E as capacidades políticas requeridas ultrapassam os arrimos clássicos da ética da convicção e da ética da responsabilidade. Nem sequer me refiro a qualquer dimensão extraordinária como estadista, pois que os países europeus terão de resolver os problemas do dia com dirigentes normais em democracia. Refiro--me, sim, a uma inteligência aguda da situação, para além das ideias feitas com que chegou ao poder.
Ora a inteligência da situação passa por não considerar a proposta sobre a TSU como a única questão que a coligação terá de rever. O governo terá ainda de recuar no seu perigoso afrontamento com o Tribunal Constitucional quanto aos salários da função pública e às pensões de reforma. Ou seja, o governo terá de refazer o já anunciado para a proposta de orçamento. O afunilamento do governo para resolver unicamente as iníquas percentagens da TSU será um erro que não abafará o clamor que se levanta em toda a nação.
O principal problema de qualquer governo em Portugal nos próximos tempos é o de conseguir alterar os termos da sua relação negocial com a troika. Da atitude passiva actual de bom aluno mesmo de maus mestres, qualquer outro governo deverá evoluir para uma atitude de negociador capaz, responsável e transparente, quer perante o seu povo quer perante os organismos internacionais envolvidos. Neste aspecto, como noutros, o executivo de Passos Coelho falhou redondamente. Essa falta de sentido negocial com a troika é mesmo a grande crítica que endereço a Vítor Gaspar, cuja meritória trajectória institucional é conhecida. A ida ao Conselho de Estado para explicar esse quadro negocial perante o PR deve ter sido um exercício potencialmente virtuoso…
Este governo acabou por razões internas e exteriores como o levantamento popular de sábado. O PR tudo fará para lhe adiar a certidão de óbito até à apresentação de uma modelada proposta orçamental. A partir daí, o caminho estará traçado. Só faltarão o tempo e o modo.
O que é mais engraçado, a julgar pelas notícias, o Conselho de Estado vulgo brigada de reumático, fez com que PSD/CDS recuassem na TSU. Para quê reunir, se o povo já tinha mandado às ortigas na manifestação do dia 15?