As escolhas de João Pereira Coutinho
Boas Decisões
‘360’ de Fernando Meirelles, que já realizou ‘Ensaio Sobre a Cegueira e ‘O Fiel Jardineiro’, tem naquele filme o melhor da sua carreira
Por:João Pereira Coutinho
O cinema gosta de lidar com os grandes temas da condição
humana: a violência; o sofrimento; o
sentido da vida e a inescapabilidade da morte.
Infelizmente, um tema crucial parecia arredado dos ecrãs: a
inevitabilidade das escolhas. O que não deixa de ser estranho: quando lemos
filosofia antiga, a começar pela estóica, encontramos meditações abundantes
sobre o assunto. As escolhas não são apenas inevitáveis para seres racionais;
elas são necessárias para evitar paralisias agónicas.
Eis o tema de ‘360’, o último filme do brasileiro Fernando
Meirelles, que começa com citação apropriada: “sempre que chegares a uma
encruzilhada, toma-a”, diz uma voz em “off”. Por outras palavras: uma decisão,
mesmo uma má decisão, é melhor do que uma indecisão contínua. Séneca, nas
“Cartas a Lucílio”, já o tinha ensinado.
Os personagens do filme seguem esta filosofia – e, com ela,
seguem com as suas vidas também. E nós com eles.
As personagens
Temos duas irmãs que optam por caminhos distintos: a
primeira pela prostituição de luxo; a segunda por um homem que mal conhece mas
com quem parte para um destino seguramente diferente.
Temos o dentista parisiense (e muçulmano) que se apaixona
pela assistente (casada) mas que, dilacerado pelo ordálio, escolhe o afastamento e o silêncio sobre o que sente.
Temos o antigo presidiário, com cadastro de abusos sexuais,
que na sua saída condicional é obrigado a escolher entre o tortuoso instinto e
o igualmente tortuoso autocontrolo.
Temos o pai que procura a filha desaparecida – um Anthony
Hopkins sempre irretocável e que oferece
o melhor monólogo de todo o filme: uma apologia da vida, e da imperiosa
necessidade de a viver, apesar dos reveses terríveis que esta por vezes nos
reserva.
Temos, no fundo, várias histórias, em várias cidades, que se
cruzam, aprofundam e enriquecem.
E Meirelles, que sempre mostrou um dedo pesado nos temperos
visuais (lembrar a histeria formal de “O Fiel Jardineiro” ou “Ensaio Sobre a
Cegueira”), desta vez vai seguindo cada personagem com elegância e fluidez, a
que não é estranho o argumento subtil de Peter Morgan inspirado na peça
clássica de Arthur Schnitzler, ‘La Ronde’. Um “puzzle” perfeito.
Moral da história? Vivemos num mundo que a tecnologia
encolheu e tornou mas pequeno e interligado. Mas esse admirável mundo novo não
alterou a matéria de que somos feitos e os dilemas que temos de enfrentar,
independentemente de nacionalidades, credos ou classes sociais: ser fiéis ou
não; arriscar ou não; tomar um dos caminhos da encruzilhada e ver para onde ele
acabará por nos levar.
Em tempos de vacas cinematográficas bem magras, ‘360’ é o
melhor filme de Fernando Meirelles e uma colheita que merece ser saboreada. lD
RESUMO: Inspirado em ‘La Ronde’, de Arthur Schnitzler,
‘360’ conta as histórias de diversas
pessoas. De Viena aos EUA.
De Fernando Meirelles
Intérpretes Rachel Weisz, Jude Law e Anthony Hopkins,
Em exibição nos
cinemas
Filme
‘Habemus Papam’
E se um dia o Papa eleito em conclave tivesse uma crise de
pânico e recusasse tamanha graça e responsabilidade? Eis a pergunta de Nanni
Moretti, que a crítica considerou blasfema.
Não sei porquê. ‘Habemus Papam’ é um retrato sobre a
fragilidade de um homem (Michel Piccoli) que sente sobre os ombros o peso de
uma missão sobre-humana. Haverá tema mais cristão do que este?
Realizador: Nanni Moretti
Em DVD
Llivro
‘Um Ensaio sobre a Constituição da Europa’
O ensaio de Habermas sobre o futuro da Europa merece ser
lido para perceber como funciona a cabeça utópica de alguém que se apresenta
como antiutópico: a União Europeia vive uma “crise de confiança”? Sem dúvida.
Mas isso não se resolve, ao contrário do que defende o autor, pela construção
“artificial” de uma democracia transnacional europeia.
Autor: Jürgen Habermas
Editora: Edições 70
Disco
‘Queen of Denmark’
Ninguém sabia quem era John Grant antes de ‘Queen of
Denmark’: os seus anos como vocalista da banda The Czars não deixaram marcas.
Essa indiferença terminou em
2010, quando a Mojo elegeu este disco como o Melhor Álbum a Solo
do ano. Justíssimo. Grant é um notável compositor e intérprete – e uma das
vozes mais impressionantes do moderno pop americano.
Autor: John Grant
Fugir de
‘O Exótico Hotel Marigold’
O filme tinha tudo para dar certo. A começar pelos actores (Judi Dench, Maggie
Smith, Penelope Wilton, etc.). Infelizmente, fica-se pelo postal ilustrado
sobre um grupo de veteranos que parte para a Índia em busca de um ânimo final.
Maior cliché, não há. E ainda está por aparecer um filme com igual cenário, mas
onde este tipo de aventuras terminam mal e com disenteria à mistura.
Em DVD