Histórias
A queda de um gigante... com pés de barro
Com 91 anos, a Fábrica de Cerâmica Valadares está a um passo da falência. Os trabalhadores estão em luta há duas semanas
Por:Secundino Cunha / José Carlos Marques
Na grande crise dos anos oitenta do século passado, centenas de trabalhadores da cerâmica Valadares aceitaram sanitas, bidés e lavatórios como forma de pagamento de parte do salário. A fábrica, como hoje, tinha falta de liquidez e o aumento salarial de 500 escudos por mês, reivindicado em vários dias de greves e protestos, era considerado incomportável. A proposta de atribuir uma determinada quantidade de loiça sanitária a cada funcionário acabou por ser aceite e os fornos ligaram-se para mais 30 anos de acesa laboração.
"Nessa altura, a loiça vendia-se facilmente e a bom preço. Hoje ninguém a quer", afirma José Antunes, assegurando que essa medida, na crise actual, não teria sucesso.
José é um dos mais de 340 operários que, desde o dia 31 de Janeiro, montam piquete à porta da fábrica, impedindo a entrada e saída de camiões.
Em causa estão dois meses de salários em atraso e fortes suspeitas de que a fábrica esteja a um pequeno passo da falência. "Diz-se por aí muita coisa, mas o que interessa realmente é assegurarmos aquilo que é nosso. É que se esvaziam a fábrica nós ficamos a ver navios", afirma o delegado sindical Alberto Silva, que já apanhou "uma valente gripe por causa de duas noites geladas passadas ao relento".
MARCA DE SUCESSO
Aos 91 anos (fundada no dia 25 de Abril de 1921), a maior cerâmica do Norte e uma das mais emblemáticas do País atravessa a mais grave crise da sua já longa história.
Já teve mais de dois mil trabalhadores, mas os avanços tecnológicos foram dispensando operários. Além disso, no final da década de oitenta, a administração acabou com a produção de tijolo, de mosaico e azulejo e do famoso cimento-cola, que nasceu precisamente nesta fábrica de Gaia, para concentrar todas as energias nas loiças sanitárias.
E a verdade é que, pelo design inovador e pela qualidade dos materiais, conquistou o País e o Mundo. O que terá acontecido para que deixasse de haver dinheiro para salários e para que o espectro da falência se abatesse sobre uma das mais sólidas empresas de Portugal?
"Nós sabemos que cá a construção civil está parada, mas 60 por cento da produção desta fábrica era exportada para mercados como Angola e Emirados Árabes Unidos. Portanto, não colhem as desculpas da administração", afirma Alberto Silva.
FAMÍLIAS A PASSAR FOME
A alegada existência de um comprador, que pretenderá uma empresa "mais magra", é apontada como a causa de tudo isto. "Já se sabe que, com metade dos trabalhadores, a fábrica terá outro valor. Só não sei como poderá funcionar", assegura Manuel Rocha, oleiro na Valadares há quase trinta anos.
A desconfiança, por parte dos trabalhadores, é cada vez maior. E o facto de a administração ter prometido no sábado pagar um dos salários e ter dito na segunda que, afinal, não havia dinheiro, não ajudou nada.
"Há aqui gente que já não tem dinheiro para comer. Para não falar dos que estão atrasados na prestação da casa ao banco e daqueles a quem já cortaram a luz", diz Maria Laura Moreira, de 49 anos, vinte deles passados na fábrica.
"Quando é que nos pagam? Vocês sabem?", pergunta, em desespero, Ivone Sousa, uma ajudante de armazém com 50 anos de idade, supondo que os jornalistas têm alguma informação útil. "Isto está muito difícil, muito mesmo. O meu marido também trabalha aqui, é oleiro, e há dois meses que não nos entra um cêntimo em casa. E as contas não perdoam", acrescenta Ivone, sublinhando que "só gostava de saber quando é que eles pagam". Abílio Lima foi mais cortante: "Andei 27 anos a fazer retretes para agora estar na merda".
