O Cabo Submarino
Regresso ao passado
Sempre que muda o governo muda o apuramento das contas do Estado. Como nos clubes de futebol.
Por:Medeiros Ferreira, Professor Universitário
Os partidos que se comprometeram com o ‘Memorando de Entendimento’, e que em princípio irão governar o país, de uma maneira ou de outra não se têm dado ao trabalho de explicar o futuro modo de aplicação do receituário. Parece tudo muito óbvio, mas está longe de o ser. A única medida que mereceu algum debate ‘interno’ foi a anunciada redução da TSU de 4 ou 8 pontos, não se sabe bem, por parte do PSD, que irá descapitalizar as receitas da segurança social a troco de um remoto empréstimo de competitividades às empresas. Neste particular, foi o PS ainda quem demonstrou mais prudência.
Deste modo, os três partidos do arco da troika anseiam por um qualquer erro lateral dos adversários que os tire das preocupações substanciais sobre as questões da futura governação.
Quinta-feira foi dia de regresso ao passado. Entrevistado pela Renascença sobre a hipótese de voltar a referendar o aborto, Passos Coelho, surpreendentemente, bordou um argumentário especioso, pouco claro e cheio de subentendidos, com receio de desagradar ao ‘vasto auditório’ conservador que julgava ter em linha. O erro pareceu-me evidente mal ouvi as palavras dele tiradas a ferros mas com fluência. Logo se comentou tratar-se de uma escaramuça de fronteira com o CDS, versão ‘grande líder’, que não explicava a incerteza que Passos Coelho levantara perante uma questão ultrapassada na agenda política, e até ideológica, da sociedade portuguesa, inclusive por largos sectores de católicos menos constantinos no mundo actual.
O que faltou a Passos Coelho foi a coragem, ou o dom, da clareza na questão da IVG, e isso é muito perturbante num líder que podia ter apresentado uma linha de coerência com o seu pensamento nesta matéria. Teria sido fácil escudar-se no facto de a alteração da lei não constar do mastigado programa do PSD. Mas não, o líder do PSD abriu as portas à especulação e à repetição de uma batalha do passado, em que nem sequer estivera do lado vencido. Perdeu assim mais um dia em desmentidos e esclarecimentos. Por falta de firmeza nas suas próprias convicções.
A campanha eleitoral tem seguido o guião de tantas outras: as denúncias de nomeações governamentais, os acertos de contas sobre o estado da execução orçamental, as reclamações sobre o verdadeiro estado financeiro do país. Pelo menos desde 2002, sempre que muda o governo muda o apuramento das contas do Estado. Como nos clubes de futebol.