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As escolhas de João Pereira Coutinho

A casa inglesa

‘Downton Abbey’ é a excelência da produção inglesa. A vida dos ‘Crawley’ e dos criados é obra para ombrear com ‘Reviver o Passado em Brideshead’

  • 26 de Fevereiro 2012, 00h00
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  • Comentários (1)

Por:Por João Pereira Coutinho

 

Costuma dizer-se que ninguém bate os ingleses nas séries inglesas. A frase é divertida pela sua evidente redundância; mas é enganadora também. Em 1981, a Granada Television filmou ‘Reviver o Passado em Brideshead’ e o mundo derreteu com a história de amor entre ‘Charles Ryder’ e ‘Julia Flyte’, tal como idealizada por Evelyn Waugh no romance homónimo de 1945.

Mas seremos capazes de citar outra série inglesa de luxo que deixou marcas profundas na memória dos cinéfilos? Sim, o ‘Orgulho e Preconceito’, da BBC, seria um candidato possível. Mas o leitor ainda se lembra mesmo da ‘Elizabeth’ e do ‘Darcy’ dessa adaptação de Jane Austen? (Para que conste: eram Jennifer Ehle e o então principiante Colin Firth.)

DEPOIS DE ‘TITANIC’

Pois bem, chegou a série que destronou ‘Reviver o Passado em Brideshead’, o que é dizer muito. Foi escrita por Julian Fellowes (o argumentista premiado de ‘Gosford Park’, de Robert Altman) e pretende recriar o mundo fantasmagórico que antecedeu, mas não sobreviveu, à Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

Fellowes concentra-se assim nos aristocráticos ‘Crawley’ e inicia a narrativa no dia em que os jornais anunciam o naufrágio do ‘Titanic’. É um presságio, claro: em 1912, a arrogância humana e a confiança cega no poder da técnica acabariam por esbarrar com um icebergue nos mares do Atlântico. Mas essa arrogância e essa cegueira teriam um embate ainda mais mortífero com a guerra que chegaria dois anos depois do naufrágio e que alteraria para sempre a história (e a sociedade) europeia.

Na família ‘Crawley’ vemos essas dinâmicas de mudança: a oposição permanente entre a nova era, simbolizada pelas aspirações ‘feministas’ da filha mais nova, ‘Sybil’, e a velha ordem, personificada pela matriarca da família, ‘Lady Violet’, um papel à medida de Maggie Smith. A ela pertencem as melhores frases da série: uma mistura de ‘dignitas’ aristocrática e incompreensão do mundo moderno que é, em essência, o espírito da própria história.

Além da família ‘Crawley’, Julian Fellowes desceu os degraus da casa para narrar também as vidas e as aspirações da criadagem. O artifício, já utilizado em ‘Gosford Park’, atinge aqui um requinte e uma atenção psicológica aos personagens que o filme de Altman não comportava: da cozinheira ao mordomo, do motorista à camareira, cada habitante de ‘Downton Abbey’ tem direito a tratamento de luxo.

Contas feitas, é um erro ver em ‘Downton Abbey’ uma mera telenovela de época, à imagem das dezenas de produções que Londres oferece todos os anos. No seu rigor histórico; na riqueza dos diálogos; na sumptuosidade dos cenários; e sobretudo na complexidade da sua galeria de indivíduos, ‘Downton Abbey’ é já o acontecimento televisivo desta segunda década do século XXI.

Título: ‘Downton Abbey’

Autor: Julian Fellowes

Intérpretes: Hugh Bonneville, Laura Carmichael, Jim Carter, Michelle Dockery, Phyllis Logan, Elizabeth McGovern, Lesley Nicol e Brendan Coyle

CINEMA: ‘A DAMA DE FERRO’

Quem deseja saber algo sobre Thatcher não vai ao cinema: fica em casa e lê, por exemplo, o livro de John O’Sullivan, ‘O Papa, o Presidente e a Primeira-Ministra’ (Alethêia). Este filme vale o bilhete pela interpretação de Meryl Streep. Depois de a vermos como Margaret Thatcher, é a própria Thatcher quem nos parece um pouco forçada.

Realizador: Phyllida Lloyd

Intérprete: Meryl Streep

LIVRO: ‘CIVILIZAÇÃO – O OCIDENTE E OS OUTROS’

Falar de ‘Ocidente’ e da sua superioridade pode convidar ao riso e à crítica. Sobretudo nos departamentos de Humanidades que fizeram do ‘Ocidente’ o bode expiatório de todos os males do Mundo. Niall Ferguson não dá para esse peditório e mostra a excelência da civilização ocidental. Um dos grandes livros do ano.

Autor: Niall Ferguson

Edição: Civilização Editora

DVD: ‘50/50’

Como fazer um filme sobre um paciente de cancro sem cair na ratoeira lacrimejante de ‘Laços de Ternura’? Levine responde com ‘50/50’, história de um argumentista de rádio que aos 27 anos tem esse amargo veredicto. O que podia ser um filme indigesto transforma-se em comédia melancólica sobre a importância da amizade.

Realizador: Jonathan Levine

Intérpretes: Joseph Gordon-Levitt e Seth Rogen

FUGIR DE...

‘J. EDGAR’

Fugir de Clint Eastwood? Deus me perdoe. Mas, como dizia o outro, não havia necessidade. Clint inspira-se em todos os rumores sobre o lendário J. Edgar Hoover, director do FBI durante quatro décadas, e monta um museu de cera histérico, unidimensional e convenientemente homoerótico. Falta a ‘J. Edgar’ a dimensão de ambiguidade que confere aos seus filmes uma certa grandeza moral.

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Comentários a esta notícia
  • Comentário feito por:Jose Santos
  • 29 Fevereiro 2012

Depois de ver séries com esta qualidade, torna-se muito difícil "comer" telenovelas e seriados sem a mínima qualidade. DA coloca a barra altíssima, faz lembrar Os Despojos do dia, com uma sublime fotografia e cenografia.

  • Comentário feito por:Jose Santos
  • 29 Fevereiro 2012

Depois de ver séries com esta qualidade, torna-se muito difícil "comer" telenovelas e seriados sem a mínima qualidade. DA coloca a barra altíssima, faz lembrar Os Despojos do dia, com uma sublime fotografia e cenografia.

  • Comentário feito por:Jose Santos
  • 29 Fevereiro 2012

Depois de ver séries com esta qualidade, torna-se muito difícil "comer" telenovelas e seriados sem a mínima qualidade. DA coloca a barra altíssima, faz lembrar Os Despojos do dia, com uma sublime fotografia e cenografia.

  • Comentário feito por:Jose Santos
  • 29 Fevereiro 2012

Depois de ver séries com esta qualidade, torna-se muito difícil "comer" telenovelas e seriados sem a mínima qualidade. DA coloca a barra altíssima, faz lembrar Os Despojos do dia, com uma sublime fotografia e cenografia.

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