Opinião
Partido de Sócrates
É impossível derrotar o PS sem primeiro derrubar o seu dono. PS quer hoje dizer ‘Partido de Sócrates’.
Por:Paulo Pinto Mascarenhas, Jornalista
Quando a actual direcção do PSD foi eleita, a 26 de Março passado, Pedro Passos Coelho anunciou que não iria concentrar a oposição na personalidade – ou no "carácter" – de José Sócrates. Muitos dos apoiantes mais destacados, incluindo alguns comentadores na imprensa, aplaudiram a nobreza do gesto ‘laranja’. Era o regresso da política pura e dura.
A partir daquele momento, com novo líder ungido, o PSD deixaria de perorar sobre a célebre "claustrofobia democrática". As pressões governamentais sobre os meios de comunicação social, os casos Freeport e PT-TVI ou a licenciatura independente de José Sócrates tornavam-se assuntos para esquecer.
Para trás ficava a "dessocratização" proposta por Paulo Rangel, principal adversário nas directas. Passos Coelho defendia que Sócrates um dia seria substituído no cargo. O que estava em causa e devia ser combatido eram as políticas do Partido Socialista, que, de outro modo, iriam prosseguir com outra liderança qualquer.
Cinco meses e um tango depois, Passos Coelho virou o bico ao prego. Quando o líder do PSD diz, como disse na sexta-feira, que não volta a conversar com o primeiro--ministro sem testemunhas, é de um julgamento de carácter que se trata. Por momentos, quase se poderia pensar que tinha regressado a famosa "Política de Verdade" de Manuela Ferreira Leite.
A indignação do primeiro-ministro com as declarações de Passos apenas reforça a ideia de uma ruptura inultrapassável que já não é só política, mas pessoal. "Comportamento impróprio", chamou--lhe José Sócrates, reproduzindo as palavras utilizadas contra o presidente norte--americano Bill Clinton a propósito do caso que manteve com a estagiária Monica Lewinsky na Sala Oval.
A História de Portugal ensina que, para o bem ou para o mal, as acções políticas são muitas vezes determinadas por sentimentos e ressentimentos pessoais. Lembre-se, por exemplo, do gravador que o então primeiro-ministro Pinto Balsemão levava para as reuniões no Palácio de Belém com o general Ramalho Eanes no início da década de 80 do século passado.
José Sócrates está apenas a colher as tempestades políticas que cultivou desde o início do seu primeiro mandato com os sucessivos presidentes do PSD, de Santana Lopes a Manuela Ferreira Leite. Todos já perceberam que é impossível derrotar o PS sem primeiro derrubar o seu dono. PS quer hoje dizer ‘Partido de Sócrates’.
Aquilo é mais uma seita mística que aceita o suicídio colectivo em tributo ao trágico e amado líder.