummer), Lucy Cudden (atriz do Teatro Nacional da Irlanda) e Bella Heesom (na sua primeira longa-metragem), completam o elenco.

"Sempre foi nosso objetivo ter atores portugueses neste trabalho", afirma Nuno Bernardo, que recorda que em todos os projetos em que a sua empresa está envolvida existe mão de obra nacional. "Quando escrevo as histórias, deixo espaço para personagens que possam ser portuguesas ou tenham alguma ligação à nossa língua", diz o argumentista, para quem "só não faz sentido ter atores com um sotaque português a fazer personagens britânicas".

MOVIMENTO COLLIDER 

Um ano depois, a longa-metragem está pronta e, na última semana, teve honras de antestreia mundial no Festival de Cinema de Londres. Numa sessão em que a Domingo esteve presente, no mítico Cinema Prince Charles, em Leicester Square, o filme foi aplaudido por centenas de espectadores, que puderam questionar atores, realizadores e produtores. No fim, Teresa Tavares e Marco Costa mostraram-se visivelmente satisfeitos com o trabalho final e deixaram o desejo de que os espectadores portugueses "acompanhem ‘Collider’ agora também no cinema". "É um filme português, de uma empresa que está a arriscar. Isso deve ser aplaudido", diz Marco Costa.

O projeto ‘Collider’, nas suas múltiplas plataformas, foi apresentado no evento ‘Power to the Pixel’, dedicado a projetos que ultrapassam as plataformas tradicionais, como a televisão e o cinema, no qual Nuno Bernardo é orador convidado há quatro anos consecutivos.

Como parte da estratégia de comunicação e divulgação, o objetivo da beActive nas próximas semanas é lançar a primeira campanha de ‘crowd marketing’ para a promoção de um filme nacional. A ideia é unir fãs de ficção científica e apelar à sua colaboração e partilha do filme: um ‘gosto’ na página oficial do ‘Movimento Collider’, por exemplo. A partilha do trailer do filme permitirá ganhar bilhetes para sessões especiais e aparecer nos créditos do filme quando este for exibido nas salas de cinema nacionais. De resto, ‘Collider’ tem ganho verdadeira popularidade entre o universo ‘geek’.

O projeto foi apresentado no ano passado na Comic Con, um dos maiores eventos de banda desenhada do Mundo, que se realiza anualmente em San Diego, nos Estados Unidos. Nesta área, a beActive conseguiu, recentemente, uma vitória contra a DC Comics. A empresa portuguesa levou a que o colosso norte-americano da banda desenhada fosse obrigado a alterar o nome da sua nova coleção de livros, uma vez que ‘Collider’ já era uma marca registada.

LIVROS E JOGOS

Além do filme – que terá estreia nacional a 14 de novembro, em salas de Lisboa, Maia, Guarda, Caldas da Rainha e Madeira, para depois, em 2014, rumar ao Reino Unido, Irlanda e Estados Unidos – o universo ‘Collider’ é ainda composto por uma coleção de livros de banda desenhada, que faz uma introdução às seis personagens da história, uma série na internet, uma aplicação móvel e um videojogo.

Ao todo, a beActive gastou mais de um milhão de euros na história destes seis sobreviventes. Um investimento que compensa pelo facto de o estado irlandês "dar um euro por cada quatro que são gastos no país". "Tudo isto de uma forma simples. Não tenho de convencer ninguém, nem fazer lobby. É tudo feito de uma forma automática e não temos de perder anos a fazer concursos do Instituto do Cinema e Audiovisual", diz Nuno Bernardo, que equacionou gravar a obra em Portugal, mas não obteve os créditos fiscais que o justificassem.

Para o produtor, que se envolveu diariamente na criação deste universo e nas gravações de ‘Collider’ em Dublin, cidade onde atualmente vive, este é o projeto mais ambicioso em que já participou, "pela sua complexidade e o tempo que demorou a executar", justifica. "Já tivemos projetos mais dispendiosos e com prazos mais apertados. Mas aqui existe a complexidade de explicar o que é uma viagem no tempo, de pegar em personagens que aparentemente não teriam qualquer ligação e criar uma história."

Com tudo isto, Nuno Bernardo espera agora que ‘Collider’ seja um sucesso tão grande como duas das suas anteriores produções: ‘Diário de Sofia’, série de televisão vendida para mais de 30 países, e ‘Beat Girl’, produção que foi nomeada para os prémios Emmy.

PRODUTORA MULTIPLATAFORMA

A beActive foi a primeira empresa portuguesa especializada na criação e produção de conteúdos multiplataforma (televisão, cinema, livros e conteúdos digitais), área em que foi pioneira em 2003 com o lançamento do ‘Diário de Sofia’. Desde então, montou escritórios em Lisboa, Dublin, Londres e São Paulo. Entre as suas mais populares produções, distribuídas pela Sony Pictures, HBO, Universal Pictures e FOX Internacional, estão as séries ‘The Line’ e ‘Living in Your Car’, com Linda Hamilton, ‘Castigo Final’, ‘Beat Girl’ e o filme ‘The Knot’. Em 2012, o volume de negócios da beActive foi superior a dois milhões de euros.

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