O Cronista Indelicado
A intolerância de ponto e outras pieguices
Esta semana, Pedro Passos Coelho armou-se em Churchill dos pobrezinhos. Diante dos bombardeamentos alemães, o primeiro-ministro inglês disse que apenas tinha para oferecer sangue, suor e lágrimas. Diante dos sacrifícios impostos pela troika, o primeiro-ministro de Massamá disse que só tem para oferecer um combate sem tréguas à pieguice e a "velhos comportamentos muito preguiçosos".
Por:João Miguel Tavares (jmtavares@cmjornal.pt)
Some-se a isso a arriscadíssima recusa em conceder a tolerância de ponto no Carnaval (uma coisa é enterrar feriados mortos há décadas, outra bem diferente é impedir os funcionários públicos de celebrar uma festa genuinamente popular) e somos obrigados a concluir que a cada dia que passa Passos dá mais um passo na direcção do ideal mendicante: pobreza, humildade, perseverança, resiliência - e logo a seguir o céu da Europa.
Não me interpretem mal. Eu acho a atitude meritória. Mas tem um problema: a vida monástica não é para todos. Nós vivemos num país em que o franciscano mais famoso (o estimável padre Vítor Melícias) tem uma reforma de 7450 euros. Os votos de pobreza em Portugal têm este género de subtilezas. E portanto, a recorrência com que o primeiro-ministro tem utilizado a ladainha austero-moralista é uma jogada altamente arriscada - é como colocar um fumador inveterado a guardar um paiol.
Quando se assenta a necessidade de reformas em cima de um discurso tão virtuoso, então todas as acções do Governo devem tender para a santidade. O que se exige aos governados tem de se exigir a dobrar aos governantes. E a questão é esta: terá Passos Coelho a certeza de ver um halo dourado por cima da cabeça de todos os seus ministros? Ou muito me engano, ou isto ainda vai acabar mal.
Não sei se vai acabar mal,mas está a ir mal...na mesma semana que pede que se acabe com a pieguice e analtece a filosofia austero-moralista,dá uma entrevista a dizer que os politicos são mal pagos...preocupante