Este seria o momento ideal para, mais do que reformar, refundar o serviço público de TV e rádio em Espanha, ou em Portugal. O modelo de operadores e de prestação de conteúdos deveria adequar-se aos tempos.
Os canais generalistas dos EUA, privados, não têm nenhuma série candidata às melhores do ano nos prémios Emmy. É a primeira vez que acontece e resulta do actual "modelo de negócio" da TV generalista, seja nos EUA, seja em Portugal: embaratecimento dos programas por fuga da publicidade pela perda de espectadores.
A "TV de qualidade" vai-se mudando para a TV temática ou duplamente paga, como o canal HBO, o mais premiado ou nomeado nos Emmy. Esta TV de qualidade é privada e capitalista, funcionando pelas regras da oferta e da procura. Há empresas de TV vocacionadas para produzir conteúdos com a máxima qualidade técnica, de argumento, de representação, etc. Na RTP 2, a maioria dos programas interessantes estrangeiros provêm de TV capitalistas.
As audiências — base do que os críticos apelidam de tenebroso "mercado" — motivam o esgotamento da TV generalista. Não está morta, mas desiste da programação relevante, seja "popular de qualidade" seja "elitista de qualidade".
A TV generalista vive ainda no modelo histórico dos anos 80, hoje incapaz de produzir programação de qualidade.
No caso da nossa TV pública, estaremos num beco sem saída? A reforma da RTP preparada pelo governo corta no regabofe, mas apenas remenda o modelo esgotado dos anos 80 e protege a elite do operador público; e a elite político-intelectual mais ou menos de "esquerda" defende o modelo dos anos 80, sem tirar nem pôr. Nenhuma solução serve a prazo. O país e os portugueses andam mais depressa do que estas elites. Na mesma ou remendado, o modelo de TV generalista pública está condenado. Por quem? Pelos espectadores. O Relatório do Grupo de Trabalho de que fiz parte em 2011 propunha um modelo de serviço público adaptado aos tempos actuais. Para o matar? Não, para o salvar e para servir os portugueses. Mas nem governo e parlamento, nem a elite da "esquerda" protozoária que domina as páginas dos media, permitirão que o serviço público se adeqúe ao paradigma que está a nascer, porque, sendo o próprio "sistema", não conseguem ver de fora para dentro e apenas agem de acordo com o paradigma dos anos 80. Falta visão, vontade e coragem.
A VER VAMOS
OLIMPÍADAS: A DEMOCRACIA BRITÂNICA EM GRANDE ESPECTÁCULO TELEVISIVO
A abertura das Olimpíadas foi um espectáculo duma democracia que absorve a cultura popular, incluindo a pirosa, pondo-o a par da cultura elitista. A Inglaterra mostrou a superioridade da democracia, dando lugar ao humor pela primeira vez na cerimónia e sem temer brincar consigo mesma, a começar pela rainha, simulando um salto em pára-quedas. Quantos chefes de Estado manteriam o carisma participando desta forma inclusiva no espectáculo? A cerimónia juntou exemplarmente o espectáculo real, feito de pessoas e coisas, sem o digital falso que domina o audiovisual, mas com um carácter televisivo complementar e nele indispensável, destruído em Portugal pelos comentários imparáveis e insuportáveis dos palradores da RTP.
JÁ AGORA
O GOVERNO CEDEU À IMORALIDADE
Os media fizeram manchete esta semana com uma notícia que o Panóptico deu aqui aos leitores em 1 de Julho: a manutenção de salário concedida pelo governo a dois administradores da RTP. Mais um caso que abala a credibilidade da austeridade. Os administradores, facilmente substituíveis, mostraram falta de solidariedade e o governo cedeu. O "sistema" serve-se a si mesmo.
Gosto dos artigos deste senhor Cintra Torres. Mas que deve ter muitos inimigos na nossa TV "PÚBLICA" terá de certeza.