Histórias
Fazem render o tempo
É um bem precioso, cada vez mais raro, e, no Banco do Tempo do Lumiar, serve de moeda de troca.
Por:Vanessa Fidalgo
Ter tempo é raro, mais ainda quando se trata de dá-lo aos outros. Mas se o tempo for uma moeda; se as horas, minutos e dias valerem mais qualquer coisa, arranja-se maneira de distribui-lo. Dessa ideia surgiu o Banco do Tempo Lumiar, onde há cheques, débitos e créditos, como num banco real. Quem dá - horas do seu tempo na sua área de competência ou interesse - recebe de volta um serviço de igual proporção. Mas não há matrizes rígidas. "As pessoas organizam-se informalmente, e tudo é feito no princípio da partilha desinteressada", afirma a fundadora, Irene de Freitas e Silva.
Depois, com o tempo, as contas vão crescendo e gerando juros de partilha e amizade. Talvez por ter passado a vida a correr - Irene foi professora, decoradora, empresária, pai e mãe ao mesmo tempo -, sentiu na pele como ele [o tempo] passa, nunca chega e, sobretudo, não volta atrás.
Aos 52 anos teve um enfarte do miocárdio e percebeu que estava na altura de abrandar. Com o apoio da Junta de Freguesia do Lumiar, que lhe cedeu um espaço para trabalhar, e tendo em mente o "desafio de mudar mentalidades", conseguiu que o Graal - Associação de Carácter Social e Cultural fundada em 1977 no país e inspirada na casa-mãe holandesa de mulheres cristãs - lhe licenciasse a patente para arrancar com uma sucursal. Foram "chegando clientes, com maior ou menor capacidade de investimento", mas todos com saldo elevado de vontade. Hoje, Irene orgulha-se dos seis anos de trocas entre uma microcomunidade de 190 pessoas dos 19 aos 76 anos.
TROCA DE SERVIÇOS
Alguém que durante o dia passeie a Tuca, a pequena cadela cinza de pêlo de arame de Alice Vala, é o único pedido da médica do Centro de Saúde de Moscavide. Em troca, Alice dá injecções, vacinas e conselhos, mas está "disposta a tudo, mesmo que não tenha a ver com a medicina", pois as pessoas tornam-se "melhores" quando vêem satisfeito o seu sentimento de pertença a um grupo.
"O amor é uma energia expansora do ser humano. Faz-nos avançar e dá-nos brilho. Aqui sou a Alice, não a ‘sô Dra'. E isso faz-me bem", diz a médica que, quase à beira da reforma e com os filhos criados, começava a antecipar a "solidão na cidade grande". Agora está mais acompanhada e até talentosa, depois que descobriu nos workshops de desenho da arquitecta Paula Azevedo - outra utilizadora do BTL - o jeito para reproduzir o mundo a lápis de carvão. Os workshops de Paula - aulas de desenhos ao ar livre em recantos de Lisboa - são dos serviços mais requisitados. O banco pagou-lhe com ajuda nas mudanças de casa e aulas de italiano.
A dedicada cuidadora da cadela Tuca é Sofia Romão, uma ex-professora que passou uma "vida inteira de trabalho" a sonhar com o dia em que "faria apenas o que dá prazer". Conhecia o modelo, inspirado nas cidades comunitárias do Norte de Itália, e concretizou-o ali ao lado de casa. E já arrastou a filha, Sílvia, acunpunctora e professora de tai chi, que faz a newsletter e põe as novas curas ao serviço dos outros utentes.
Teresa Cruz, jurista, nasceu com uma deficiência congénita nos membros superiores. Coisas tão simples como partir um ovo podem ser uma autêntica odisseia. E foi aí que o BTL entrou. "Ajudaram-me a preparar legumes para a sopa. Comentei, até em tom de brincadeira, que tinha de pedir esse serviço. Na mesma hora tive um voluntário", recorda. O voluntário foi Adriano Martinho, um ex-militar na reserva que o afastamento da vida profissional e o divórcio levaram a procurar soluções para não se limitar a "queimar o tempo".
Já Teresa, enaltece o carácter comunitário do projecto: "É uma forma da sociedade se organizar, estimulando o desenvolvimento da própria comunidade e dos seus membros. Problemas vão sempre haver, mas a interacção ajuda a resolvê-los".