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25 Maio 2012

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Mariline Alves

Óscar Machado na semana em que foi agredido pelo filho com murros e pontapés

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A violência não se reforma

Entre 2000 e 2009 os crimes contra idosos cresceram 120%. Realidade dura expressa nas palavras de quem tem medo.

Por:Marta Martins Silva

 

 

Alberto, 80 anos, foi apedrejado por um grupo de rapazes. Tanto insistiram na agressão que o idoso acabou por cegar de um olho. O casal Francisco e Judite, ambos na casa dos 70, fugiram do apartamento onde moravam, num bairro em Lisboa, para um casebre na Margem Sul, para escaparem ao vizinho toxicodependente que constantemente os roubava no dia de levantarem a reforma. Regressaram a casa quando souberam da morte daquele que os impediu de ter uma velhice tranquila durante vários anos.

Fátima, 75 anos, era obrigada a dormir no chão da sala e volta e meia era encontrada de volta dos caixotes do lixo junto aos supermercados à procura de alimento. Joaquina, 80 anos, acamada e doente, foi violada pelo irmão vezes sem conta dentro das quatro paredes da casa de onde não saía por falta de mobilidade, até os vizinhos denunciarem a situação e deixarem a descoberto um crime horrendo.

Os nomes daqueles que até aqui foram citados são fictícios mas foram contados à Domingo por pessoas que diariamente lidam com estes casos: instituições, associações de moradores, linhas de socorro, gente próxima dos que sofrem. Porque as histórias de agressão a pessoas com mais de 65 anos são reais e mostram uma realidade tão crua que não precisa de nomes verdadeiros. Exige mudança.

NÚMEROS NEGROS

Em 2009, 639 pessoas idosas foram vítimas de violência – ou seja, cerca de 13 por semana – denuncia a Associação de Apoio à Vítima. Segundo a APAV, os crimes contra os idosos aumentaram 120% entre 2000 e 2009. Só em Setembro de 2010, a Linha do Cidadão Idoso, um serviço do Provedor de Justiça, recebeu 27 chamadas a denunciar maus tratos a cidadãos que mereciam ter chegado a esta fase da vida com menos desassossego.

A uma outra linha de apoio telefónico, a SOS Voz Amiga, 155 idosos confessaram aos voluntários ideias de suicídio e vontade de morrer, de Janeiro a Agosto deste ano. Os números, ao contrário das palavras, não se escondem atrás de adjectivos. São o que são. Estes são duros.

ESFAQUEADA NA RUA

Leonor Costa tem 70 anos e engrossou os tais números que não mentem em Junho deste ano. Tanto que nunca mais fez o mesmo caminho, até ao supermercado onde habitualmente abastece a despensa da casa onde vive com a irmã – desde que foi violentamente agredida às dez da manhã de um sábado que tinha tudo para ser pacato, por causa de uma carteira com 16 euros.

Hoje, meses depois de ter sido esfaqueada no abdómen – precisamente no sítio de uma cicatriz fruto de uma operação aos intestinos – garante que desde então não ficou "boa da cabeça" e que ganhou "mais medo de sair à rua". O frango que então ia compor o almoço ficou por comprar porque ficou estendida num cruzamento em Alcântara a esvair-se em sangue antes da ambulância chegar. "Desse dia só me lembro que senti muita, muita dor, uma dor terrível, e que gritei até poder".

Foi operada de urgência e sobreviveu embora tenha estado num limbo difícil. "Ainda hoje tenho pesadelos à noite com aquilo que vivi, foi um tormento". Nunca fiz mal a ninguém por isso não merecia ter passado por isto". Não há qualquer justiça no sofrimento mas há um padrão de fragilidade que os agressores aproveitam.