MAIS DO QUE A FÁBRICA
A quase certa falência da Cerâmica Valadares não preocupa apenas os 400 operários que lá trabalham. O comércio da freguesia teme ser arrastado pela torrente.
"Nós vivemos à sombra da fábrica. Se fechar, vai ser muito difícil sobrevivermos. Digo-lhe que estou muito apreensivo", afirma Paulo Manuel Silva, dono do restaurante Bracarense, a dois passos da fábrica.
Também a autarquia de Gaia se mostra preocupada. Não foi por acaso que o presidente, Luís Filipe Meneses, recebeu os trabalhadores, prometeu aumentar o índice de construção dos terrenos (170 hectares) da fábrica, no sentido de os valorizar e de permitir maior margem de negociação da empresa com os bancos, e deu ordens aos serviços municipais para que os filhos destes funcionários não paguem as refeições nas escolas e para que não seja cortada a água em caso de falta de pagamento.
ONDA SOLIDÁRIA
Há doze dias que os operários se revezam na vigilância das entradas e saídas. A solidariedade é grande. O PCP serve refeições à noite, a União dos Sindicatos do Porto garante lenha para as fogueiras, os bombeiros locais levam bebidas quentes, cobertores e prestam assistência médica em caso de necessidade e os moradores ajudam com o que podem.
"A nossa força é muita. Trabalho aqui há 38 anos, tenho 62 e não vou na cantiga deles. Sim, porque o que eles querem é que a gente suba as escadas e lhes peça a carta [para o desemprego]", afirma o oleiro António Barbedo. Na quarta-feira desligou-se o último dos três fornos de uma fábrica que produzia 50 mil peças de loiça por mês.
"A NOSSA VIDA FOI TODA ALICERÇADA NESTA FÁBRICA"
Maria Laura, 49 anos, e Manuel Moreira, 48, formam um dos 32 casais em que ambos trabalham na Fábrica de Cerâmica Valadares. "Tínhamos uma vida muito bonita. Trabalhávamos muito, mas ganhávamos, os dois, entre 1800 e 1900 euros por mês. Agora acabou tudo", diz Maria Laura, sem esconder a revolta.
"A nossa vida foi toda alicerçada nesta fábrica. O fim disto, para nós, é uma tragédia", acrescenta Manuel Moreira. Maria e Manuel têm duas filhas: uma de nove e outra de 18 anos. A mais nova anda na escola e a mais velha na universidade.
"Ela estuda em Aveiro. Não sei se vou ter dinheiro para as propinas", diz Maria Laura, referindo que ficou com o "coração partido" quando, na 2.ª feira, a menina mais nova lhe perguntou: "Ó mãe, nós agora vamos passar fome?".
EMPRESAS NACIONAIS CHEGARAM AO FIM
Em Fevereiro de 2010, Carla Cunha e mais 220 colegas decidiram-se pelo ‘basta!’. Com meses de ordenados em atraso e sem perspectivas de futuro, as funcionárias da Macvila rescindiram unilateralmente os contratos e foram para o desemprego. Foi um dos capítulos finais da Maconde, empresa têxtil fundada em 1969 com capital holandês em Vila do Conde. Nos tempos áureos, a empresa chegou a ter 2000 funcionários a laborar nas cinco fábricas de Braga, Vila do Conde, Póvoa de Varzim e Maia e uma rede de lojas com balcões abertos em todo o País.
"Entrei para a Maconde em 1990, tinha 16 anos. Estive lá por 10 anos, até que começaram a surgir problemas. Em 2000, a Maconde foi dividida em duas empresas, a Macvila e a Mactrading. Fui para a Macvila, em Vila do Conde, onde estive mais 10 anos até me vir embora, em 2010", conta Carla Cunha, que foi porta-voz da comissão de trabalhadores que tentou por tudo evitar o fim da empresa.
"Houve problemas na sucessão. Depois de os sócios originais se terem afastado foram atribuídas funções de gestão a pessoas que não dominavam o sector têxtil", aponta Carla.
