O pessimismo derrotista parece uma fera que escapou do jardim zoológico e anda à solta tentando atacar-nos. Quem não sente a dor da crise? Talvez alguns ricaços sem coração, porque o mal do nosso próximo deve criar em nós solidariedade e responsabilidade. É certo que o Governo tem uma missão fundamental na ultrapassagem desta crise, com o seu séquito de malefícios: desemprego, endividamento, pobrezas várias e até fome... Devemos ser exigentes com quem nos governa, o que significa a defesa dos fracos e a vigilância estimulante em prol duma governação melhor.
Já o P. António Vieira, que experimentou a grave crise da falta de independência nos tempos dos reis Filipes e as desmedidas dificuldades da restauração, nos exortava num sermão para que fôssemos mais «repúblicos», ou seja, ativos construtores do bem comum, ultrapassando individualismos e interesses de grupos e classes. Para grandes males, grandes remédios, recorda a sabedoria do nosso povo.
Um grande remédio que é preciso aplicar para curar Portugal enfermo é uma onda de solidariedade e esperança. «Solidariedade» não é um vago sentimento de filantropia, mas gestos concretos de ajuda. Bento XVI, na sua encíclica Caridade na verdade, recorda que «a solidariedade consiste, primariamente, em que todos se sintam responsáveis por todos» (nº 38): governantes e governados, partidos e sindicatos, patrões e empregados, indivíduos e famílias, igreja e sociedade civil… Vem-me à memória um provérbio da sabedoria oriental: «Quando o vento sopra forte, uns levantam muros e outros constroem moinhos de vento». Levantar muros é uma atitude de mera defesa. Construir moinhos é saber dar proveito e utilidade ao que parece ser só um estorvo. Importa emigrar da dor da crise para o país da solidariedade e da esperança.
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