"Os idosos são, pela sua debilidade física e por vezes também por questões socioculturais, o segmento populacional mais vulnerável. É possível instalarem-se quadros de medo, ansiedade, abrangendo dificuldades de deslocação, pelo receio de sofrerem nova vitimação. Conheci uma senhora, altamente diferenciada em termos intelectuais, que, depois de uma vitimação na via pública, em que foi roubada e agredida de forma violenta, implicando um longo período de internamento, sofreu sequelas físicas e psicológicas", contextualiza o professor de Psicologia Forense Carlos Poiares, que preside também à PSIJUS, uma associação que promove a inclusão dos cidadãos mais idosos.

Se Leonor passou a temer cada saída à rua, Maria Alexandrina, de 75 anos, tranca-se em casa depois do sol se pôr desde que lhe roubaram "os ouritos que punha para ficar bonita" no eléctrico 28 – um dos mais turísticos de Lisboa – no regresso da fisioterapia. "Eram dois fios grandes, duas medalhas de ouro e dois crucifixos, coisas lindas que vinham dos meus antepassados, foi isso que mais me doeu. Não consegui dormir: chorei, chorei, chorei e não me fizeram mal, foi mesmo por amor às coisas. Tenho fracas posses mas andei a correr todas as casas de ouro em segunda mão a ver se recuperava os meus pertences. Já lá vão três meses e estou muito mais desconfiada: para mim, nos transportes, agora todos podem ser gatunos".

A FOTOGRAFIA DO MARIDO

Natalina David, a amiga que encontra nos bordados na Junta de Freguesia de São Nicolau, na Baixa lisboeta – durante uma sessão de policiamento de proximidade em que se arrumam as agulhas e os dominós para ouvir os conselhos de segurança dos agentes –, também sofreu fado igual: no último ano a idosa de 73 anos foi assaltada duas vezes: "Olhe, eram uns cinco, fizeram-me um cerco no eléctrico, isto porque eu tinha uma dor no ombro e pus a mala pendurada. Levaram-me tudo. Mas sabe o que mais me custou? Não foram os 40 euros, não foram os documentos, nada disso. Foi terem levado a fotografia do meu marido, que já faleceu. Guardava aquela com muito carinho, era especial. Se pudesse recuperar uma coisa era só isso que pedia".

A casa onde mora, em Alfama, também já recebeu visitas alheias que não foram convidadas. "Reviraram as camas, os guarda-fatos, as gavetas. Deixaram as luzes todas acesas e o frigorífico aberto. Ainda hoje tenho medo que voltem. Tenho andado com a minha cabeça num novelo que eu sei lá".

FAMÍLIA É LUGAR PERIGOSO

Mas os números também esclarecem que não é só na rua que o perigo espreita. Aliás, muitas vezes não é, dizem as estatísticas e as queixas – envergonhadas – dos que pedem ajuda para escapar de um agressor nada desconhecido. Os filhos são, perversamente, a maioria que agride os idosos em Portugal.

É por isso que Óscar Machado, de 84 anos, nos garante que o único filho que tem "é o que vive na África do Sul" – não é o que lhe entrou pela casa em Agosto do ano passado e o "agrediu por causa de uma arca frigorífica". O idoso queria vendê-la mas o filho não estaria de acordo, partindo para uma agressão que Óscar jamais esquecerá.

O psicólogo criminal Carlos Poiares sublinha que " nas suas próprias casas muitos idosos são vítimas de violência física, psicológica, sexual e económica, alguns estando ‘sequestrados’ por aqueles com quem vivem ou vendo as suas pensões confiscadas por alegados cuidadores. Por vezes, a família é o lugar mais perigoso do Mundo". Para Óscar, pelo menos, foi.

"Vi a morte à frente quando o meu filho me deu um murro que me partiu um pulso e tantos, tantos pontapés. Nunca antes disso tinha sido agredido, entrado numa esquadra, tribunal ou o que fosse. Foi preciso chegar a velho para sofrer desta maneira. Mas não tenho medo, tenho infelicidade. Antes na minha casa, no Natal, eram 24, 25 pessoas. Agora sou só eu. Mas digo-lhe que preferia ver o Diabo a ver o meu filho. Sou católico mas não perdoo, não consigo".

