As escolhas de Joana Amaral Dias
Cinema acidental
‘O segredo dos 'Punhais Voadores’ pode ser visto como um novo clássico. O filme do realizador chinês Yimou Zhang surpreendeu pelo arrojo visual
Por:Joana Amaral Dias
Se o Verão não lhe pede a sombra do cinema e muito menos aguenta o preto e branco, veja os novos clássicos. Assista aos chamados "já é filme de culto", em casa, depois da praia, da piscina, da melancia ou dos cortes orçamentais. Escolha o que lhe permite viajar como uma árvore. Comece pelo fim, que é como fazem os artistas. De preferência, sem aparente gravidade, com ‘O Segredo dos Punhais Voadores’ (Yimou Zhang, 2004).
O que distingue o cinema oriental do ocidental? Haverá algum elemento de ruptura que permita identificar as geografias de cada um? Ou são a mesma coisa? Para proceder a uma análise mais rigorosa, teríamos de eliminar as variáveis étnicas e paisagísticas. Pelo menos. Afinal, são características desses países/continentes e não do seu cinema. O que fica? Do lado oriental, talvez reste o exotismo dos gestos, as coreografias de sedução, sentimentalismo, humor infantil. Será suficiente?
Talvez não. O ‘Segredo dos Punhais Voadores’ tem tudo isso e muito mais. Espionagem, guerra, artes marciais, traições, ciúme, jogos duplos e triplos, melodrama. Num ritmo tal que o espectador nem tem tempo para escolher. É um filme que pasma do princípio ao fim, um épico-operático cruzado com banda desenhada. Uma orgia cinética, plástica, emocional, especulativa. Uma instalação.
O filme vai sempre um passo à frente do público. Nesse sentido, trata-se de uma fita "hollywoodesca". Ou melhor, de um filme que Hollywood gostaria muito de ter feito, provavelmente em vez de ‘O Tigre e o Dragão’ (Ang Lee, 2000). No entanto, não fez. Ora toma. E se existe aquela coisa dita magia do cinema, ei-la.
Corre 859, ano de tirania da decadente dinastia Tang. A ‘Casa dos Punhais Voadores’ é uma seita que combate a podridão do regime. As suas personagens são sobre-humanas. Trepam florestas de bambu como se a maçã de Newton nunca o tivesse tentado, voam como águias sobre os oponentes, manejam armas como deuses, lutam como se dançassem. Os milagres abundam.
‘Punhais’ é um filme devoto. Estupidamente religioso. Os seus protagonistas são arquétipos. O amor quer seduzir a honra. Mas será que ela o destrói? Serão compatíveis? Chega o dilema. Enfim, para se ganhar uma guerra, há que ser impiedoso. Mas sem coração não há largueza. A segurança, como se sabe, mata a liberdade.
No limite, ‘O Segredo dos Punhais Voadores’ pergunta: será que a autonomia dos seres humanos é uma utopia? Como qualquer obra de arte, o filme sugere sem se impor. Sobrando de sensualidade, sangue e seda, ‘Punhais’ é tão opulento quanto subtil. Oriental? É isso?
RESUMO
Na China do século IX. dois soldados, Jin e Leo, têm como missão encontrar o líder do grupo revolucionário ‘Casa dos Punhais Voadores’. Estabelecem um plano que passa pela libertação de Mei, uma bela mulher que os vai conduzir ao esconderijo do grupo. Mas nada corre como o previsto neste filme que cruza artes marciais com um detalhe na fotografia excepcional.
Realizador: Yimou Zhang
Elenco: Ziyi Zhang, Takeshi Kaneshiro e Andy Lau
DVD: OBRA DE JACQUES TATI REEDITADA
Os filmes de Jacques Tati foram reeditados. Num mundo de cacofonia sonora e visual, a sua cinematografia sobressai pela leveza irónica com que retrata o quotidiano e a evasão. A sua inteligência sensível premeia e respeita o espectador. Ideal para ver em família e com um grupo de amigos. Ou até sem mais ninguém.
Resumo: A Clap Filmes lançou em DVD quatro filmes de Tati: ‘Há Festa na Aldeia’ (1949); ‘As Férias do Sr. Hulot’ (53) , ‘O Meu Tio’ (58) e ‘Playtime – Vida Moderna’ (67)
EXPOSIÇÃO: INSTALAÇÕES NO JARDIM GULBENKIAN
Trata-se de um conjunto de peças inspiradas na anterior encarnação daquele espaço: a Feira Popular. Nesta intervenção artística ao ar livre, pode ver obras do "grafiteiro" brasileiro Kboco ou do colectivo indiano Raqs Media. Mas não abdique das sombras desenhadas pelos chapéus-de-sol de Inês Lobo.
Exposição: Verão do Próximo Futuro
Local: Jardins da Fundação Gulbenkian, em Lisboa
Datas: até 30 de Setembro
EXPOSIÇÃO: INSTALAÇÃO DE PEDRO PORTUGAL ‘GABINETE DA POLITÉCNICA’
Esta instalação arteológica tem a vantagem de apresentar dezenas de "prontos a usar" num só espaço. Insólitos fósseis, animais naturalizados, ossos. São objectos do Museu de Ciência e do Museu de História Natural. Reunidos, compõem um ambiente ‘fin de siècle’ que proporciona ao espectador uma visita compacta.
Exposição: ‘Gabinete da Politécnica’
Local: Museus da Politécnica, em Lisboa
Datas: Até 18 de Dezembro
FUGIR DE...
‘GREEN HORNET’
"Visionados em casa, aceitam-se indulgentemente alguns filmes falhados. ‘Green Hornet’ não é o costumeiro filme de super--heróis, é uma comédia retro-clássica de aventuras "para todos". Na série de TV, Kato era Bruce Lee. Na versão de Michael Gondry, as proezas acrobáticas são feitas pela câmara, capaz de solidificar o tempo. Mas, despido do 3D, o filme, já de si irregular, fica apenas insonso e pueril.
Realizador: Michael Gondry
Elenco: Seth Rogen, Jay Chou e Cameron Diaz