Opinião
Vítimas da saudade
Há 40 anos, um jovem estudante português que flanava pela Europa, à boleia, foi surpreendido por uma fila de trânsito, numa área da estrada N10, perto de Bordéus. De mochila às costas, foi-se aproximando. Mas não pôde chegar próximo. Um polícia informou-o que uma viatura com três portugueses tinha tido um grave acidente. Nada mais soube.
Por:Francisco Seixas da Costa, embaixador de Portugal em França
O jovem era eu e hoje veio--me à memória essa cena quando soube da tragédia que vitimou seis portugueses, em local que não deve distar muito daquele em que eu havia sido testemunha distante.
As estradas de ontem e de hoje são muito diferentes. As viaturas dos nossos compatriotas bastante mais seguras. A qualidade da sua condução é muito superior. Por isso, morrem muito menos portugueses nas estradas de França. Mas as mortes dos que agora desaparecem são tão definitivas como as dos milhares que, ao longo de décadas, se espalharam por aquela estrada.
A emigração, como destino trágico de aventura, transporta consigo elementos de risco permanente. A saudade que os traz e leva, entre o local onde trabalham ou onde passaram a residir e as famílias deixadas longe, acaba por potenciar esse risco. Os nossos mortos de ontem, um grupo onde se combinam várias gerações, acabam por reflectir o preço de vidas que tiveram de se fazer fora do País. Essa acaba por ser a tragédia da Pátria da saudade que Portugal continua a ser.
Infelizmente estas notícias continuam a assombrar as estradas da Europa, mas a "saudade" tem também, os seus custos.