Segundo o idoso, natural de Alhandra, o filho sempre causou problemas. "A minha ex-mulher via-me sair para trabalhar à noite e deixava-o entrar a ele. Fartava-se de me roubar". A exploração económica é uma das queixas mais frequentes que chegam à linha telefónica do Provedor do Idoso. Muitas vezes está associada a toxicodependência. "Já ouvimos desde o caso da neta que só visitava o avô no dia em que ele recebia a pensão – para ficar com ela – a uma idosa que foi posta na rua pela família por acharem que ficava muito dispendiosa. Isto depois de lhe gastarem o dinheiro".

Segundo as juristas da linha, "os vizinhos também são, muitas vezes, aqueles que maltratam os idosos. Não é violência ide doso para idoso, é o vizinho de segunda geração, os filhos dos vizinhos – muitos têm procuração dos familiares para cuidar deles e aproveitam-se disso para explorar e maltratar".

AQUI HÁ GATUNOS

Durante a sessão de conselhos de segurança, Maria da Conceição Dias confidencia à Domingo que leva "sempre o dinheiro preso nas meias". Ao lado dela, uma outra Maria da Conceição – Pinheiro – mostra levar tão a sério as indicações do agente que nem larga a mala junto ao colo. "Sabe o que é me aconteceu há dois ou três anitos? Estava na janela da minha casa [onde mora sozinha], que é um 5º andar, e ouvi dois larápios a combinar roubarem-me. ‘Vamos assaltar a velha’, disseram eles um para o outro. Mas não tiveram sorte, sabe porquê? Eu fui professora em Trás-os-Montes e sei ler nos lábios por isso apanhei-os. ‘Aqui há gatunos’, pensei eu. ‘Já os tramo’. Fui buscar a pistola com que o meu netinho brincava e eles acharam que era verdadeira. O primeiro a subir levou um pontapé que caiu escada abaixo, o sangue escorria pelos andares todos. Galgou tudo e até acho que ele partiu a cabeça".

Depois da tentativa, Maria da Conceição Pinheiro comprou mais segurança. "Arranjei uma porta daquelas mesmo fortes, como as da rua, e até pus um alarme. E felizmente que a reforma é o meu filho que a vai buscar ao banco, tinha medo de a ir buscar sozinha" – aqui já parece a velhinha curvada e pequena que na realidade vemos.

Maria Guerreiro também tem um ar frágil. Na rua, mesmo que não tenha dinheiro na carteira nem objectos de valor, não consegue evitar "olhar para todo o lado. Os passos, estou sempre atenta aos passos no passeio e às vozes". Há dois anos foi assaltada perto de casa mas as marcas emocionais perduram. "Um jovem puxou-me a carteira com tanta violência que caí de frente para o chão. Parti a cara, o nariz e o braço em vários sítios". Tinha 88 anos e foi internada. Alda Costa tinha 74 na última das vezes – foram três – que lhe levaram o que tinha.

"Ia comprar peixe ao Martim Moniz e um rapaz veio a correr, a correr para mim e arrancou-me os fios do pescoço, até fiquei com marca. Um deles tinha sido o meu marido a dar-me, outro tinha um dente do meu neto, que está tetraplégico". Das outras vezes, "pronto, levaram-me só dinheiro – uma vez 75 contos da pensão, foram duas raparigas que andaram que tempos atrás de mim – mas o dente do meu neto foi o que mais me custou". Os "mais envergonhados" – contam os técnicos – não dizem nada. Culpam calados a vida que nem na velhice lhes foi simpática. Porque atrás dos números há muitas histórias. E nem todas têm um final feliz.

NOTAS

IDOSOS

Em Portugal, continente e ilhas, o total da população idosa (com mais de 65) é 1 901 153.

UM TERÇO

Daqui a 40 anos a população idosa vai representar 1/3 do total da população portuguesa.

FILHOS

Representam a maioria dos agressores (37,2%), maioritariamente são os homens.

DEZENA

A linha telefónica do Provedor do Idoso recebe entre 10 a 12 chamadas por dia. 

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