Se no quadro da idiotice nacional Cristiano Ronaldo passou definitivamente de melhor jogador do mundo para o pior das classes de iniciados de um qualquer clube de bairro. Ou se, marcando um golo e arrumando a Holanda, ascende ao Olimpo, deus perfeito que assegurou a redenção nacional. Enquanto vivemos esta efemeridade apaixonada, tão breve e imaterial, feita de auto-estima e entusiasmo, num outro palco, na Grécia, joga-se muito mais do nosso destino colectivo. Aí não se decide quem ganha o Euro. Decide-se como nos vamos aguentar no euro e qual o custo que vamos pagar.
Talvez a selecção passe a eliminatória. Talvez fique pelo caminho. Quinze dias depois, tudo estará esquecido. As eleições gregas, as dívidas espanhola e italiana, daqui por 15 dias poderão ser o nosso maior pesadelo, o arrastamento para mais sacrifícios, o desmoronamento do esforço de mais de um ano com o cinto apertado até à angústia final. O entusiasmo em torno do futebol tem esbatido este conjunto de ameaças que pesa sobre o País. Mas percebe-se que não é o entusiasmo de outros campeonatos. Pairam no ar, e nas notícias, sinais de perigo que nenhum golo, mesmo do Cristiano Ronaldo, é capaz de esconder.
Muito do nosso futuro está em jogo. Na Grécia. No sítio onde se vai encontrar a coragem para definitivamente pôr os fracos líderes europeus a salvar a ideia de Europa unida ou, declarando a sua incompetência já percebida há muito tempo, nos arrastarão para um desastre cuja saída não se descortina num futuro próximo. Nunca como hoje é exigido a quem lidera tanta coragem e capacidade de decisão para não conduzir o espaço europeu para a maior crise dos últimos 70 anos. Estamos na ponta final da tragédia e os especuladores, os vigaristas do costume, jogam no tabuleiro dos juros as nossas vidas. Ou encontramos a redenção ou não existe muito mais tempo para caminharmos para outro destino que não seja a miséria final, até mesmo a guerra. Comparando com esta dimensão apocalíptica de uma Europa destroçada, já bem real e bem próxima de acontecer, o tal golo do Ronaldo não passa de um meteoro a passar na escuridão mais negra que se aproxima das nossas vidas.
Enquanto formos só um povo de Cristianinhos e Ronaldinhos,alienados nas mais fúteis acções do dia a dia,é bem possível que um meteoro negro como breu caia em cima das nossas cabeças sem sequer darmos por isso.É o fim!