O problema que aqui levanto é outro bem fora dos centros de reclusão. Não se compreende que a população de detidos aumente quando, balanço após balanço, os serviços de controlo da segurança interna nos vão informando do constante decréscimo dos crimes praticados. Isto é, a fazer fé nas estatísticas, temos cada vez menos crimes e temos cada vez mais criminosos detidos. Dir-se--á que os juízes estão com a mão mais pesada. Ou, vendendo imagens de Polícias, que estas são agora mais eficazes do que eram há dois ou três anos. Admito estas duas verdades. Mas não com esta dimensão. Nem os juízes, de repente, começaram a ser mais duros, nem as Polícias se abriram à eficácia apenas nos últimos dois ou três anos.
Julgo que a explicação passa também pela leitura da estatística oficial, que nos entrega números quase sempre decrescentes de actividade criminosa. E, sendo certo que qualquer ministro gosta de mostrar que durante o seu mandato o povo está mais seguro, também é verdade que a leitura dos números não revela que fenómenos se escondem por detrás dos indicadores habituais e oficiais da actividade criminosa. Até admito que não sejam números manipulados, mas seguramente estão mal percebidos. Não é possível aumentar tão significativamente o número de detidos e, ao mesmo tempo, a criminalidade estar a baixar ano após ano.
Era importante, para um combate eficaz e sério ao crime, ir um pouco mais longe nesta reflexão, e não permitir que cada relatório seja recebido com desconfiança. Hoje, quando a política não passa de uma mera serva da economia e das finanças, em que os presos são avaliados pelo que custam ao Estado e não pela sua condição humana, fazer uma reflexão atenta é capaz de ser um dos maiores serviços a prestar à Justiça e ao cidadão comum. Para sabermos se são presos a mais ou se, como tudo indica, são crimes a mais e estamos também neste domínio vivendo o sonho cor-de-rosa da avestruz quando a tempestade se aproxima.
Ainda agora comentei uma notícia de um violador que,segundo a mesma,cometeu uma série de tropelias e ficou em liberdade que,naturalmente,se encaixará naquilo que acaba de descrever?