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23 Julho 2014

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Aloé Vera

A cura dentro do convento

Doenças como o cancro, cirrose, diabetes encontram tratamento na medicina tradicional. Mas há quem, na esperança, uma esperança imensa contra todos os desígnios, procure nos conventos franciscanos a cura num xarope de aloé.

Por:Bruno Contreiras Mateus e Mário Fernandes

 

O folheto parece a posologia de um medicamento, o xarope dos franciscanos. “O cancro tem cura? Numa grande percentagem tem. Como? Usando os poderes curativos de uma planta.” A ‘aloe arborescens’, também conhecida por aloé vera.
As pessoas têm medo da doença e da morte e muitas procuram os poderes ‘milagrosos’ de uma poção vendida no Seminário da Luz, Lisboa, à qual se junta uma fotocópia com esta indicação – sobre a doença que famílias inteiras nem pronunciam o nome por superstição.
“A fé deve existir e nós temos de transmitir ao doente que acredite na cura”, afirma Helena Gervásio, presidente da Sociedade Portuguesa de Oncologia. “Mas não posso aceitar que sejam dadas notícias deste modo.” E de cura também se fala nos conventos do Varatojo, em Torres Vedras, e de Montariol, com vista para Braga.
O frei Francisco recebe a Domingo no Seminário da Luz e avisa logo que não quer ver o seu xarope misturado com o de outros ‘irmãos’ franciscanos. Defende que o que por ali se vende é original, fidedigno à receita exportada do Brasil pelo frei Romano Zago. Mais, o próprio sacerdote franciscano brasileiro dispara contra a medicina: “Normalmente, o médico orienta-se – como em qualquer outra profissão – pelo que estudou nos bancos escolares. E não sai disso.
De mais a mais, com toda a estrutura existente hoje para tratar o cancro, não seria um ‘xaropinho besta’ que iria substituir a medicina. Tratar cancro com o xarope não dá lucro. O que dá dinheiro é a intervenção cirúrgica, radioterapia, quimioterapia” (ver entrevista).
Longe de ser uma guerra entre a fé e a medicina, Helena Gervásio – médica no Instituto Português de Oncologia de Coimbra – aconselha os seus doentes a não tomar nada enquanto estão a fazer rigorosamente os tratamentos, porque “a toxicidade cumulativa pode, muitas vezes, prejudicar o doente pondo-o até em risco de vida”. Mas não afasta a hipótese de que haja plantas medicinais.
Por experiência própria – nas palavras seguras de um homem que não se deixa enganar facilmente –, o frei Francisco, com 83 anos, abona que o poder do xarope “não é milagre, é a medicina que Deus deixou nas plantas”.
CURAS
Primeiro enumerou, vagamente, muitas curas em Gondomar: o caso de uma menina com pouco mais de três anos, de Guimarães, que “limpou o cérebro”; a cura de um caroço na garganta a uma senhora de Palmela. Depois, num fôlego corajoso, o frei Francisco confessou: “O primeiro curado sou eu!”. E prossegue, gesticulando, numa recordação escorreita: “Quando este remédio [xarope de aloé vera] chegou, estava doente da próstata, há quatro anos.” O relatório médico ditava que o ‘irmão’ franciscano precisava de ser operado.
“É escusado dizer que fiquei chocado. Tomei quatro garrafas e encontrei-me em melhor condição. Esperei dez dias e tomei outras três e repeti ao fim de dez dias.” E decidiu procurar o mesmo médico: “Já não preciso de ser operado. – Então porquê? – perguntou-me. Respondi que tomei dez garrafas de xarope e que estou bom.” Depois de novo exame, perguntou-lhe o clínico: “O que você fez que limpou tudo?” Agora bebe seis garrafas por ano, sem esquecer: “Estava à espera da morte, mais dia menos dia.”
No Seminário da Luz, o preço da garrafa cifra 7,50 euros. E há quem chegue a levar para a vizinhança, caso venham de longe. Para chegar ao balcão, os visitantes têm primeiro de passar pela recepção e só depois são dirigidos a uma sala pequena, onde o xarope repousa dentro de armários metálicos.
A dita poção é lá cozinhada, mas não permitiram que fossem visitadas essas instalações. A Domingo abordou três pessoas vindas de Gondomar. O frei Francisco não aconselhava, só que, a troco do anonimato, um dos homens explicou que sofria de problemas pulmonares. “Coisas graves”, acrescentou. “Claro que estou com esperança.” A mesma que o faz tomar o xarope há três meses sem qualquer garantia.
Todas as tardes, no convento franciscano de Montariol, no alto da colina que viu nascer Braga, o frei Henrique Perdigão, de 67 anos, dedica-se a fazer a poção mágica. Das plantas de ‘aloe arborescens’ – vulgar aloé vera –, o franciscano retira os picos, lava e corta em pedaços. As folhas esquartejadas caem na misturadora.
O aparelho tritura e às folhas junta-se o mel e a aguardente. Volta a misturar (ver receita). “E tudo na dose própria, conforme os casos”, frisa o irmão, chamando a atenção para os riscos das imitações rascas feitas por gente que só procura ganhar dinheiro.
À porta, juntam-se dezenas e dezenas de pessoas. As situações de cancro em fase terminal são as mais frequentes. Mas “aparece de tudo”, garante o frade. Diz que o xarope faz bem a muita coisa. “Purifica o sangue”.
É simples, o precioso líquido parece uma espécie de batido de cacto aloé. Só que é preciso cuidado na escolha da planta: “Das mais de 200 variedades, há muitas que são tóxicas e venenosas”, adverte o frei Perdigão que prefere cactos plantados à beira-mar. São mais suculentos – mas têm também as suas plantações, para o caso de faltar. Recebeu a fórmula, há 12 anos, do frei Romano Zago.