Depois de deixar a Macvila, Carla Cunha inscreveu-se no centro de emprego. "Ao fim de nove meses arranjaram-me um emprego noutra empresa têxtil, a PAL". O fantasma da falência voltou a assombrá-la: "Em Agosto do ano passado, quando voltámos de férias, a empresa estava fechada. Ninguém nos avisou de nada".
Carla, com 37 anos, e as colegas saíram da Maconde com 18 salários mínimos, pagos pelo fundo de garantia da Segurança Social. Nunca receberam um tostão da indemnizações. Meses depois, fechou a Mactrading, despedindo os últimos 70 funcionários. E assim acabou a Maconde.
FÁBRICA CENTENÁRIA
Em 1845, instalou-se nas margens do rio Almonda uma nova fábrica. Nasceu assim a Companhia Nacional de Fiação e Tecidos de Torres Novas (CTN), que se dedicava ao fabrico de toalhas de tecido turco, roupões e chinelos.
Durante 166 anos, a fábrica exportou para todo o Mundo, mas não resistiu aos efeitos de uma palavra que entrou no léxico comum: globalização. As produções têxteis da China e de outros países asiáticos deixaram a fábrica torrejana sem margem de manobra. Em Agosto de 2011, a empresa fechou. Dos 1000 funcionários que chegaram a laborar ali, já só restavam cerca de 170.
O advogado João Viana Rodrigues representou os trabalhadores no processo de insolvência: "Ainda houve um projecto da Lanidor para comprar a empresa, mas nem os credores nem os trabalhadores acreditaram na viabilidade da fábrica. Foram todos para o desemprego. Ainda não receberam qualquer indemnização e nem o dinheiro do fundo de garantia lhes chegou. A maioria está desempregada e há poucas perspectivas de arranjar trabalho numa região com pouca indústria".
A insolvência ainda corre nos tribunais, adiando para data incerta a possibilidade de os trabalhadores serem compensados.
O FIM DA CHARLES
Conhecida pelos seus anúncios irreverentes, a cadeia de sapatarias Charles teve um fim abrupto no Verão de 2010, quando 35 lojas foram encerradas de uma vez, por ordem do Fisco. As dívidas ao Estado e aos credores ditaram o fim de uma marca que chegou a dar emprego a 1100 pessoas, entre a fábrica de Oliveira do Douro (Vila Nova de Gaia) e as lojas em todo o País. As tentativas de converter as sapatarias em lojas de roupa e acessórios de moda fracassaram e 196 pessoas perderam o emprego. Há muito que a empresa vivia com ordenados e subsídios em atraso.
Em Guimarães, a fábrica de cobertores Josim aguentou durante 60 anos a concorrência. Mas a crise económica fez as encomendas cair a pique e, em Maio de 2008, a Josim atirou para o desemprego 120 trabalhadores.
A crise belisca até as empresas que têm encomendas garantidas. E nem Ludgero Marques, antigo presidente da Associação Empresarial de Portugal, escapa. O grupo Cifial, detido por Ludgero, faz ferragens e loiças de casa de banho e teve de recorrer ao lay-off (procedimento em que os trabalhadores são enviados para casa com cortes no ordenado).
Justino Pereira, dirigente sindical que tem negociado pelos trabalhadores da empresa, explica a crise: "A Cifial é uma empresa com futuro. Tem muitas encomendas mas, por causa da crise, os fornecedores de matérias-primas passaram a exigir pronto pagamento, o que a empresa não conseguia garantir. Foi isso que levou ao lay-off, mas hoje as coisas estão melhores".
Todos esperam que a Cifial escape ao destino da gigante Rohde, a multinacional do calçado que protagonizou uma das maiores falências dos últimos anos – em 2010 deixou no desemprego 980 trabalhadores portugueses.
Com exemplos destes, e ainda há quem defenda que os trabalhadores da "Valadares" deviam continuar a trabalhar sem receber! Pois bem: as boas contas é que fazem os bons amigos. Haja honestidade!