Licenciado em Teologia e especializado em Enfermagem, o frei Perdigão tratou ainda de criar variantes do xarope para casos especiais. Como a diabetes. Nesta situação, adiciona-se um líquido extraído da raiz de uma planta originária da África do Sul. Ou os carenciados de vitamina E, para os quais o frade recorre a um produto do Egipto, vendido em França. Para isto, valem-lhe os amigos.
“Não levamos dinheiro, mas também nunca falta nada. As pessoas é que têm de trazer o mel. Os cactos eu arranjo-os, mas às vezes aparecem-me à porta montes deles”, reconhece o irmão franciscano, que não deixa nenhum doente ir embora sem uma conversa amiga. E, “muitas vezes, basta uma pequena conversa que o homem se esquece que está doente e lá vai todo arrebitado”.
FREI ANTÓNIO COUTO
Aparentemente com menos conversa o frei António Couto até chega a adormecer atrás da secretária no Convento de Santo António do Varatojo, Torres Vedras. “Se não me dizem nada, também nada digo.” Mas a verdade é que o sacerdote revela bom sentido de humor. “Tenho 82 anos.
Se fosse italiano, tinha 83; se fosse chinês, tinha 84”, graceja. Conta que quem ali compra diz estar em “busca do xarope milagroso” e sempre com histórias de vida incríveis. “Têm-se curado alguns cancros; quanto à cirrose, tenho ouvido dizer que é incurável e temos curado algumas.”
O frei Couto vende por sete euros um xarope forte para o cancro, outros para a próstata, diabetes e fígado (cirrose). Quatro euros custa uma pomada, por exemplo, para sarar feridas, queimaduras ou rejuvenescer a pele.
Pode-se também adquirir – entre bíblias, terços e imagens religiosas – pólen (para o cérebro) e magnésio (para os ossos). “A percentagem que temos das vendas”, avança o frei, reverte a favor da comunidade e da casa de crianças na ‘Obra do Padre Abel’, em Caneças. Em média, o frei atende 30 pessoas por dia.
As plantas chegam de Portimão à aldeia de Varatojo. Mas aqui o xarope de aloé vera não se fabrica no convento. Salvador Torres é que o cozinha em sua casa. A Domingo encontrou-se com o vizinho dos ‘irmãos’, mas escusou-se a revelar o fabrico. Adiantou que é diferente dos que se fazem nos outros conventos. Segundo o frei, a filha de Salvador terá estudado medicina natural e é lojista no centro de Torres Vedras. Talvez seja o apoio para desenvolver novos produtos.
Adão Martinho, com 63 anos, descobriu o xarope na tentativa de salvar a sua mulher de dois quistos nos ovários. “Isto não serve para curar, mas evita a progressão da doença.” E garante que o volume dos nódulos diminuiu em três anos e meio.
Já fora do Convento do Varatojo, o enfermeiro na reforma – cabelos grisalhos, estatura média e caminhando a passos largos – regressa ao carro balanceando um saco que denuncia duas garrafas. Há sete anos que o ritual se repete. “Encontrei neste produto algo de importante, sobretudo para a manutenção física através da purificação do sangue.”
A Domingo seguiu a pista de que outros conventos vendem o xarope. No Convento da Cartuxa, um frade revelou que “existe uma planta fora da clausura. Não fazemos nada com ela porque não é autentica e porque somos monges.” As irmãs franciscanas de Santo Tirso também rebateram que se venda naquela comunidade.
O VERDADEIRO ALOÉ VERA
RECEITA PARA FAZER XAROPE
Os frades franciscanos só usam xarope feito com a planta ‘aloe arborescens’, conhecido por aloé vera. Aconselham a tomar duas colheres de sopa (ou três) entre 30 a 15 minutos antes das três refeições principais.
Lavar as folhas, retirar os picos e cortá-las aos pedaços. As folhas devem ser de plantas com mais de quatro anos (nunca verdes).
Colocar duas folhas (três se forem pequenas) numa picadora ou num copo de misturadora e triturá-las até formar uma papa.
Junte às folhas, na misturadora, meio quilo de mel e três a quatro colheres de sopa de aguardente, conhaque ou uísque.
Coloque o preparado em garrafas opacas ou de vidro escuro. No Verão convém conservar o ‘xarope dos franciscanos’ no frigorífico.
'LAMENTO NÃO DAR GARANTIAS'
FREI ROMANO ZAGO
Ordem Franciscana Menor (Brasil)
Livro: Escreveu ‘Câncer tem Cura’, editado pela Vozes (Brasil)
Como chegou à receita?
– Vem da natureza, usando aloé, mel e bebida destilada, sem submetida ao calor. A receita corria entre as populações pobres da periferia [no Brasil]. Não dispondo de recursos, apelavam àquilo que encontravam na natureza.
É um bem divino para as maleitas?
– Certamente, a receita, tão natural e tão simples, deve ser um bem divino da nossa natureza posto à disposição das criaturas, como tantos outros.
A cura não virá da fé?
– No caso da receita são as propriedades medicinais que se encontram na planta, já com comprovação científica, as responsáveis pela cura. Há, porém, pessoas dotadas de tão grande fé que, só apelando para tal virtude, podem alcançar a cura de seus males.
Tem a noção de que falar num xarope que cura cancro é dar esperança?
– Oferecer esperança ao doente é a grande aposta. Imagine a pessoa que chega ao fim do túnel e não vê saída! O que eu lamento é não poder dar garantias. Isso apenas Deus pode oferecer...
Como se prova a cura?
– Pelos profissionais da saúde.
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